Bardek conta a sua história de vida em primeiro disco
Entre o Concreto e o Sonho: Lado A chega para apresentar a intimidade e a trajetória do rapper carioca para o seu público
Sabe quando as pessoas começam a te conhecer pela sua arte, pelo que você faz, e você sente a necessidade de contar a sua história, quem você é de verdade? Foi isso que motivou o Bardek a construir o seu primeiro álbum – e a perceber que era a hora de falar de si mesmo. Entre o Concreto e o Sonho: Lado A é isso – a história do Bardek. Depois de projetos como Original Western Boy, Faz Parte do Meu Show e diversos singles e colaborações, o rapper carioca traz em seu disco de estreia, lançado em 29 de maio, um processo extremamente íntimo e autorreflexivo, em que revisita toda a sua trajetória de vida.
"Eu tenho projetos que falam de outras histórias, outras coisas, e eu fiquei refletindo muito sobre a rapaziada conhecer as músicas, a arte, o produto do Bardek, mas não conhecer o Bardek. Eu sinto que eu precisava entregar isso pra cultura. Vocês que estão me ouvindo, esse sou eu. Você quer ler a minha vida, ver a minha história? É esse projeto aqui para vocês entenderem. Eu sempre contei outras histórias, e em algum momento, precisava contar a minha." – Bardek
O disco chega num momento de grande amadurecimento musical da parte do artista, que mergulhou profundamente nos estudos de música, cultura e outras formas de arte no seu processo de produção. Enquanto seu primeiro disco, Entre o Concreto e o Sonho é fortemente influenciado por discos de jazz, hip hop, soul, bossa nova, MPB – tanto na sonoridade como na estética – e resultado de uma pesquisa muito profunda e múltipla que atravessa vários momentos da sua vida.

A história de Bardek começa, e se desenvolve quase que inteiramente no seu bairro, Vila Alzira, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Criado nas rodas culturais, foi introduzido ao hip hop pelos eventos e batalhas de rap, e ao pouco, ganhando gosto pela coisa. A influência veio de casa, também – o pai, DJ, foi forte influência no processo de pesquisa musical e do conhecimento prático com a música, como ele conta: "Desde criancinha, com quatro ou cinco anos, eu já sabia o que era BPM, já sabia fazer umas mixagens na Pioneer. Mais para frente, com nove, dez anos, eu vou descobrindo o rap, descobrindo a rima, as batalhas. Eu era muito criança, mas já gostava muito de batalha de rima".
Num processo longo, de descobrimentos e experimentações, Bardek foi desenvolvendo a sua trajetória, sempre levantando o nome do seu bairro e de quem esteve do seu lado. Em um momento de ascensão na sua carreira, poderia optar por colaborações com grandes nomes da indústria do rap – mas escolheu trabalhar com os produtores e MC's que sempre estiveram no seu entorno. Pibara, ÍRIS, El Gagö, Hassan Hokage, j3llyX, Leskzin, Doug.wav, ARTTY, Santtoss!, Gyylo e Lokin são os nomes que compõem o time da primeira parte do projeto.
"Eu quero, sim, morar em lugares melhores – a Zona Oeste tem os seus problemas estruturais, a falta de condição – e eu quero dar essa oportunidade para a minha família, mas eu vou sempre levantar a bandeira da minha área. Eu vou sempre lutar para esses problemas melhorarem – sempre trazer oportunidades para a minha área, pros moleques da minha área.
É importante para caralho trazer a minha área comigo, na minha arte. Isso faz parte da cultura – do hip hop, do grime, do que a gente enxerga em toda essa parada. O meu bairro é, basicamente, o que me representa. E eu represento o meu bairro, vou sempre levantar essa bandeira.
Eu sou totalmente bairrista, porque foi a minha área que me deu tudo que eu sou. Tudo que eu sou hoje foi formado aqui na minha área. Eu devo tudo à Zona Oeste do Rio de Janeiro. Para onde quer que eu vá, eu vou levar a Zona Oeste comigo."

O conceito do disco foi construído em cima das dualidades – do bem e do mal, do silêncio e do som, do claro e do escuro, da sombra e da luz. "Representa a fase que eu tô vivendo, nesse limbo, de que as coisas tão começando a acontecer, mas eu ainda não tô lá. Comecei a ter uma casa nova agora, mas tô passando por umas dificuldades – tenho um sonho de algo, mas tô vivendo uma outra coisa. O rap ainda não me consolidou, mas eu sinto que tem alguma coisa me esperando.
Quando eu falo 'entre o concreto e o sonho', não é que você deve escolher o concreto ou o sonho – não é que tem um bem e o mal. Na verdade, é saber conviver com os dois. Saber o equilíbrio das duas coisas, o caminho do meio. Por isso que tem o lado A e o lado B. Óbvio que, no final, o pessoal vai ter um lado favorito, vai escolher um lado, mas o que eu quero passar é isso, como conceito. Você vai ter as dualidades da vida, situações que vão ter aquele pêndulo e você vai saber conviver da melhor forma – nem tanto ao extremo e nem ao vazio", explica Bardek, que ampliou essa história com o projeto visual do disco, inspirado pelo mito cherokee dos Dois Lobos e que explora essas dualidades.

A capa do disco procura sintetizar tudo isso, e tem uma história doida por trás. A ambientação é, claro, o bairro em que Bardek viveu toda a sua vida, aparecendo inteiramente na vista do morro. Do lado do rapper, um cachorro que acompanhou eles na captação dos audiovisuais, e que, de forma inesperada, compôs a foto da capa.
"Eu fui duas vezes nesse local, e nas duas vezes, esse cachorro acompanhou a gente. Ele é um cachorro dali mesmo, desse morro, e acompanhou a gente. Esse cachorro, no primeiro dia, que a gente foi gravar o clipe, tava lá embaixo, subiu e desceu o morro junto com a gente, acompanhou a gente no clipe. Eu achei muito doido, porque ele podia estar em qualquer lugar, fazendo qualquer coisa – várias pessoas sobem e descem – e ele acompanhou a gente do nada.
Eu fui numa outra semana fazer a foto da capa, mesma coisa. Esse cachorro tava lá embaixo, parecia que tava esperando. Eu falei: 'mano, isso aqui é Deus?' Esse cachorro precisa estar na foto da capa. Então a gente quis fazer isso – colocar o meu bairro, o lance da dualidade, dos dois lobos, eu como personagem olhando a cidade, refletindo, o lance da cruz, do misticismo, da espiritualidade", explica ele.

Por enquanto, Bardek nos apresenta o lado A do disco – do concreto, muito afirmativo, que apresenta a sua área, trazendo o lance da natureza, da rua, da expressão corporal, da liberdade, e que não deixa de ser uma tentativa de entender a própria vida. É nesse ponto que Bardek se conecta com o seu público – ele não se propõe a trazer uma verdade absoluta, mas apenas compartilhar os questionamentos e observações do seu cotidiano. A sua arte não é um produto final, definitivo – está sempre em transformação, sendo atravessada e atravessando cada um que a ouve.
"Eu sou um homem – vou fazer 26 anos – que tô buscando entender a vida. E eu sinto que quando eu faço música, e os meus fãs vão escutando, a galera sempre coloca essa questão de que também são pessoas tentando entender a vida, buscando o seu propósito nessa parada. E a minha arte passa muito por isso. São pessoas tentando entender a vida. E a vida a gente vai tentar entender até morrer.
A gente também não entrega tudo mastigado, e as pessoas vão entendendo junto com a gente, decifrando junto com a gente, o nosso próprio caminho. Eu não sei das coisas, eu não sou dono – sou um cara tentando entender. A recompensa maior da minha carreira são essas conexões que eu tenho com o meu público.
Isso é gratificante, porque a minha arte precisa ser maior do que eu. Eu sou só uma ferramenta, só um instrumento – a minha arte que é o produto final. Eu só sou um meio na ponte para que essa arte seja eterna. O meu propósito de carreira, e de vida, é tornar a minha arte eterna, atemporal."
Entre o Concreto e o Sonho: Lado A já está disponível nas plataformas digitais, e representa o começo de um longo processo na história do Bardek. Ouça, compartilhe e acompanhe.