A SEKA PELI GRIME STATION movimenta o grime em Portugal

O coletivo que tem se inspirado nas cenas brasileira e inglesa do grime para construir a sua identidade própria e consolidar o grime em solo português

A SEKA PELI GRIME STATION movimenta o grime em Portugal
Foto: ilevan

Seka Peli n. (expressão, crioulo de Cabo Verde)
/se.kɐ pe.li/
Origem: Cabo Verde
Significado: Momento em que duas equipas estão a jogar e não há uma equipa substituta, levando a um jogo contínuo, "até secar a pele".
Esta expressão reflete a intensidade e a resistência dos jogadores, que continuam a jogar sem interrupções até estarem completamente exaustos.

É partindo dessa ideia que Gabriel Nzamba e João Pedro Sanchez (Xez) conceituam a SEKA PELI GRIME STATION, projeto baseado em Coimbra, Portugal, focado em cultivar e disseminar a produção de grime e outros subgêneros da música eletrônica. Criado em 2024, com forte influência das cenas de grime do Brasil e do Reino Unido, o projeto vem, ao longo dos últimos anos, desenvolvendo uma identidade própria, que dialoga com essas referências sem perder a conexão com a cultura local.

Parte importante desse momento inicial se dá pela conexão com a Rádio Universitária de Coimbra (RUC), da qual Xez – produtor musical cabo-verdiano residente em Portugal desde 2018, atualmente cursando licenciatura em Produção e Tecnologias da Música na EMAE – fez parte e enxergou dentro dela um espaço possível para a produção de grime, como explica: "eu sinto que a política da RUC fez-me olhar para a música de outra maneira (...) Paralelamente, estive a explorar gêneros novos – já curtia rap e comecei a ouvir gêneros semelhantes no UK e percebo a cena política do grime. Naturalmente a cena passou-se para 'eu tenho que fazer grime, isso tem que ser a minha filosofia de vida'.

Eu sinto que o grime foi o meu punk. Começamos a ver que esta cena, esta política, esta filosofia faz muito mais sentido do que os beats e a cena de trap que nós estávamos a fazer".

O primeiro episódio da SEKA PELI

Apesar de estar localizada dentro do rolê universitário, a RUC funciona de maneira independente e autogerida, funcionando como uma via alternativa dentro de um ambiente extremamente tradicional – Coimbra, que organiza a sua economia em volta da universidade e não produz cenas culturais muito longevas.

"Foi muito natural nós nos unirmos e irmos para RUC, porque ela representa aquela cena 'anti establishment', em comparação ao tradicionalismo da cidade", explica Nzamba, MC nascido no Brasil e criado em Portugal, com descendência angolana, atualmente residente no Reino Unido procurando o seu lugar dentro da cena underground.

A cena do grime brasileiro, que desde a pandemia foi desenvolvendo um grande fluxo de produções audiovisuais, foi peça chave para o desenvolvimento da SEKA PELI, com projetos como o BRIME!, Brasil Grime Show e Purgatorium, peças essenciais para a divulgação e consolidação do gênero em nosso país, tendo influência direta na sua criação. Ainda em 2024, foram gravados os primeiros episódios do projeto, na Blue House, em Coimbra. De lá para cá, eles vêm organizando festas, programas em rádios e colaborações, pavimentando o caminho e solidificando as estruturas.

Com os objetivos em vista e uma cena em ascensão no maior país falante de língua portuguesa no mundo, Xez e Nzamba colhem inspiração também do seu entorno, pegando como referência aqueles que estão produzindo junto à eles, como conta o MC: "nós queremos muito unir, por exemplo, com o pessoal da Príncipe Discos, que faz o gênero da batida – o pessoal que faz kuduro, também – para o pessoal entender que tudo está interligado dentro do nosso universo, que é o hip hop e a música eletrônica".

O grime já existiu antes em Portugal, mas não se consolidou enquanto movimento. "Houve a cena do pessoal rimar em beats de grime, mas não houve um movimento no sentido de estabelecer uma cultura. O rewind ainda é algo que não é naturalizado na noite em Portugal – o que nós queremos é implementar a cultura, o modo de festa", explica Xez, que analisa a cena do Brasil para pensar maneiras de misturar o grime com os outros gêneros locais:

"Isso vem muito de uma análise que nós fizemos e vamos fazendo sobre a cena do 'Brime'. Não só o Brime do Febem, do Fleezus e do CESRV, mas o entendimento que vocês tiveram no Brasil de 'OK, nós curtimos grime, mas vamos incorporar isto com o funk e com o contexto do que é a música, e principalmente, a música de periferia do Brasil', porque o grime nada mais é do que isso, mas no contexto do UK.

E para nós, o que há em Portugal é muito forte – essa cena da batida, que já tem uma presença de MCs. Já tens um outro gênero semelhante que surgiu nas periferias de Lisboa e que é dependente da relação entre um bom DJ e um bom MC. E eu acho que é isso – nós gostamos do som do grime, mas a nossa proposta em Portugal é conseguir chegar a esse entendimento, de modo que numa festa de kuduro passem um beat fudido, o gajo faça um blend fudido, e puxe um rewind."

Xez (à direita) com seu time de MCs (foto: ilevan)

A identificação com o grime ultrapassa um simples gosto pela sonoridade ou estética do movimento. O grime se trata de um gênero de música eletrônica, construído por imigrantes jamaicanos no contexto britânico, e carrega, portanto, a história da cultura sound system e do movimento afro diaspórico.

Nzamba, atualmente residente em Birmingham, conta que desde que foi para o Reino Unido buscou se conectar mais profundamente com a cultura sound system: "eu, enquanto MC, me apeguei muito à narrativa de que eles criaram o sound system para se sentirem mais próximos de casa, sendo filhos de imigrantes, afrodescendentes, e essa também é a nossa proposta. O Sanchez é de Cabo Verde, eu sou brasileiro e angolano – fez muito sentido para nós.

Eu sempre fui uma pessoa que foi muito atrás de ideias – acho que até a minha conexão com o hip hop, antes do grime, foi buscar ideias, opiniões, caçar informação. Naturalmente, eu comecei a gostar muito dessa ideia de podermos ser uma força coletiva e autossuficientes, viver da nossa arte ou de outros recursos que nos deem prazer, e partilhar informação. Toda essa coletividade tribal – é isso, é nosso."

"Coletividade Tribal,
SEKA PELI peso ancestral"
– Nzamba em Bloqueio (prod. Rods)

A relação do grime com o hip hop é complexa. Há quem diga que o gênero surgido em Londres se trata de um subgênero do rap americano, mas a verdade é que ambos são manifestações paralelas da cultura sound system – assim como os outros gêneros citados aqui anteriormente, como o funk, a batida e o kuduro. Sendo produto de um país que domina a produção cultural e tem poder de influência no mundo inteiro, o hip hop se espalhou para todos os cantos do planeta, servindo de base para diversos movimentos que surgiriam depois.

Isso aparece também com a história da SEKA PELI, como conta Nzamba: "essa coletividade começou muito pelo hip hop e progrediu para o grime. O hip hop é a nossa foundation, é a base, mesmo. E o sound system me ajudou a lapidar as minhas skills como MC e alinhar ainda mais o nosso discurso".

Set recente de Nzamba e 8a8yfaceK gravado na Sigil Radio

Xez acrescenta sobre o papel do grime como continuidade dessa cultura ancestral, e ressalta a importância da manutenção do lado político do gênero: "o que o reggae foi para os meus pais, o grime é para a minha geração. Dar um seguimento do pensamento da cultura sound system, mas num contexto do que é a minha geração, dos jogos do Play 2, do Play 3, etc.

O grime acabou por ser o que mais fazia sentido, de tudo que era a minha vivência, a vivência do Gabriel, as nossas ideologias políticas e o contexto atual no século XXI. Foi a cultura que mais fez sentido, mesmo.

O nosso objetivo é implementar esta filosofia, esta ética e esta forma de se movimentar, em termos de como distribuo a minha música, como faço um buzz para uma música. Tentar, cada vez mais, criar uma estrutura que permita outros artistas, mesmo que não façam grime, de seguirem essa estrutura para fazerem a música deles. O que nós estamos a tentar fazer com a cena do SEKA PELI é avançar com essa política – com essa ideia da coletividade tribal. É muito sobre aquela barra do Piores: 'meu grime não é só político/eu faço a política do grime emergir'.

Piores e a Raridade Records também levantam a importância política do grime

A SEKA PELI ainda está no começo da sua história, mas já vem conquistando uma base e um ecossistema sólido. Xez fala da dificuldade de encontrar MCs dispostos a rimar no grime e das questões geográficas que também complicam o desenvolvimento do projeto, mas se mostra otimista com o futuro. O projeto segue crescendo, cada vez mais conectado com todas as cenas que fazem parte do seu universo e lapidando, cada vez mais, a sua identidade própria:

"As primeiras festas de grime que nós fizemos, já em Coimbra, por causa do meu trabalho na RUC, eu acho que conseguimos ter uma base muito sólida. Desde 2021, eu queria começar a fazer o SEKA PELI, só que eu nunca quis fazer só eu – se não fossem outras pessoas, não ia crescer. O Gabriel tinha viajado para o UK pouco tempo depois de eu ter essa ideia, e eu fiquei algum tempo preso – 'não tenho MC para fazer isto, não tenho outros DJs que curtam de fazer isto'.

Os MCs da Batalha Clandestina abraçaram muito a proposta de fazer grime, sem nem saberem o que era. Pelo fato de serem MCs de batalha, eles conseguem entender mais o que é esse jogo – se calhar, um mano que tá só no estúdio a gravar, não vai conseguir adaptar tão facilmente.

A reação do público é muito boa, mas para o grime se desenvolver em Portugal, nós precisamos conseguir ir mais vezes a Lisboa, e fazer esse mesmo desafio a mais MCs. Acho que, com isso, a cena pode crescer muito. Só que não estou em Lisboa, e lá é onde as coisas estão concentradas. Não é muito fácil.

Nós temos o sonho de um dia a SEKA PELI ser um sound system. Claro que já podíamos estar a fazer isso, mas temos muito interesse em sermos nós a pegar e desenhar os próprios speakers – pela entrega ao que é a cultura, porque foi assim que os sound systems se levantaram na Jamaica. Só pelo interesse da música, não tendo muito material e conseguindo pegar o que têm e fazer a cena acontecer."

Acompanhe o trabalho da SEKA PELI GRIME STATION, de Nzamba e Xez pelas redes sociais e pelo YouTube.


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