Lixero leva mais de mil camisetas pintadas à mão para exposição na Porta
Figura lendária da cena punk paulistana, artista apresenta acervo que celebra a história visual da cultura punk e do faça você mesmo
Durante muito tempo, uma camiseta de banda dizia muito mais do que o gosto musical de quem a vestia. Antes do merch das suas bandas favoritas chegarem nas vitrines das lojas da galeria do rock, nas collabs de moda e até nas redes de fast fashion, vestir a camiseta de uma banda era, muitas vezes, um gesto construído com as próprias mãos – seja porque o acesso no Brasil era difícil, seja por falta de grana mesmo.
Uma camiseta lisa usada, tinta para tecido ou uma lata de spray, pincel ou máscara de stencil, uma capa de disco ou foto como referência e um mínimo de habilidade manual bastavam para transformar roupa em identidade. No punk, nunca foi apenas sobre estética, mas sobre pertencimento, autonomia e uma forma de fazer existir aquilo que a indústria ainda não havia transformado em produto. É dentro desse contexto e tradição que o trabalho do Lixero nasceu e se desenvolveu.

Vindo da periferia de São Paulo, Lixero é um dos personagens mais queridos e reconhecíveis da cena punk paulistana e, se você frequenta shows, provavelmente já esbarrou com ele por aí. Nascido e criado na Vila Carolina, bairro operário emblemático da Zona Norte e um dos berços do punk brasileiro, ele carrega uma trajetória profundamente ligada à cultura que ajudou a moldar sua obra. É dali, do mesmo território que revelou bandas como Restos de Nada, Condutores de Cadáver e Inocentes, que emerge o artista responsável por transformar camisetas pintadas à mão em um dos símbolos mais sinceros da cultura punk DIY local.
No próximo dia 11 de julho, a Porta, em Pinheiros, recebe uma exposição que promete reunir mais de mil camisetas pintadas à mão por Lixero ao longo de décadas. O número impressiona, mas o que realmente chama atenção é a consistência de um trabalho feito à mão, peça por peça.


Até camiseta virou poster de divulgação da exposição nas mãos de Lixero
Lixero pertence à segunda onda do punk na cidade e quem frequenta shows e faz parte do rolê sabe que o cara é onipresente. Seja colando na porta dos shows tentando vender suas camisetas, pedindo um cigarro ou uma cerveja, seja no meio da roda, pogando até cair, ele se tornou parte viva da cena punk paulistana. Não apenas alguém que observa essa cultura de perto, mas alguém que respira essa cultura até hoje, todos os dias.
Seu trabalho com arte começou de forma espontânea. “Desenho desde criança. Já nasci com o dom”, conta. Ao longo do tempo, passou pela aerografia, pelos letreiros, pela pintura à óleo, e foi desenvolvendo novas técnicas enquanto experimentava diferentes suportes. O ponto de partida para as camisetas veio a partir de um amigo que trabalhava com silk screen na Rua Cantareira, no centro de São Paulo. Lixero levou alguns desenhos, os primeiros pedidos apareceram e, pouco a pouco, uma peça foi puxando a outra. “A gente vai fazendo e vai pegando técnica, mas desde criança mesmo e já desenhava muito.”
Seu processo criativo continua atravessado por esse mesmo impulso direto. Às vezes a referência vem de uma capa de disco, às vezes de uma foto de artista, às vezes de uma imagem que simplesmente fica gravada na cabeça. “Já vejo o visual, o desenho, gravo na mente e imagino passar o que está na cabeça para a superfície.” Nem sempre, claro, a inspiração aparece com facilidade. “Tem vezes que a inspiração não quer vir não”, diz, rindo.
Todas as suas camisetas partem de referências reconhecíveis, sobretudo capas de álbuns e fotografias de bandas, mas o resultado nunca busca perfeição ou realismo, pelo contrário. É justamente na imperfeição que mora a força do seu trabalho. Seu senso muito particular de profundidade, simetria e proporção, somado às limitações de materiais simples, paleta de cor limitada e tintas baratas, acaba criando imagens novas, às vezes estranhas, quase sempre imprevisíveis e invariavelmente únicas. A referência está ali, evidente, mas a camiseta final nunca é uma cópia. Nem mesmo o próprio Lixero conseguiria repeti-la exatamente da mesma forma.

Ao longo dos anos, passaram por suas mãos camisetas de bandas fundamentais da cena brasileira, como Cólera, SUB, Inocentes e Ratos de Porão, além de nomes internacionais como The Stooges, Crass, The Fall, Spitfire Boys e Los Crudos. Mais do que reproduzir logos ou capas, Lixero construiu um trabalho movido por repertório, gosto e ligação real com a cultura que atravessa essas bandas. “Bagulho de black metal, esses lances assim mais obscuros, eu não curto fazer não, não faço”, resume, deixando claro que também existe curadoria no que escolhe pintar.
Entre as histórias que conta com orgulho está um encontro com os Los Crudos, quando a banda tocou no Centro Cultural da Juventude, na Zona Norte de São Paulo. Na ocasião, ele presenteou um dos integrantes com uma camiseta pintada à mão inspirada na iconografia zapatista. “O cara ficou louco, foi mó satisfação, os caras são sem palavras e eu curto a banda também.”




Registros da exposição de Lixero na SELVA em Nova York
Esse reconhecimento também ultrapassou fronteiras. Em 2024 e em 2005, uma seleção de suas camisetas foi exibida em exposições individuais na SELVA em Nova York – misto de bar, galeria, loja de discos e café – e hoje seu trabalho circula entre colecionadores nos EUA, Japão, Europa e em outros países. Ainda assim, Lixero fala sobre essa expansão com a mesma simplicidade com que fala dos primeiros pedidos. “Pra mim não importa se é pra cá ou pra fora. É a mesma satisfação. Quanto mais abrir o leque, melhor”. Lixero também conta que também curte pintar em outras superfícies além do tecido das camisetas. “Eu faço umas pinturas em tela também, à óleo, uns quadrinhos, quando sobra um tempo e vem uma inspiração monstra, já vendi algumas, inspirada em Ramones, Bowie, Misfits".
Essa exposição na Porta ajuda a dimensionar a potência dessa trajetória. Reunidas em conjunto, as mais de mil camisetas deixam de funcionar apenas como peças individuais e passam a revelar um arquivo visual construído ao longo de décadas. Ali estão bandas, referências gráficas, personagens, símbolos e fragmentos de uma cultura que sempre encontrou no faça você mesmo uma de suas expressões mais fortes.
Muito antes de a customização virar tendência ou de camisetas de banda serem absorvidas pela moda mainstream, o punk já entendia a roupa como extensão da própria linguagem. Jaquetas ganhavam patches costurados à mão, calças eram remendadas, tênis recebiam desenhos e frases, e as camisetas viravam superfície para expressão direta. O DIY nunca foi só uma estética. Era uma necessidade de autoexpressão, e também uma forma de autonomia.
Em um momento em que qualquer imagem pode ser criada em segundos por um prompt e reproduzida infinitamente, suas camisetas preservam algo que nenhuma máquina consegue repetir: o gesto, o tempo e a presença de quem fez. Os resultados podem ser imperfeitos, mas carregam uma sinceridade que não se fabrica. Quando fala sobre a principal influência do punk em sua vida e no seu trabalho, ele resume tudo em poucas palavras: “É o faça você mesmo, né? Com os recursos que você tem, com a vontade de fazer o negócio acontecer, mesmo sem recurso, seja pra fazer um som ou arte. A vontade supera. Na simplicidade surgem as coisas bacanas.”
No caso de Lixero, essa simplicidade nunca carregou uma conotação negativa. Significou autenticidade, insistência e paixão pela cultura. E é isso que essa exposição na Porta pretende entregar: mais do que uma reunião de camisetas pintadas à mão, a mostra apresenta a trajetória de um artista que transformou um gesto típico da cultura punk em uma obra contínua, feita com repertório, mão própria e uma sinceridade impossível de replicar.
Todas as camisetas expostas na Porta são únicas e estarão à venda, por 100 reais cada. Então, se ainda não teve a chance de adquirir uma camiseta criada e pintada à mão pela lenda em alguma porta de show por aí, essa é a chance de garantir um autêntico exemplar Lixero Camisetas diretamente das mãos de quem faz e de quebra, poder tomar uma cerveja, curtir um som e trocar uma ideia com ele.
Serviço:
Exposição Lixero - Mais de Mil Camisetas
Dia 11/07 às 16h na Porta
Rua Horacio Lane, 95 – Pinheiros
No som: DJs Mari Dipp, André Dipp, Kalota e Camilla Jaded