Hardcore e Hare Krishna: a relação desses dois mundos na São Paulo dos anos 90
Uma filosofia religiosa encontrou na revolta da juventude paulistana um lugar para viver episódios interessantes e até deu lar para a Verdurada nos anos 90
O hardcore é um gênero musical com relações bem peculiares e diversas. Se o punk era a pergunta, o hardcore veio com uma resposta. Ou melhor, várias, de jeitos diferentes, com diferentes movimentos dentro do mesmo guarda-chuva que estavam trazendo soluções para problemas diversos, além das questões. Olhando mais pra dentro de si mesmo do que outros movimentos olharam, o hardcore foi além de riscar o fósforo e ver tudo queimar - os jovens do movimento começaram a se mexer e fazer coisas que fossem além da música.
Nesse movimento de fora para dentro, o cuidar do mental e do físico virou algo maior do que a música: atividades como lutas, a busca pela espiritualidade e o que coloca dentro do próprio corpo virou mantra para bandas e fãs, fazendo do movimento um mix de pequenas organizações dentro de si mesmo. Quando o Bad Brains trouxe o movimento rastafari para letras e imagens, reflexo de seus ideais, o impacto foi gigantesco e muita gente foi influenciada a olhar para o lado espiritual dentro do seu gosto musical. O Bad Brains abriu uma porta com a mentalidade rasta e outras religiões entraram em cena no hardcore - o hare krishna foi uma delas.
Se o Bad Brains foi rastafari, o Shelter veio com a filosofia hare krishna pra dentro de seus ideias, letras e movimentos. O Harley Flanagan, do Cro-Mags, foi influenciado pelos manos do Bad Brains e, por consequencia, influenciou Ray Cappo, que mais tarde viria criar o Shelter. O Cro-Mags até teve integrantes que eram da religião e alguma coisa aqui e ali de letras e simbologias na sua história, mas foi o Shelter quem abraçou o Hare Krishna - que depois virou até um subgênero, o krishnacore.
O Hare Krishna tinha uma ligação com a juventude norte-americana desde os anos 60, na alta do movimento hippie. A busca por novos adeptos do movimento de Krishna encontrou em uma juventude procurando por auto-conhecimento e paz em um momento de guerras, um lugar para se proliferar, já que existia um grande interesse dos jovens norte-americanos hippies com a cultura de países do Oriente. Quando apareceu o punk e o hardcore, o movimento foi natural, porque também era uma forma de autoconhecimento em meio ao caos das grandes cidades. Em Nova Iorque, por exemplo, caras como o Harley, Ray Cappo e John Joseph acharam no Hare Krishna um encaixe entre os dois mundos, o hardcore e a espiritualidade.
O hardcore encontrou no hare krishna uma forma de autoconhecimento, espiritualidade e auto controle, enquanto o hare krishna encontrou no hardcore uma plataforma de espalhar a mensagem para pessoas jovens. Não que isso tenha sido feito politicamente, de forma pensada, mas o que aconteceu, foi uma geração de novos adeptos à religiosidade através da música.
O Hardcore de Krishna no Brasil
A gente poderia fazer um artigo bem grande e legal só do que rolou nos Estados Unidos nessa relação do hardcore com o hare krishna nos anos 90, mas a coisa foi além e influenciou movimentos no mundo todo. Na América Latina, Argentina e Brasil foram países que, cada um à sua maneira, tiveram junções desse tipo, bandas de krishnacore e movimentos específicos. Aqui no Brasil, São Paulo foi uma das cidades que viu essa relação ser próxima e a história de um dos eventos mais importantes do hardcore brasileiro passa pelos adeptos de Krishna de uma forma bem curiosa: a Verdurada para um público aberto aconteceu no quintal de um Hare Krishna.

A Verdurada já rolava e tinha esse nome até de zoeira, porque a galera se juntava pra fazer som e levava comida vegetariana e vegana, mas era algo até mais informal, para um grupo pequeno, não aberto. A coisa começou a ter um corpo de evento mesmo quando foi para a casa de um Hare Krishna: Rodolfo Maia, irmão da jornalista Sonia Maia, cedeu o quintal de sua casa, uma edícula que se tornaria o local perfeito para as primeiras edições da Verdurada aberta para um público maior. A "casinha", como era chamada a casa do Rodolfo, cujo nome de iniciado é Arada Kantha, próxima ao metrô Jabaquara, em São Paulo, abrigou o começo da Verdurada para um público mais amplo.
Pedro Carvalho, nome ativo da cena até hoje tanto tocando quanto fazendo parte de movimentos relacionados, conta: “ele era Hare Krishna e chamava outros caras da religião para, ao final dos shows, dar a Prasada, que é a comida que passa por um ritual de benção dos caras”. Esse ritual se assemelhava ao que rolava nos templos Hare Krisha, onde haviam as palestras e depois a Prasada. “Como a gente era vegan e vegetariano, muita gente ia no templo Hare Krishna, que na época era na esquina da Angélica com a Paulista, na Praça do Ciclista - a gente terminava o rolê, ia pra lá, assistia as palestras e depois comia a comida, que era muito boa!”
Nessa playlist tem os shows das 4 bandas da primeira Verdurada, na Casinha, em 1996
Para o Pedro, existiram dois grupos distintos de pessoas que foram impactados pelo hare krishna no hardcore de São Paulo: “Teve gente que chegou depois e achava que geral era Hare, o que não era verdade. Os straight edge que realmente se tornaram devotos de Krishna nos anos 90 eram poucos, alguns chegaram a morar no templo e tudo mais, mas poucos ficaram por muito tempo".
Um desses divisores de água e da chegada de mais adeptos para essa relação foi o show do Shelter em São Paulo, em junho de 96. Antes disso, só o Fugazi era uma banda com relação com o straight edge que tocou no Brasil, mas com a vinda do Shelter, que já estava tocando bastante no Disk MTV local, muito mais gente se interessou. “No final de 95, o Shelter lançou o Mantra e no começo de 96, o clipe de Here We Go Again chegou a ser número um do Disk MTV, então o Shelter ficou gigante", relembra o Pedro. “Eles ficaram grandes com o público geral, mas aí começaram a fazer matérias sobre o fato deles serem Hare Krishna, e outras pessoas começaram a chegar na gente que já era do meio do hardcore".
O que a gente pode ver de semelhança entre o straight edge e o Hare Krishna está em alguns pontos das duas filosofias: ambos não consomem produtos de origem animal, não podem usar drogas, não usam álcool. Muitas pessoas, que já seguiam essas regras por conta do SXE encontraram uma justificativa espiritual e religiosa no Hare Krishna.

Apesar de ter alguma ligação de conceito e filosofia, o straight edge e o Hare Krishna em São Paulo não, necessariamente, faziam um ser membro do outro. “As pessoas ligadas ao straigh edge até 95, em sua maioria, faziam parte de um movimento anarquista chamado Juventude Libertária e eram SXE mais por política do que só por som ou por outro rolê que estava rolando lá fora", conta o Pedro. Em termos de som, a galera era ligada em Youth of Today e outas bandas SXE, mas foi esse rolê mais político que deu lugar aos straight edge paulistanos no começo. “Esses rolês do Hare Krishna e do straight edge não eram necessariamente complementares. Eu mesmo tinha muita resistência, porque vínhamos de um background anarquista e de esquerda e na minha cabeça, o Hare Krishna, que de certa forma tinha uma doutrina conservadora, era incompatível. Eu não era radicalmente contra, entendia quem fazia essa junção dos dois mundos, mas para mim era absurdo".
Voltando para a Verdurada, uma outra situação que se assemelha aos rolês Hare Krishna é o de distribuição de comidas veganas e vegetarianas nos eventos. O rolê seguiu com essa prática nos shows, eventos e palestras, mas não só por causa do Hare Krishna. Para o Pedro, isso também tinha ligação com o que a Juventude Libertária já estava fazendo, influenciados por movimentos tipo o Food Not Bombs, “era um lance de fazer uma crítica ao capitalismo, o Alimento em Ação, que foi a nossa versão por aqui dessa distribuição de comida, até antes mesmo da Verdurada - mas o começo dentro desse evento foram sim as Prasadas".
Já na música, algumas bandas colocavam a filosofia Hare Krishna nas letras, mas não necessariamente eram só krishnacore, como o Shelter e o 108. Against Ones Will, que tinha o Alexandre Pregueiro de guitarrista, já teve show que ele tocou com as roupas do templo, mas não se denominavam krishnacore. “Aqui sempre foi uma mistura de pessoas e de ideologias, não necessariamente teve uma banda totalmente krishnacore”, conta o Alexandre. Bandas como No Violence, Trusting, Self Conviction entre outras, faziam parte da cena Straight Edge.
Mas da mesma forma que essa relação do hardcore com o Hare Krishna foi forte por um tempo, ela foi esfriando conforme o sucesso de bandas tipo o Shelter não era mais o mesmo. Claro que tiveram algumas pessoas que seguiram a doutrina religiosa e seguem até hoje, mas são muito menos do que as do meio de 1996. A própria Verdurada encontrou outros lares ao longo do tempo e acontece até hoje, 30 anos depois.
Esse movimento também se espalhou para outras cidades do Brasil e tem adeptos até hoje, claro. Mas esse começo em São Paulo foi curioso o suficiente para a gente vir contar essa história, 30 anos depois.
A visão de um iniciado Hare Krishna hardcore
Em São Paulo, essa relação do HC com o Hare Krishna começou com poucas pessoas e, um dos primeiros caras que fez de fato essa conexão foi o skatista profissional na época, Alexandre Pregueiro. O Abiuro, apelido com o qual ficou conhecido no mundo do design anos depois, conheceu o Hare Krishna através do hardcore e ficou anos vivendo a doutrina religiosa. Seu nome de iniciado é Goura Govinda e a gente bateu um papo, trazendo uma visão não só de quem tocou em bandas e viu o movimento acontecendo, mas de quem o viveu na prática filosófica:
ISMO: Como foi pra você essa relação do hardcore com Hare Krishna?
Alexandre: A base de tudo pra mim sempre foi o skate, foi ele que trilhou o caminho para essa história. Eu comecei a andar bem no começo dos anos 90 e passei pra profissional bem cedo, era outra época, passei pra pro de 94 para 95. Era uma estrutura meio capenga e o mercado estava tentando se segurar.
A relação da música foi através do skate. Em casa, meu pai sempre ouviu muita música, vinha daquele metal clássico, Black Sabbath, Deep Purple, Led Zeppelin… Sempre tive essa relação. Nos anos 90, o skate começou a ter aquela separação dos caras mais gangueiros, com relação com o hip hop e os mais punk. Eu sempre permeei pelos dois lados, mas tinha uma identificação maior com o lado punk rock e hardcore.
Nesse momento, andando de skate, eu tinha uma amiga, a Silvana Melo, que chegou a cantar no No Violence, a gente sempre se encontrava na Galeria e ela namorava o Kichi na época. Ele me mostrava muita coisa de som, tipo o Heresy, Youth of Today e quando conheci essa banda, era um pouco no começo do Straight Edge e comecei a fazer muita amizade nesse ciclo.
Quando você é moleque, com 15 anos, você fica buscando coisas. Youth of Today foi uma pancada diferente do que a gente conhecia, porque era agressivo, rápido e as letras falavam em assuntos que eu nunca tinha parado pra pensar. A Silvana tinha a capa do Cro-Mags desenhada nas costas, do Best Wishes, que é um desenho Hare Krishna e ela falava de um templo na Av. Angélica que eles davam jantares vegetarianos de graça, falava das palestras… A primeira vez que fui, aquilo me pegou de certa forma, porque a impressão que eu tinha antes, era de que era algo religioso, mas a palestra era algo muito mais filosófico e aquilo me marcou. Isso no meio do hardcore, no começo da Verdurada, com a influência Straight Edge, isso começou a virar um assunto recorrente.


Anos 90 na Casinha (fotos: Marcos Aragão / Arquivos Hardcore 90 Doc)
Claro que a gente se inspirava em Shelter, 108, todo mundo gostava da ideia, mas eu mesmo entrei de cabeça. Nessa época eu ainda era profissional de skate, eu já tinha uma tendência para virar vegetariano, o straight edge já tinha se consolidado na minha turma… Era uma relação de amizade, de som e depois veio o Hare Krishna, que fechou um combo.
Você chegou a morar em templos, foi iniciado?
Sim, fiz tudo isso. Teve até uma matéria na CemporcentoSKATE, uma entrevista de umas 4 páginas, eu estava bem inserido. Eu nunca parei de andar de skate, mas parei um tempo de estudar, fui para o templo, fui para Argentina, cheguei a tocar com o Bhakti, a convite deles quando estiveram em São Paulo… Quando eu voltei, toquei em duas bandas Straight Edge, sempre colocava um temperinho Hare no meio.
Tinha uma divisão, tinha uma galera que não gostava de misturar religião com o som, mas a gente se respeitava. Tanto que os primeiros rangos era a gente que fazia no templo Hare Krishna - tinha o Lila, que era o cara principal, que organizava tudo. O carro ficava na minha casa, eu ia buscar a comida, levava para a Verdurada e para outros rolês, chegamos até fazer isso em campeonatos de skate.
Eu fiquei no templo na Argentina, cheguei a morar um tempo no templo da Av. Angélica, já morei no Rio de Janeiro… Fiquei muito tempo inserido, uns 5 anos, realmente envolvido, mesmo quando não morava lá, ia todos os dias. Eu nunca larguei, tenho uma ligação forte até hoje, mas depois tive filhos, você vai ficando mais velho… Eu passei uma fase que era uma de estudos, mas até hoje eu carrego o Hare Krishna comigo.
Um detalhe curioso é que essa coisa do veganismo no Hare Krishna, muito dos diálogos começaram com a gente, antes era uma coisa bem controversa. Quando conheci o Straight Edge, já estávamos no movimento vegan, era uma relação mais política, anticapitalista, tinha toda essa visão de revolta da juventude, de lutar contra o sistema, então não fazia sentido, a gente brincava que SXE que não era vegan, era mais ou menos (risos).
No templo, o leite é considerado sagrado, mas eu falava “se não pode comer carne, também não pode tomar leite”, batia de frente com essa ideia. A galera mais velha questionava, mas com o tempo isso começou a ser absorvido - por exemplo, nas festas de domingo, começaram a fazer comidas veganas e começaram a ver que a ideia fazia sentido.



Alexandre no Against Ones Will (fotos: Marcos Aragão)
Falando sobre isso, como era a percepção da galera do Hare Krishna com a chegada do pessoal do hardcore? Na sua visão, como era pra eles falar de Krishna dentro de uma música com guitarra distorcida?
Como é uma instituição feita por pessoas, tem vários tipos, uns mais abertos, outros com a cabeça mais fechada, que achavam que aquilo não fazia sentido. Vi os dois lados, em lugares diferentes. Numa fazenda lá no interior, com caras que já estão lá há muito tempo, essa relação na época não era algo que dava pra entender, mas foi muito bem aceito.
O Shelter fez muito sucesso, aqui no Brasil virou notícia e se espalhou como uma forma de mostrar que o Hare Krishna não é só uma religião, é uma filosofia. Não é uma separação entre doutrinas religiosas, o Hare Krishna é um apelido para uma filosofia e foi dado aqui no Ocidente nos anos 60. Toda cultura é muito mais antiga, do hinduismo, dos vedas… Essa mensagem sempre foi colocada nos termos de “tempo, lugar e circunstância”, essa relação sempre foi importante para contextualizar como cada um, em cada tempo, vai chegar no Hare Krishna - a filosofia não muda, mas o tempo, o lugar e as pessoas sim. Se você quer falar de uma filosofia de não-violência, por que não através do hardcore? Era um caminho aberto.
Mas claro que tinha gente que não entendia. Tocar com a roupa de estudos Hare Krishna, eu cheguei a tocar assim e a galera não entendia. Mas vejo que influenciou muita gente, tiveram pessoas que passaram, outras que ficaram… Trouxe um lado mais sutil, trouxe uma filosofia de não-violência. O lance PMA do Bad Brains foi potencializado através dessa ideologia hinduísta.
Em 95 e 96, muita gente se interessou, mas como você disse, algumas vieram e passaram. Como você vê a queda do interesse das pessoas com o tempo?
Eu posso falar por mim e por pessoas mais próximas. A maioria dos meus amigos vegan e Straight Edge não são mais (risos). As pessoas envelhecem, mudam de opinião… O Shelter mesmo, eu gosto até mais ou menos do Mantra, o resto eu não piro tanto. E eu acho que uma galera que tinha esse interesse através das bandas, foi se desinteressando.
Sobraram alguns, tipo o Goura, que inclusive fomos iniciados no mesmo dia, meu nome de iniciado também é Goura Govinda (Goura significa dourado em sânscrito e Govinda é um dos nomes de Cristo). Ele, Goura Nataraj Dasa, era um cara que era uma ponte em Curitiba, e é um cara que está aí até hoje. Por coincidência, nosso nome é Goura, mas não foi de propósito (risos).

Foi algo muito forte, imagina uns moleques de 15 anos discutindo sistema, veganismo… Eu queria ser mais punk que o punk (risos). Se não tivesse uma mistura de pessoas e de ideologias, talvez a gente não tivesse as filosofias de vida que temos hoje.