Dez Andares quer ser tudo, menos viral

Projeto de Shinji Shiozaki se apoia na vontade de fazer arte sem se preocupar com resultados e algoritmos

Dez Andares quer ser tudo, menos viral
Foto: Janvi

Falar que "ah, vivemos na era da pressa" está batido, mas dessa vez o clichê cabe certinho. O algoritmo não perdoa, marcas querem métricas, e o ciclo de vida de qualquer post, por mais interessante que seja, costuma durar menos que um story. Aqui na ISMO a gente sabe bem disso. É basicamente contra toda essa lógica que o fotógrafo e diretor Shinji Shiozaki resolveu colocar energia com o projeto DEZ ANDARES.

Shinji é o cara por trás do documentário Imaterial (2019), em que retrata o processo criativo de pessoas que têm o skate como objeto artístico, do fotolivro Áspera (2020), e de outros projetos que já mergulharam na cultura do skate e da rua. Só que depois de um tempo trabalhando com vídeo, decidiu se afastar do formato. "Como eu fiz o Imaterial, fiquei meio cansado de trabalhar com vídeo, sabe? E aí eu comecei a achar que esse ano eu tinha que voltar com um projeto de vídeo. E eu queria que não fosse sobre mim... que eu fizesse uma curadoria", ele conta.

E foi vendo vídeo atrás de vídeo no YouTube, entediado com a repetição do feed, que a ideia começou a tomar forma. Shinji queria o oposto de tudo que rola nas redes, e não está exagerando quando diz isso. 

"Eu costumo dizer que eu tava procurando um produto que fosse antialgorítmico. O formato não é para as redes, o tema não é para as redes, tipo, é tudo contra... tentar fazer alguma coisa original"

A ideia central do DEZ ANDARES é relativamente simples: convidar artistas, skatistas, músicos e curadores para caminhar pelas ruas de São Paulo (ou de onde estiverem), enquanto batem um papo. Cada convidado ganha uma câmera analógica carregada com filme 35mm e um limite de 10 cliques.

Ele repete várias vezes durante nossa conversa que o projeto é bem aberto, o que já mostra certa liberdade, mas sem virar bagunça. Shinji precisava de um formato que segurasse tudo junto. "Eu queria envelopar de uma forma que eu pudesse fazer de tudo, mas que o de tudo não fosse qualquer coisa, entendeu? Então, eu queria que fosse através de fotografia analógica e não necessariamente um fotógrafo". E o vídeo que registra essas caminhadas também tem linguagem própria, filmado com lente anamórfica de verdade, sem edição ou efeito emulando. É tudo físico.

Todo esse movimento esconde uma sacada muito foda para garantir autenticidade no conteúdo. Shinji já entrevistou gente suficiente para saber que microfone, luz profissional e pessoa sentada no banco, geram uma persona, e que essa máscara costuma cair assim que a câmera desliga. A solução foi distrair o cérebro do entrevistado com a tarefa de fotografar. 

"A questão da fotografia dentro do projeto é para gerar um desconforto e a pessoa se desarmar. Eu acho que quando tu fotografa, tu tem que pensar em tanta coisa que você começa a ficar mais sincero"

É aquela história, quando a gente pede para fazer um retrato de alguém, ela já se arma, posa, ajusta coluna, modula sorriso… Nas entrevistas acontece a mesma coisa, quando começa é uma pessoa e quando termina ela é outra, as vezes mais legal até... Então, caminhar com uma câmera deixa tudo mais tranquilo.

Aliás, essa lógica também conversa diretamente com o objetivo antialgorítmico do projeto. Os materiais gerados a partir das caminhadas, ou seja, o vídeo, as fotos, os postais, tudo isso não se encaixa perfeitamente nas redes, justamente porque são coisas com tempos diferentes. Shinji comenta, por exemplo, que ocorre dos entrevistados perguntarem sobre não falar o tempo todo, se vão atrapalhar, quando na verdade também tem uma poética ali no silêncio, também é estética; talvez não para um reels, que tem cortes frenéticos e voz ou música o tempo todo. No DEZ ANDARES o tempo é outro, apesar de também existir ali nas plataformas.

Em outra oportunidade que tive de conversar com o Shinji, percebi que existe um histórico de controlar todas as etapas produtivas de seus projetos, como no caso do Áspera, em que imprimiu, refilou e encadernou cada um dos livros. Aqui é um pouco diferente, apesar de ainda fazer boa parte do trabalho solo. A lista de convidados, que já teve nomes de peso como o do produtor e músico Kiko Dinucci, só entrou porque teve o corre de produção da Patricia Patochan.

Outra ajuda, agora entre as referências visuais do trampo, é a da revista japonesa Provoke, projeto impresso do final dos anos 1960, que durou pouco, mas até hoje é uma bíblia para quem fotografa as ruas e o caos. É dela quem vem a estética mais suja, granulada e também a falta de medo em errar. Aliás, essa relação com o erro, com o experimental e com a liberdade de criar sem amarras, ter conexão com algo que existiu em outro tempo do outro lado do mundo, diz muito sobre nossa realidade atual com as artes aqui no Brasil.

Parece uma contradição gritante o que rola por aqui, já que enquanto o Brasil meio que ignora esse tipo de produção, lá fora ela pode ganhar peso acadêmico. O Imaterial nunca entrou em nenhum festival brasileiro, mas está na grade curricular de três universidades americanas. "Ele entrou em grade curricular da Universidade do Bronx, Universidade de Washington e San Diego.

Não é vitimismo nem viralatismo, a gente sabe que existe uma produção artística bem foda aqui, tem museus com filas de pessoas interessadas em visitar, e o mercado de arte tem movimentado cifras bem altas. Mas não é como se isso funcionasse para todos os formatos.

"O direcionamento do olhar artístico do Brasil, ele é diferente. Talvez o meu interesse em produzir não seja o que a galera esteja a fim de investir"

Nesse contexto, dava até pra imaginar que o Shinji sairia correndo atrás de patrocínio para viabilizar a parada autoral, ou mesmo ter alguma chancela desde o início, mas fez exatamente o contrário. "Eu não queria que ele fosse lançado a partir de uma marca. Eu tinha muito medo disso de abrir com uma marca assinando, eu fiquei assim: ‘hum, talvez seja melhor começar sozinho".

A postura tem raiz lá no DIY, na cultura de skate e punk mesmo. "Se tu não tomar o controle, se não fizer assim, ninguém vai fazer por ti, tá ligado?... Eu tava com, sei lá, três episódios prontos, projeto pronto, aí apresentei para uma galera e ninguém se mexeu... E aí é isso, vamos para cima assim, sei lá o que vai dar".

E a escolha de apostar no nicho também tem referência, que nesse caso é do projeto americano Hamburger Eyes, feito por fotógrafos de rua que hoje expõem em museus enormes, mas que no começo, há 25 anos, era só um cara clicando e publicando o que a galera mandava. "O Hamburger Eyes é uma coisa que eu olho e falo: 'porra, é isso aqui que queria fazer.' O projeto parte de uma ideia de fanzine mesmo, de aceitar que não vai, não é uma coisa com muito clique, é um lance de nicho e tudo bem".

Shinji Shiozaki e Kiko Dinucci | Foto: Patricia Patochan

E por falar em não ter pressa, até o título do projeto nasceu quase que por acaso. A referência inicial era literária: "Para o nome eu sempre pensei muito no Livro do Desassossego (1982), do Fernando Pessoa, que eu gosto muito e eu queria que tivesse alguma coisa relacionada a isso". Daí o trocadilho de repetir “dez andares" rápido e virar "desandares", ou seja, um caminhar sem destino certo. "Eu pensei um monte de coisa e quando veio Dez Andares me soou bem. É um lugar que tu não sabe para onde tu vai".

No fim das contas, o DEZ ANDARES é sobre fotografia, é sobre arte, é sobre os convidados isoladamente e sobre nada disso ao mesmo tempo. Ele fala muito sobre o direito de andar sem rota definida em um momento em que cada scroll na tela foi pensado para nos prender mais um pouco. Um filme de 35mm com algumas chances de errar, uma câmera na mão de gente que as vezes nunca fotografou, e o silêncio como parte da conversa. Tudo isso é o tipo de coisa que pode não render um número muito grande de engajamento tão cedo. Mas, como o próprio Shinji disse, talvez o valor real desse arquivo só apareça daqui uns anos, quando a gente olhar pra trás e perceber que ele estava certo em recusar a pressa. Até lá, vale ajudar a antecipar essa percepção seguindo o projeto e vendo a cidade por outro ângulo e em outro ritmo.


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