Ateliê397 faz exposição sobre o impacto de formar uma geração de artistas

Duas gerações separadas por 10 anos de escuta se encontram em Clínica Geral

Ateliê397 faz exposição sobre o impacto de formar uma geração de artistas
Luisa Pereira - Miss Guanabara Vol. 1

Por mais orgânico e “antihierárquico” que um programa de formação artística seja, é comum se perguntar se, com o tempo, é possível construir uma geração a partir de quem passa pela experiência. O Ateliê397 nunca teve essa pretensão com o Clínica Geral, programa que nasceu em 2016 para ser um grupo de acompanhamento e, como o nome já diz, focar em escuta, diagnóstico, acompanhamento e cuidado. Mas dez anos depois, ficou difícil não olhar para trás e se perguntar sobre o que ficou. Essa é a ideia por trás de Clínica Geral: uma geração, mostra que abre em 22 de agosto e marca também a mudança do Ateliê397 para seu novo endereço, no número 126 da Travessa Dona Paula, em Higienópolis.

O espaço por si só já é um personagem à parte na história toda. Escondido entre a Consolação e a Av. Angélica, a travessa era uma vila de operários dos anos 1920 e que, nos últimos anos, concentrou grandes nomes da arte contemporânea. O Ateliê397 chega agora como um dos nomes mais antigos desse ecossistema de galerias, coletivos e projetos, e a mudança para um espaço maior funciona como um esticar de pernas dentro da própria casa.

Voltando ao Clínica Geral, é um pouco difícil sintetizar, mas em resumo é um grupo de acompanhamento de projetos para artistas, curadores e pesquisadores que discutem seus processos coletivamente, com mediação de nomes como Érica Burini, Lucas Goulart, Thaís Rivitti e outros. Funciona presencialmente e online, e desde o início trabalha com bolsas, o que diz muito sobre o tipo de circulação que a instituição tenta viabilizar num circuito de arte que, vamos combinar, não é muito amigável com quem não tem grana.

Dez anos depois, a curadoria de Érica, Lucas e Thaís decidiu colocar lado a lado a primeira turma do Clínica Geral, de 2016, e a mais recente, deste ano de 2026. A ideia não é ser uma retrospectiva, mas um exercício de comparação mesmo, meio clínico, sobre o que se repete e o que muda quando duas gerações diferentes de artistas passam pelo mesmo processo de escuta, mas com dez anos de distância entre si.

Da primeira safra chegam nomes que hoje já circula pelo mercado: Natalie Braido, selecionada para a residência Pro Helvetia na Suíça e Yuli Yamagata, hoje representada pela Fortes D'Aloia & Gabriel, trajetórias relevantes para quem começou testando repertório sem grandes garantias. Yamagata é conhecida por costurar tecido, resina e objetos do cotidiano em corpos híbridos entre o pop e o body horror, com referências que vão dos mangás japoneses a David Lynch. Os trabalhos expostos em Nápoles, Nova York e no acervo da Pinacoteca, mostram como o Clínica geral funciona menos como fábrica de estilo e mais como ponto de partida para pesquisas que depois vão tomar caminhos próprios e até distintos. Da primeira turma ainda somam Renato Atuati e Milton Tortella. 

Da turma mais recente entram ladyletal, Luisa Pereira, Maria Isabel Oliveira, Mira Visuais, Nãovenhasemrosto e Nat Rocha, nomes que ainda estão construindo repertório, mas que já mostram o perfil que a curadoria identifica como fio condutor entre as duas turmas, que são o humor, o uso dos espaços públicos, a cultura pop e a prática efêmera. Tem um olhar para estilo, claro, mas as afetividades pesam mais, e talvez seja por isso que a mostra escolheu não fechar a pergunta do próprio título. A Clínica Geral acompanhou ou ajudou a formar uma geração? Eu não sei e eles também não respondem, mas ninguém está preocupado com decretos.

Entre os projetos em cartaz, estão o de Renato Atuati que apresenta EcO (Escuta com Obstrução) #1, que é tipo um festival de música que acontecerá no dia da abertura, mas que o público não entra. Músicos são convidados a tocar num ambiente fechado por um tapume, enquanto quem visita a exposição fica do lado de fora, só ouvindo. Só ficam os resquícios de um rolê que ninguém foi convidado a participar.

Luisa Pereira traz seus personagens Miss Guanabara e Tieta do Tietê que misturam pintura, música e cultura popular numa mesma performance. Já Nãovenhasemrosto recriou o próprio Ateliê397 dentro do The Sims 1, modelando digitalmente a planta do novo espaço, a equipe e os participantes da exposição. 

A programação de abertura, nesse sábado, 22 de agosto, promete se espalhar por todo o novo espaço, inclusive pelas áreas externas, misturando visualidades, performances e músicas construídas especialmente pro dia. A visitação continua até 26 de setembro. Tem suas dúvidas se é possível construir uma geração depois de uma década de trabalho? Tente tirar suas conclusões depois de visitar a Clínica Geral: uma geração.

Serviço:

Clínica Geral: uma geração
Com obras de ladyletal, Luisa Pereira, Maria Isabel Oliveira, Milton Tortella, Mira Visuais, Nãovenhasemrosto, Nat Rocha, Natalie Braido, Renato Atuati e Yuli Yamagata.
Curadoria de Érica Burini, Lucas Goulart e Thais Rivitti

Abertura: sábado, 22 de agosto, das 14h às 19h
Travessa Dona Paula, 126, Higienópolis.
Visitação: até 26 de setembro. Quarta sábado, das 14h às 18h. - Grátis

Programação EcO (Escuta com Obstrução) #1 
Sábado, 22 de agosto
14h - M Matai
15h - Ju F.O.C.
17h - Bruno Iasi  
18h - Cristiano Onofre


ISMO
Cultura em movimento

Assine nossa newsletter e receba
as últimas notícias em 1ª mão!

Assine agora