João do Rio falou sobre aproveitar a rua em 1908 - e a gente faz igual até hoje

O jornalista brasileiro já via e desfrutava estar na rua e aproveitar a cidade no começo do século XX - e influenciou grupos que também aproveitam atualmente

João do Rio falou sobre aproveitar a rua em 1908 - e a gente faz igual até hoje

No começo do século XX, o jornalismo brasileiro estava um pouco preso às redações e velhos rostos falando sobre atos cotidianos que, não necessariamente, eram vividos intensamente por quem os escrevia. O Brasil vivia uma recém República (a Primeira República), instaurada em 1889 e o jornalismo estava caminhando lentamente - o único jornal novo que surgia era o Jornal do Brasil, em 1891. O editorial, porém, introduzindo a opinião, trazia novas perspectivas, mas não necessariamente eram daqueles que viviam avidamente as ruas brasileiras. Isso até chegar João do Rio. 

João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, o Paulo Barreto, depois conhecido pelo pseudônimo João do Rio, nasceu nesse fim de século XIX, em 1881, e no começo do século seguinte, já estava nas redações de jornais cariocas e em 1903, no Gazeta de Notícias, ganhou o apelido que viraria nome - João do Rio, que assinava o artigo “O Brasil que lê”, sobre indicações literárias. 

No começo dos anos 1900, o Rio de Janeiro passava por mudanças profundas, então o jovem cronista fez mais do que só ficar preso às redações: ele foi para as ruas, viveu o dia e a noite da cidade, conversou com pessoas, transformou o Rio de Janeiro em personagem e deu voz a uma recente urbanização que moldava muitas novas perspectivas de como enxergar e viver as ruas. 

Essa crônica moderna, sendo mais do que só um observador, mas também trazendo o jornalista como participante daquilo que era descrito, falava sobre a noite, a boemia, religiões, disparidades sociais e contrastes diversos, enquanto caminhava e observava tudo aquilo ao seu redor. O ato de caminhar deu a si mesmo um título francês: o flâneur, ou seja, o que caminha, o que percorre, termo popularizado por Walter Benjamin a partir dos poemas de Charles Baudelaire, mas que no João do Rio ganhou forma física nas ruas do Rio de Janeiro, transformando essa característica, a do caminhar, em um dos maiores sinônimos do seu jornalismo. 

Retrato de João do Rio dos anos 20 do século XX - ele faleceu em 1921 aos 39 anos de idade

João do Rio foi um homem pardo, gordo e homossexual e, juntadas essas características com o fato de ser um cronista que vivia a cidade, não era alguém que a todos agradava. Entenda, se hoje todas essas características incomodam conservadores e pseudo-liberais, imagina na “belle époque” brasileira, de recém-republicana liberdade. O caminhar do cronista era também um ato de resistência e demonstração de pertencimento, mostrando que as ruas eram para todos habitarem - o que de fato foi um fator determinante: João do Rio transitava tão bem nos salões chiques quanto nos becos noturnos da cidade. 

Em um dos seus trabalhos mais relevantes, o livro A Alma Encantadora das Ruas, de 1908, João convida o leitor a passear, ou melhor, flanar, pelas ruas do Rio de Janeiro do começo do século - o que, não necessariamente, limita à esse tempo, e faz a gente querer passear pelas ruas das cidades como ele fazia, observando e aproveitando o que ela nos fornece. No livro, o autor descreve a rua como convidativa, viva e igualitária, apesar de seus contrastes. 

“A rua sente nos nervos essa miséria da criação, por isso é a mais igualitária, mais socialista, a mais niveladora das obras humanas” - João do Rio em A Alma Encantadora das Ruas 

É curioso pensar que o que foi dito por João em 1908 ressoa em grupos ativos na rua até hoje, como é o caso de skatistas. Quem a gente pode pensar que são flaneurs modernos? Fotógrafos, pixadores, skatistas, boêmios atuais e, não necessariamente precisa o ser individual pertencer a um coletivo, basta aproveitar o que a rua proporciona. Mas foi no coletivo Flanantes que João do Rio foi fonte de inspiração - até para o nome, como podemos perceber. 

Em um papo sobre João do Rio com o Murilo Romão, skatista do coletivo Flanantes, conhecer sua obra foi um encontro curioso: “Eu estava pesquisando sobre os flaneurs e o João do Rio era o flaneur brasileiro”, ele conta sobre como conheceu a obra. “Ele gostava de observar a transformação da cidade, assim como o skatista também faz”. 

A comparação entre o “zanzar” que João do Rio fazia no começo do século XX com a “caçada de picos” que skatistas fazem é muito válida e intrigante. Como pode uma descrição do viver a cidade de um século antes ressoar tão bem em um grupo que, por característica própria, tem que viver a cidade para conhecer suas oportunidades mais originais? No skate, João do Rio ganhou até produções inspiradas em suas obras. “A gente foi pro Rio de Janeiro por causa do João do Rio, para ter trechos de manobras onde ele perambulava”, comenta Murilo sobre o que foi a inspiração para um dos primeiros vídeos do coletivo Flanantes, de mesmo nome, lançado em 2016. 

O primeiro vídeo do coletivo se inspirou no A Alma Encantadora das Ruas

“O que conversa (com skate) é que o movimento das ruas sempre vai ser dinâmico, é nela que estão essas mudanças, essas transformações, das coisas acontecendo, os lugares, pessoas, estilos… Vai ser sempre na rua que a gente vai ver. Muita gente fala que hoje em dia o espaço público é o shopping, mas eu não acho, acho que a rua continua sendo importante, não só no Brasil - por isso que o skate se conecta com essas questões e traz esse fervor de lugares novos, de coisas novas para aproveitar” - Murilo Romão

O Murilo pode ser um dos últimos românticos do skate, um dos poucos a relacionar literatura, filosofia, sociologia (e etc.) em vídeos e caminhos percorridos através e com o skate. Mas limitar a influência de João do Rio ao coletivo Flanantes é também limitar o poder de suas obras. Skatistas não precisam, necessariamente, terem lido obras do João do Rio para entender que seu legado vai além das manobras: existe uma perâmbulância necessária e intrínseca ao ato de andar de skate, que conversa com obras de mais de um século de existência de um brasileiro que gostava muito de flanar. 

“Acho que ele (João do Rio) ia gostar de skate, sim, porque ia perceber que é um movimento que está ocupando a rua e permanência é grande dos skatistas nos lugares. Ele se interessava muito sobre essas “pequenas profissões”, que são vistas como menores mas tem muita coisa por trás e vivem nas ruas, como prostitutas e pescadores na época. Acho que ele ia ter sim um interesse por skatistas”. 

Apesar de falarmos sobre skatistas, a influência de João do Rio não se reserva somente aos que manobram nas cidades. Ler alguma obra ou algum trecho de suas obras é entender que o ser que vive a cidade, seja da forma como for, mas aproveitando a vida que ela proporciona, também é um que faz parte da crônica do jornalista, mesmo mais de um século depois.

“Para compreender a psicologia das ruas não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e nervos com um perpétuo de desejo incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos de flaneur e praticar o mais interessante dos esportes – a arte de flanar. É fatigante o exercício?”- João do Rio em A Alma Encantadora das Ruas 

Confira uma lista de 7 outros livros que influenciaram o coletivo Flanantes aqui na ISMO.


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