A AND1 mudou a cultura do basquete - e no Brasil fez muito barulho

O basquete de rua foi impulsionado por uma galera que era estilo puro: A AND1 impactou o mundo todo com seus dribles e jeito de apresentar o jogo

A AND1 mudou a cultura do basquete - e no Brasil fez muito barulho
Mixtape Tour 2005 em algum lugar dos EUA (Foto: Jamie Germano)

Streetball, um jeito diferente de jogar basquete. Uma parada com menos regras, onde o drible é tão ou mais importante do que fazer cestas, um lugar onde o estilo prevalece e os jogadores trazem o jogo pra si e não tem medo do x1. Um jeito de jogar que nasceu nas ruas, mais inclusivo e mais abrangente, mas que logo ganhou força como um movimento próprio, teve suas marcas e fez pessoas terem carreiras no basquete não necessariamente só jogando nas universidades ou indo para a NBA. 

A alta do estilo foi nos anos 90 nos Estados Unidos e muita marca se aproximou de jogadores de basquete de rua e fizeram ações legais em quadras norte-americanas, principalmente. Mas teve uma marca que foi a cara de tudo isso, trazendo a ousadia dos dribles e do trash-talk até para seus designs: a AND1 não viu o basquete só como esporte, mas sim como estilo de vida, personalidade e cultura.

A AND1 começou em 1993 e no fim dos anos 90 reuniu jogadores do basquete de rua norte-americano em um time lendário, e tudo naquele squad reverberava em influência pra quem olhava. Se a marca chegava com camisetas com frases intimidadoras do jogo de rua, o time corroborava com seus dribles, apelidos, roupas e estilo. Main Event, AO, Skip to My Lou, Headache, Shane the Dribbling Machine e outros fizeram parte do primeiro mixtape da marca, lançado em 1998, filmando os jogos de uma tour pelas quadras dos EUA. O que se viu depois, foi uma gigantesca explosão de popularidade, fazendo esses caras terem status de celebridade e muitas pessoas aderirem ao basquete de rua. 

Essa alta da AND1 no fim dos anos 90 mudou o basquete, não só o praticado nas ruas. O estilo evidenciado pelos dribles da crew chegaram até na NBA - inclusive o Rafer Alston, mais conhecido como Skip to My Lou, jogou alguns anos na liga profissional americana, e o Stephon Marbury foi o primeiro jogador da liga a ser patrocinado pela AND1. 

Stephon Marbury para um propaganda da AND1

A marca encontrou no final dos anos 90 um cenário onde os “gangstas” estavam prosperando. O rap era a música popular nos Estados Unidos e novos artistas do gangasta rap estavam despontando, influenciando também no estilo e na trilha sonora dos jovens. Com isso, tudo o que se relacionava com essa identidade tinha um lugar para brilhar: camisetas largas, bandanas, tênis de basquete, bonés para trás e munhequeiras eram itens que adentravam guarda-roupas da molecada do mundo todo - e a AND1 era uma dessas marcas que apareciam em videoclipes, quadras e no dia-a-dia da rapaziada. 

Você poderia querer ser ou o Allen Iverson ou o Hot Sauce, mas era unânime que todos queriam ter itens da AND1 no guarda-roupa. 

As frases eram foda - "Vá para a igreja / reze para não me marcar"

As primeiras mixtapes saíram em 1998

A marca tinha uma identidade bem foda já de começo, com suas camisetas e frases de impacto, mas foi de 96 pra 97 que as coisas começaram a tomar uma proporção enorme de popularidade. Com a entrada dos tênis na linha de produtos e com as produções das mixtapes da AND1, em 1998, a marca atingiu um patamar de ícone cultural, atrelando o esporte ao seu nome. O impacto da AND1 foi tão grande que o significado do Streetball se misturava ao nome da marca. Tinha gente que conhecia a modalidade por “AND1” e não, necessariamente, basquete de rua. 

As mixtapes foram fundamentais para a popularização do streetball praticado pela AND1 e para que aqueles manos se tornasse ídolos geracionais. Na virada do século, com a Internet se fortalecendo, os vídeos viralizaram e tanto cortes das mixtapes, quanto outros vídeos de cada atleta, eram assistidos incessantemente, pausando para ver e copiar os dribles e anotando o nome das músicas usadas nas trilhas sonoras. Assim como os vídeos das marcas de skate e a 411 estão pro skate em termos de influência, as AND1 Mixtapes estão para o streetball. 

A AND1 Mixtape 3 foi a que mais revolucionou: a entrada de Hot Sauce no time fez geral querer aprender dribles e ter o estilo que ele trazia. Se antes eu falei que todo mundo queria ser ele ou o Allen Iverson, era porque os dois eram ícones culturais de estilo dentro e fora da NBA. Se ser ousado era o que a molecada estava buscando, eram nesses dois caras que no basquete, de rua e profissional, eles encontravam inspiração. 

"Streetball is my job" - Essa imagem do Hot Sauce viralizou no começo da internet

Com as mixtapes, o time da AND1 passou a fazer turnês passando por vários estados americanos e, mais tarde, por outros países. Nessas passagens, além da apresentação dos times, tinha rolês nas quadras das quebradas e drafts buscando novos jogadores que despontassem em cada parada. Era louco ter uma tour da AND1 passando na sua cidade porque você poderia, literalmente, ser escalado pra jogar com eles. 

Outro fator que impulsionou a AND1 e a popularidade da modalidade de basquete a qual eles jogavam, foi a ideia de que era mais fácil jogar o basquete de rua e, consequentemente, ter uma vida de profissional nele. Bom, pelo menos era uma ideia de carreira mais pé no chão do que jogar na NBA, mas de forma errada ou não, esse pensamento do “ser mais fácil” era mais inclusivo, possibilitando que as pessoas jogassem com maior liberdade e fossem mais adeptas ao streetball do que ao basquete em si. Fora que os dribles enchiam os olhos e todo mundo tentava imitar os crossovers do Hot Sauce, tipo o Boomerang ou o Hurricane, ou os signature moves do The Professor, tipo o The Setup ou o The Teleport - ah, e posso dizer, com propriedade, que a AND1 trouxe o sonho de ser profissional no streetball pros baixinhos também, uma vez que viam na AND1 caras de menos de 1,80 ganhando dinheiro driblando todo mundo. 

Quantos garotos brancos (eu) não foram influenciados pelo The Professor?

Na realidade, claro que não era tão simples assim, não é porque você driblava geral que ia ganhar dinheiro com o streetball, mas esse foi mais um sonho que a AND1 vendeu e, com isso, conseguiu vender produtos e criar identidade por onde passou com suas mixtapes. E mesmo se você não fosse o cara mais habilidoso do mundo, você ainda podia botar uma camiseta da AND1, respeitar os símbolos da cultura e fazer parte de algo culturalmente legítimo. 

Os rolês no Brasil 

Em 2005, uma das Mixtape Tours da AND1 veio ao Brasil pela primeira vez. Ginásio do Ibirapuera em São Paulo foi o palco de um jogo que lotou as arquibancadas. Dentre adeptos do basquete e entusiastas de camisas largas e bonés New Era, a galera se empolgava com a ideia de ver Shane The Dribbling Machine, Kool Aid, The Professor e toda a gangue da AND1 jogando. Foram mais de 13 mil pessoas no Ginásio. 

A tour passou por parques de São Paulo como Ibirapuera e Carandiru, fazendo jogos com a galera local. A cada drible ou enterrada, uma enxurrada de pessoas invadia a quadra gritando “wow” e abraçando os caras. E os gritos eram mais altos ainda quando era alguém do Brasa fazendo algum drible ou chamando os caras pro x1. No jogo do Ginásio do Ibirapuera, um dos pontos altos foi quando o brasileiro Elton Felipe, o Bauruzinho, chamou o The Professor pra dançar. 

A passagem da AND1 por aqui explodiu a cabeça de muita gente, trazendo vários adeptos para a prática do streetball. Muita gente fez suas crews locais e foi para a internet apresentar seus moves mais pesados em edits misturando dribles e trilha sonora. Os parques ficaram mais cheios de gente jogando e, se a gente olhar de perto, dá pra ver essa influência da AND1 até hoje nas quadras daqui. 

O legado cultural

A AND1 perdeu força, teve seus problemas de gestão de marca e, por volta de 2015, já não era tão grande como foi no começo dos anos 2000. Mas o que se viu com seu jeito de fazer marketing, com os vídeos e tours, foi uma alta de um basquete de rua impulsionado pelos dribles e pelas filmagens. Hoje não é incomum vermos crews e canais de criadores de conteúdo de basquete que levaram adiante os moldes das mixtapes da AND1 e fazem sucesso dentro da comunidade do basquete. 

Aqui no Brasil, existem vários canais de Youtube que são famosos no rolê do basquete de rua, praticado nas quadras do Brasil todo. Insange Game BR, Payback, Street Hoops e vários outros são famosos por filmar os rachas e colocar, quase que na íntegra, o conteúdo na internet - tem dribles, tretas, trash talk e ótimas jogadas. Creators tipo o DPC ou o Matt Kiatipis também levam a cultura do basquete de rua em seus vídeos. 

Insange Game x MK

A AND1 mostrou que o basquete é muito mais do que só ir treinar nos ginásios, incorporando música, moda e personalidade no seu rolê, influenciando gerações a seguir com essa máxima do lance bonito e da possibilidade mais inclusiva do basquete ser jogado por quem quisesse.

Os OGs em 2022 (foto: AND1 archives)

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