Para a Papangu, progresso não se alcança com IA's
Novo disco, Celeste, é o mais progressivo e o mais analógico da carreira da banda paraibana
Recentemente li um tweet de um pseudo-jornalista no qual ele pergunta qual foi o uso de I.A. generativa no roteiro do filme O Convite (2026), já que os diálogos são tão encaixados e o equilíbrio entre humor e drama é muito perfeito. A ideia de que a humanidade não é capaz de criar algo bom, funcional e criativo está começando a ficar tão arraigada em nossa cabeça, que o impulso de se fazer arte de maneira autônoma vai se perdendo com o tempo. Por sorte, temos gente que ainda bota fé na manualidade, e a Papangu é mais um exemplo disso.
No último final de semana a banda paraibana lançou seu terceiro disco, Celestial, e nele eu pude ouvir tudo o que esperava e o que não esperava também. O projeto de Marco Mayer, Hector Ruslan, Raí Accioly, Pedro Francisco, Rodolfo Salgueiro e agora de George Alexandria — adição mais recente, assumindo bateria e percussão — tem sido um dos mais inventivos do rock brasileiro, primeiro pelo resgate do progressivo e da psicodelia, gêneros que já fizeram história por aqui, e pela inclusão de elementos de forró, ciranda, baião e maracatu.

Se você já teve a oportunidade de ouvir a banda alguma vez na vida, e curtiu, provavelmente é uma pessoa que, num diagrama de Venn (aquele das interseções dos círculos), fica entre fã de metal e música extrema, fã de jazz e fã de música popular brasileira. É nesse miolo que a Papangu está. Mas longe de querer se limitar em rótulos, o projeto vê na música um universo de possibilidades e transita, às vezes em uma única faixa, entre várias sonoridades para chegar ao objetivo final, que é contar uma boa história.
Com Celestial a banda, assim como seu som, aponta para rotas diferentes: primeiro, é a continuidade de uma narrativa que começou em 2021, quando lançou Holoceno, disco de estreia, mais pesado, cru e enérgico, antes de passar por Lampião Rei (2024); depois, é o encerramento de um ciclo, no qual escolhem amarrar algumas pontas soltas; e finalmente, é o ponto de partida para uma nova fase.
Para chegar nesse resultado, foi preciso viajar o país e o mundo, testar composições, ampliar o público e trocar com ele para, enfim, voltar a gravar. É interessante pensar que a banda nasceu em 2012 como projeto de estúdio, e não tinha no palco o objetivo final das suas composições. O rock progressivo é conhecido pela experimentação de formas, o que dificulta ser replicado no palco, mas para a Papangu foi fundamental levar para mais gente, investigar modos de tocar, inclusive de formações, e então usar toda essa energia criativa em mais um disco.

Toda essa observação se reflete nas temáticas do álbum, que, segundo eles, se divide em quatro principais temas: proteção, autoproteção, reafirmação e humanidade. E ao ouvir o disco entendo que essa proteção vem justamente do olhar para si, do que nos faz sermos nós mesmos, e que o erro, a falha, é parte do que é ser humano. As alegorias escolhidas, de elementos religiosos, históricos, folclóricos e psicodélicos ajudam a dar contorno a uma história que já é muito real, a da perda da humanidade em prol de um “desenvolvimento” tecnológico.
Em tempos em que não sabemos mais o que é humano e o que é gerado por inteligências artificiais, é preciso reafirmar o que nos faz diferentes. Na faixa “Calado (de Olho)” eles cantam “Tu vai sobrar na curva se continuar assim / Porque roubar sem devolver é feio”, trecho que expõe muito bem o modelo de produção pseudo-artística de cada uma dessas ferramentas. Dias antes do lançamento, a Corte de Justiça Alemã condenou a Suno, plataforma de criação musical generativa, por quebra de direitos autorais. Não é coincidência.
E se queremos falar de evolução, por que não olhar para nossa própria história? A Papangu nunca escondeu as referências que têm em Crimson King, Mahavishnu Orchestra, Gentle Giant e Yes, por exemplo, mas não esquecem que tivemos no Brasil uma safra absurda de bandas como 14 Bis, O Terço, Lula Côrtes e Zé Ramalho, Os Mutantes… A lista poderia seguir. Além disso, se apoiam muito em Sivuca, Luiz Gonzaga e Hermeto Pascoal para chegar ao tal “Rock Troncho”, como ficou conhecida a música que fazem.
Em meio às guitarras distorcidas, que nem soam como instrumentos principais, entram flautas, triângulos, percussão, violões de 12 cordas e até uma galinha de borracha. A psicodelia não está só no gênero, está na forma como tocam mesmo, nos temas que abordam, e para mim isso só faz sentido no continente que inventou o realismo fantástico. Aliás, há um respeito muito grande ao abordar temas da tradição popular, sem mistificar algo que faz parte da vida cotidiana de toda uma população.




Fotos: Rodolfo Salgueiro
Para a Papangu, o analógico é resistência, e em Celeste isso aparece nas letras e também em todo o processo de produção. Durante os dias no estúdio Big Snuff, em Berlim, o álbum foi gravado em fitas de duas polegadas em um Telefunken Magnetophon M15A dos anos 1970. A oportunidade surgiu justamente durante a turnê pela europa, e como um dos integrantes, Marco, mora na cidade, rolou organizarem tudo para as gravações. A ideia era, claro, garantir uma sonoridade vintage e próxima das bandas de prog do século passado, mas também ter as limitações tecnológicas como parte do processo criativo.
Quando se grava em fita, não dá pra ficar repetindo, contando com o erro. O prazo era curto, as ferramentas eram poucas, mas a vontade era muita. Assim, em nove dias conseguiram realizar todo o disco, mas não sem antes passarem por alguns perrengues. O gravador quebrou no meio das sessões, o que fez a banda cogitar o uso do Pro Tools, software de produção de áudio. Mas conseguiram consertar a máquina em algumas horas, coisa que, em tempos de obsolescência programada, seria impossível de fazer caso tudo estivesse rodando em um computador. O órgão, um Hammond também dos anos 1970, pifou instantes depois da conclusão de um solo para a última faixa do disco. Ossos do ofício.
Todos os erros são histórias legais para se contar em coletivas de imprensa e entrevistas, mas fazem parte do processo humano que estavam buscando. São estética e posicionamento político de uma banda que escolheu fazer sua arte na unha e com pessoas que também iriam comprar essa briga. O clipe de “Colosso”, dirigido por Helder Bruno, foi todo captado em Super 8, nas cidades de Cabedelo e João Pessoa, na Paraíba. As artes de capa e encarte do disco são assinadas por Juliana Lapa, e também carregam muita manualidade. Li que, assim como a música da Papangu, “a arte de Juliana parece ser feita para ser descoberta aos poucos” e isso faz muito sentido.
Em tempos em que não só a produção como o consumo são muito acelerados, não é sempre que paramos para ouvir música como ação principal e não complemento de outra atividade. E, ao meu ver, existe demanda para isso. O disco foi lançado em vinil pela Rocinante e esgotou no primeiro dia de vendas, prova de que ainda existe interesse nesse formato e no som que a banda faz.
Confesso que escrever sobre Celestial em tão pouco tempo depois de ouvi-lo parece um contrassenso com tudo que ouvi e senti, mas me sinto na responsabilidade de contribuir para que mais pessoas ouçam o disco e percebam que a aceitação do erro, da falha, faz parte da criação humana e é isso que nos faz tão únicos.



Quem não garantiu, vacilou