Kinoforum completa 37 anos de valorização dos curtas

Festival Internacional de Curtas de São Paulo chega à sua maior edição com foco em novas narrativas e diversidade

Kinoforum completa 37 anos de valorização dos curtas

Tem coisas que só funcionam no curta-metragem. A síntese do formato obriga quem o realiza a dizer o essencial antes que os minutos acabem. O Kinoforum entende isso desde 1990, quando começou a garimpar o ouro de quem fazia muito com pouco. 37 anos depois, o festival chega à sua maior edição, mais internacional e, pela primeira vez, com uma maioria de diretoras na mostra principal.

A partir de hoje, 20 de agosto, até o dia 30, o Kinoforum ocupa oito espaços culturais em São Paulo — Cinemateca Brasileira, CineSesc, Circuito Spcine, MIS, Espaço Petrobras de Cinema, Cinusp, Cinusp Maria Antônia e Cinema na Comunidade — com 260 filmes de 58 países, entrada franca em todas as sessões e uma versão digital que leva parte da seleção para o Spcine Play, Porta Curtas, Itaú Cultural Play e Sesc Digital. É um festival que insiste em ocupar a cidade, colocando o curta-metragem no mesmo lugar de valorização de outros formatos, e um que precisa estar onde o público também está.

A maior parte da programação se organiza em torno de dois eixos: os programas de linha e os programas especiais, mas é na Mostra Internacional que o festival realmente ganha amplitude. São 57 filmes de 38 países, com obras que já circularam por Cannes, Berlinale, Sundance e Locarno. Entre os destaques está Koki, Tchau (2025), de Quenton Miller, que levou o Prêmio Cupra no Berlinale e conta a história real da cacatua que acompanhou Marechal Tito, líder da Iugoslávia, para pensar memória e legado num formato próximo das fábulas. Boa Sorte a Todos (2025), outro destaque, é uma animação canadense que fala da nossa relação, como humanos, com as tecnologias que nós mesmos inventamos.

A Mostra Latino-Americana, com filmes de 12 países, parece ser onde o festival mais transita entre o político e o pessoal. Para os Oponentes (2026), do argentino Federico Luis, foi vencedor da Palma de Ouro de Melhor Curta em Cannes, acompanha um jovem boxeador, e fica bem no limite entre documentário e ficção. Já a Mostra Brasil, como o nome já diz, serve de retrato para as nossas realidades, ou seja, fala-se muito de culturas periféricas, povos indígenas, luta por terra, questões de gênero e também dá visibilidade à crescente animação nacional.

Los Mentirosos (2026)

Um ponto muito importante para essa edição é a conquista de uma maioria de diretoras na Mostra Internacional. Entre os 62 cineastas selecionados, 32 são mulheres, uma proporção que supera, por muito, a presença feminina entre os filmes inscritos no processo seletivo. Festivais do mundo todo têm se perguntado sobre quem, hoje, ocupa a autoria por trás das câmeras, e o Kinoforum parece não querer ser só reativo, e colocou o ponto como processo de curadoria.

Segundo Vânia Silva, Diretora Executiva do festival: "Esse recorde é muito importante para nós e é resultado de um trabalho contínuo de seleção aberto à diversidade de olhares. Procuramos formar equipes de visionamento e programação plurais, e a própria Kinoforum tem historicamente uma presença muito forte de mulheres, inclusive em posições de liderança.

A programação aborda questões muito variadas — memória e identidade, juventude e envelhecimento, relações familiares, gênero, território, migração e pertencimento. A presença de mais mulheres atrás das câmeras não restringe essas temáticas; ao contrário, amplia os pontos de vista e as formas de abordá-las. Para nós, essa é uma das grandes riquezas desse recorde."

Entre as novidades da edição está a seção Diálogos Urbanos, que parte da ideia de que o curta-metragem pode ser um espaço privilegiado para observar, interpretar e reinventar a experiência da cidade. Na estreia da seção, o festival coloca frente a frente as cinematografias de São Paulo e Recife, dois polos criativos distintos do cinema brasileiro. De um lado, Kleber Mendonça Filho, em Recife Frio (2009), e do outro, Tata Amaral, com Viver a Vida (1991), baseando a conversa.

O também Diretor da edição, Márcio Miranda, nos diz que a intenção do formato, ao criar um díptico entre as duas cidades, não é o de necessariamente trazer respostas claras e diretas, a partir da comparação simples, mas de estimular quem assiste, sobre o papel dos ambientes urbanos como inspiração das narrativas.

"Um ponto que nos chamou muito a atenção foi como a percepção da cidade muda ao longo do tempo. São Paulo e Recife, à medida que crescem e se desenvolvem, complexificam sua teia urbana e sua relação com o Brasil e o mundo; a mesma coisa acontece com seus curtas, que vêem suas metrópoles ganharem novos corpos, novas presenças, novos dilemas e problemáticas. Atravessam inúmeras fases: de útero, casa, lugar reconhecido, a ambiente de sonho, pesadelo, loucura, reflexão. Começar a seção com duas metrópoles tão intensas e com cinemas tão prolíficos instiga e anima pelo futuro dessa programação." - Márcio Miranda
Adrenalina (2026)

Agora, se existe um fio temático que parece atravessar essa edição é o da relação entre juventude, maturidade, memória, e a tentativa de capturar essas diferentes fases da vida em movimento. 

"As juventudes nunca saíram do radar. Novos cineastas surgem o tempo todo e com eles a sua ânsia de retratar a si mesmos, sua geração e seus dilemas. Para o Festival, é uma oportunidade de ouro ter essa janela contínua para observar as mudanças comportamentais e de valores dos jovens e adolescentes que também fazem parte do público do evento. No retrato do envelhecimento, porém, parece haver uma mudança, uma maior sensibilização talvez. Há cada vez mais jovens adultos que passam pela necessidade de cuidar de seus pais idosos, e cada vez mais idosos jovens vivendo questões cognitivas e necessitando auxílio." - Vânia Silva

Isso motivou o festival a criar o programa especial "Sol Eterno e Brando", título emprestado de um verso de Cecília Meireles, e recomendado à famílias e cuidadores que precisam de afeto em momentos de desamparo. É interessante ver que um formato caracterizado pela limitação do tempo olhe para os limites dos tempos da vida. Ser jovem, envelhecer, os momentos de passagem, são estados

E se falamos de vida e fases, falamos de formação, eixo das Oficinas Kinoforum, que há 25 anos impactam a vida de crianças e adolescentes. Marcio comenta que "O projeto Oficinas Kinoforum, nesses 25 anos, atravessou transformações profundas em vários sentidos: na tecnologia, nos territórios e na forma como os alunos se relacionam com o audiovisual. Hoje, produzir e compartilhar imagens faz parte de um cotidiano, muito diferente daquele de quando o projeto surgiu. Nesse contexto, o papel das oficinas tem sido contribuir para que o audiovisual seja também uma ferramenta de expressão, reflexão e aprendizado."

Primera Enseñanza (2025)

Vejo circularidade nesse movimento, já que um festival que nasceu para dar espaço aos curta-metragens, também formou pessoas que hoje fazem e assistem esses filmes. A Mostra Infantojuvenil segue a mesma lógica, de formar espectadores desde cedo, com o objetivo de garantir que o formato continue existindo para daqui mais 37 anos.

O 37º Kinoforum reafirma, mais uma vez, que o curta-metragem, apesar de tratado historicamente como formato menor, segue um dos territórios mais vivos, mais plurais e mais velozes para pensar o cinema que está sendo feito agora.

Serviço:

37º Kinoforum — Festival Internacional de Curtas de São Paulo
Data: 20 a 30 de agosto de 2026
Locais: Cinemateca Brasileira, CineSesc, Circuito Spcine, Espaço Petrobras de Cinema, MIS, Cinusp, Cinusp Maria Antônia e Cinema na Comunidade
Entrada franca
Mais informações: kinoforum.org


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