ARTE CORE: o que significa voltar agora?

Depois de quase cinco anos fora de cena, festival carioca retorna ao MAM e ao Aterro do Flamengo para reencontrar uma cultura urbana que também mudou nesse intervalo

ARTE CORE: o que significa voltar agora?
Hanna Lucatelli pintando mural em edição do ARTE CORE de 2018

Quando o ARTE CORE realizou sua primeira edição, em 2013, reunir graffiti, skate, música e outras manifestações da cultura urbana ao redor do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro ainda carregava certo atrito. Eram linguagens que evidentemente já faziam parte da cidade, algumas delas havia décadas, mas que nem sempre encontravam a mesma abertura dentro das instituições culturais, do mercado ou mesmo da ideia mais convencional do que deveria ocupar um museu.

Treze anos depois, o festival se prepara para voltar ao mesmo lugar. Nos dias 29 e 30 de agosto, o ARTE CORE ocupa novamente o MAM e os jardins do Aterro do Flamengo depois de um hiato de quase cinco anos. O endereço é conhecido, algumas das pessoas envolvidas também, mas o cenário ao redor mudou: o skate se consolidou como esporte olímpico, artistas ligados à cultura urbana passaram a ocupar museus e grandes feiras, o rap e o funk ampliaram seu protagonismo na música brasileira e a linguagem visual das ruas foi incorporada pela moda, pela publicidade e pelas marcas. Muito do que antes precisava disputar espaço passou a ocupar o centro da cultura contemporânea.

ARTE CORE, conectando o museu e o asfalto desde 2013

O ARTE CORE não está voltando para a mesma cena que deixou. E, treze anos depois de disputar espaço, a questão que interessa ao festival hoje já não é tanto quem consegue aparecer, mas quem consegue permanecer.

Entre o museu e a rua

Criado em 2013 a partir da Homegrown, galeria e plataforma carioca ligada à cultura urbana, o ARTE CORE nasceu aproximando universos que já conviviam naturalmente pela cidade — artes visuais, skate e música, núcleo que se ampliaria nos anos seguintes.

Desde o começo, o lugar escolhido para isso dizia bastante sobre a proposta. O festival ocupava justamente a região em que o MAM encontra o Aterro do Flamengo, uma espécie de fronteira física entre instituição e espaço público. Em vez de simplesmente levar a rua para dentro do museu, o ARTE CORE fazia as duas coisas se atravessarem.

BNegão, prata da casa do ARTE CORE, volta nessa nova edição

Na primeira edição, em outubro de 2013, nomes como DJ Nuts, Marcelinho da Lua, Larissa Luz e BNegão dividiam a programação com sessões de skate e arte urbana. Nos anos seguintes, esse encontro cresceu.

BNegão, aliás, está de volta: confirmado na edição de 2026, ao lado de FBC, ele fecha um círculo que começou treze anos atrás no mesmo endereço.

Por ali passaram artistas como Ananda Nahu, Bruno Big, Flip, Marcelo Ment, Rodrigo Branco, Maxwell Alexandre, No Martins, Zéh Palito, Luna Buschinelli e Priscila Barbosa, além de artistas internacionais como o porto-riquenho Alexis Díaz e o italiano 2501. Na música, nomes como Marcelo D2, KL Jay, MC Marechal, Curumin, Edgar e Azymuth ajudaram a construir uma programação que nunca pareceu interessada em separar demais as coisas.

Sente o peso desse encontro entre Mamão (Azymuth) e D2 no ARTE CORE de 2018

O público podia encontrar uma exposição, assistir a um artista trabalhando em um painel, andar de skate, participar de uma oficina e terminar o dia ouvindo música no mesmo espaço. Essa mistura acabou se tornando parte da identidade do ARTE CORE.

Adelmo Jr. decolando na escultura skatável em forma de rolo de papel higiênico assinada pela Rio Ramp Design

A cidade mudou. A cultura também.

Entre 2013 e 2019, foram sete edições consecutivas no Rio. A pandemia interrompeu a sequência em 2020 e o festival retornou em 2021, quando realizou sua oitava edição no MAM e, pouco depois, uma primeira experiência em São Paulo. Depois disso, parou novamente.

Para Bill Tassinari, diretor do festival, o intervalo nunca significou exatamente um encerramento — e a volta agora tem menos a ver com nostalgia do que com o momento em que ela acontece.

"Não tinha sido um fim, sabíamos disso. Estávamos tentando viabilizar comercialmente, mas usamos esse tempo para escuta, maturação e reorganização. Vivemos um momento de excesso de velocidade: tudo é produzido, consumido, comentado e descartado em tempo real. A inteligência artificial, as redes e a lógica da superprodutividade ampliaram possibilidades, mas também colocaram o processo humano sob pressão. O retorno do ARTE CORE faz sentido justamente como uma resposta a isso. Queremos reafirmar o valor da presença, do encontro, do tempo de fazer uma obra, errar, refazer, conversar e construir junto."

Não é só a curadoria desta edição que vai falar sobre tempo, portanto. É o próprio motivo de o festival estar voltando agora, e não em outro momento.

O que aconteceu do lado de fora durante essa pausa é o que torna o retorno mais interessante — e mais contraditório, na visão de Bill:

"Hoje, artistas, skatistas, DJs, designers e produtores que antes circulavam quase exclusivamente no nicho passaram a ocupar museus, festivais, campanhas, galerias e grandes plataformas. Isso é importante. Significa mais oportunidades, mais dinheiro e, em muitos casos, mais reconhecimento para pessoas que construíram isso quando a cultura urbana ainda era marginal. Mas visibilidade não é sinônimo de profundidade. Quando a cultura urbana vira apenas uma estética disponível para consumo, apaga as camadas que deram origem a ela."

Bill resume o incômodo citando um texto do artista Wolmin Dahgrota: o sistema não destrói a contracultura, faz algo mais sofisticado — transforma a contracultura em produto.

É uma discussão que acompanha qualquer manifestação cultural ao atravessar a fronteira entre margem e centro: quanto mais desejada uma linguagem se torna, mais é reproduzida, reorganizada e vendida, até virar referência estética para quem nunca precisou conhecer a comunidade que a criou.

Bill não defende pureza perdida, nem recusa a expansão. O desafio, para ele, é que ela aconteça sem esvaziamento, mantendo artistas e comunidades no centro, e não como decoração.

"A cultura urbana nunca foi parada, ela sempre dialogou com moda, música, esporte, arte, tecnologia e mercado. A questão não é se ela entra nesses espaços, mas em quais termos."

É aí que o papel do ARTE CORE muda.

Depois da visibilidade

Se em 2013 havia algo significativo em simplesmente colocar determinadas linguagens em contato com uma instituição como o MAM, em 2026 essa presença já não causa o mesmo estranhamento. Graffiti está em galeria, skate está na Olimpíada, rap está nos maiores palcos do país e a estética da rua está em praticamente todo lugar.

O problema agora é outro: quando uma cultura cresce, ela passa a ser disputada.

"O mercado tenta organizar, padronizar e tornar previsível aquilo que originalmente era mais espontâneo e, muitas vezes, incômodo. Existe o risco de domesticação quando se quer apenas o lado estético da rua", diz Bill.

Nesse cenário, criar espaço deixa de significar apenas oferecer exposição. Passa também por preservar contexto, permitir experimentação e, sobretudo, criar condições para que quem produz cultura continue produzindo.

"Produção cultural exige tempo, espaço, acesso, remuneração, troca, formação, circulação e risco. Exige que alguém consiga dedicar horas, dias, até meses a uma obra, a uma música, a uma manobra, a uma curadoria ou a uma ideia."

Duas novidades desta edição nascem justamente dessa discussão. O Arte Craft funcionará como uma feira dentro do festival, criando um espaço para artistas, coletivos, galerias e projetos apresentarem e comercializarem seus trabalhos diretamente para o público. A urgência é também prática: para Bill, boa parte de quem cria hoje segue sem estrutura para sustentar o próprio trabalho, num cenário em que a inteligência artificial já compete diretamente com o artista.

Já o Portas Abertas, com curadoria do coletivo Futuro Suburbano, nasce de um chamamento público voltado exclusivamente a artistas suburbanos cariocas. É talvez a resposta mais concreta do festival à própria pergunta que ele levanta sobre domesticação: em vez de discutir quem tem espaço garantido na cultura urbana, a iniciativa abre uma porta de entrada específica para quem normalmente fica de fora dela. Mais do que acrescentar atrações à programação, as duas iniciativas tocam numa questão menos visível da produção cultural: alguém precisa conseguir continuar fazendo.

O tempo das coisas

Essa mesma urgência reaparece, de forma mais deliberada, na curadoria desta edição. Imagens aparecem, circulam e desaparecem numa velocidade difícil de acompanhar; referências que antes exigiam busca chegam prontas em feeds infinitos; tendências nascem e envelhecem em semanas.

É contra esse pano de fundo que a curadoria desta edição escolheu o tempo como um de seus fios condutores.

"Em uma época em que a imagem aparece pronta na tela e as tendências se repetem com rapidez, queremos abrir espaço para aquilo que não cabe no imediatismo: o trabalho do artista, a tentativa, o erro, a conversa, o ensaio e a convivência."

Até escolhas aparentemente pequenas carregam essa ideia. Na programação musical, com curadoria de Daniel Tamenpi, os DJs convidados tocarão em vinil.

DJ Tamempi, além de presença garantida em todas as edições também assina a curadoria musical do evento

Na curadoria de artes visuais, conduzida por PH, sócio de Bill no festival, a discussão parte de outro lugar, mas também procura escapar de respostas prontas.

"Buscamos diferentes olhares que descentralizam o pensamento sobre Brasil, criando um conceito multicultural, mais rico em elementos e diverso, rompendo estereótipos preestabelecidos."

Há algo deliberadamente fora de época nessa defesa do processo: fazer uma coisa, errar, refazer, conversar sobre ela. Colocar uma agulha sobre um disco. Encontrar alguém sem que esse encontro precise necessariamente produzir conteúdo. Não é coincidência que um festival que ficou quase cinco anos parado escolha justamente o tempo para falar sobre sua volta.

O Rio no meio disso tudo

O Rio que recebe o ARTE CORE em 2026 não é o mesmo de 2013, assim como as condições para produzir cultura também não são. Falta de recursos, dependência das leis de incentivo e um ambiente político polarizado aparecem na fala de Bill como parte concreta do cotidiano de quem tenta colocar projetos de pé.

Ao mesmo tempo, ele não tem dúvida sobre a força criativa da cidade:

"O Rio sempre vai ser essa força na produção criativa como um todo. Temos muitas inspirações, tanto pelo lado das belezas como das mazelas."

A volta ao MAM e ao Aterro ganha peso nesse contexto — não só pela memória das edições anteriores, mas pela chance de colocar públicos diferentes dividindo de novo o mesmo espaço:

"Queremos provocar uma cidade mais diversa, onde cultura não seja um privilégio nem um convite restrito a determinados grupos. Uma cidade em que o museu conversa com a rua sem transformar a rua em adereço."

A programação dos dois dias é pensada como uma jornada: manhã de oficinas e aulas de skate para famílias, tarde de Best Trick, live painting e audiovisual, noite de música e celebração — famílias, artistas, colecionadores, skatistas e frequentadores do museu circulando pelo mesmo território.

Voltar para continuar

Treze anos depois da primeira edição, o ARTE CORE retorna a uma cultura urbana que conquistou muito do espaço que reivindicava quando o festival começou.

Isso não significa que as disputas tenham terminado. Elas apenas mudaram de lugar.

Hoje, a questão já não é somente quem consegue aparecer, mas quem consegue permanecer. Quem controla a própria narrativa. Quem é remunerado. Quem tem tempo para produzir. Quem pode experimentar sem precisar transformar imediatamente cada tentativa em produto. E quem continua sentado à mesa quando a linguagem que ajudou a construir passa a interessar a todo mundo.

É nesse território mais contraditório que o festival reaparece. Bill insiste menos na ideia de retomada do que na de encontro. Quando perguntado sobre o que gostaria que alguém levasse consigo depois dos dias 29 e 30 de agosto, ele responde:

"Cultura não é algo que se recebe pronto, se constrói junto. O ARTE CORE nunca foi nosso, sempre o público tomou para ele. O festival existe porque muitas cabeças, mãos, vozes e trajetórias se encontraram. Em um momento em que tanta coisa parece acelerada, replicável e individualizada, queremos deixar uma lembrança simples: o que é feito com tempo, verdade e comunidade permanece."

Durante quase cinco anos, o festival não esteve ali. Agora volta para o mesmo pedaço do Rio onde tudo começou: entre o museu e a rua.

O lugar é o mesmo. Todo o resto se movimentou.

Sankofa, projeto da pedagoga e educadora Gaby Makena no ARTE CORE 2021

O Arte Core 2026 é apresentado pela Pool Jeans, marca da Riachuelo, e conta com patrocínio da Stella Artois e apoio da Kenner. A organização é assinada por Bill Tassinari, Ph Rodrigues e Marco André Tosatth, com produção artística da Ponte Cultural. A Angra Marcas atua como parceira comercial, e a realização é da Agência Esporte Arte e da D+3.

Para conferir a programação completa e saber mais sobre o evento, que acontecerá nos dias 29 e 30 de Agosto no MAM Rio, acompanhe o perfil oficial do evento.

Todas as imagens dessa matéria foram gentilmente cedidas pela organização e pelo coletivo I Hate Flash.


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