Terra, suor e bola: o futebol de várzea pela ótica de Hick Duarte
O fotógrafo conhecido pelos registros de moda e comportamento, mergulhou no futebol de várzea pelo Brasil
Depois de mais de uma década fotografando moda e a juventude brasileira, Hick Duarte decidiu apontar sua câmera para os campos de futebol, mas não aqueles que a gente costuma assistir aos domingos ou durante a Copa do Mundo. Estou falando da várzea, terrões de Taboão da Serra, os que ficam às margens do Rio Tapajós, e dos que cercam a Chapada dos Veadeiros. Foram seis meses indo do Pará a Goiás, passando por Salvador e São Paulo, atrás de pessoas que jogam por amor e veem no futebol mais pertencimento do que uma possibilidade de profissão.
O resultado dessa imersão está em cartaz na Capela Galeria, no terraço da Galeria Metrópole, em São Paulo, com o nome Em Campo. São 37 fotografias que, ao invés de focarem o gol, registram o antes e o depois das partidas, com gente cheia de suor e terra. É no miolo entre o esforço e o descanso, que Hick escolheu construir seu novo trabalho, misturando moda e documentário, clicando uniformes remendados e acessórios (hoje proibidos no futebol profissional), detalhes que ajudam a contar uma história que não se enxerga sempre.
Hick Duarte é conhecido por assinar trabalhos para grandes veículos de moda, como Vogue, Elle e GQ, mas nunca abriu mão do trabalho pessoal e documental. Em Em Campo essas duas personas se encontram, onde ele coloca pra jogo o olhar treinado por anos nos sets de fotografia, direcionado agora para jogadores de futebol amador, sempre dando o mesmo valor que o dedicado à grandes modelos. Aqui se revelam estilos, identidades, comunidades e resistência através do futebol de várzea.
Para saber um pouco mais sobre o processo por trás das imagens, os territórios que ele percorreu e como essa exposição se encaixa dentro do deu corpo de trabalho, troquei uma ideia com o fotógrafo.

Nesse novo projeto você propõe a união do registro documental com alguns códigos da imagem de moda. Como foi esse processo de equilibrar o olhar de esporte/espetáculo sem perder a estética na representação das roupas, uniformes e posturas de quem joga?
Foi um processo bem objetivo e de muita observação. Para esse projeto, eu criei uma espécie de método para chegar às imagens que estavam em minha mente. Não sendo um fotógrafo de esportes, senti que um caminho interessante seria focar em momentos pré e pós jogo, muito mais do que a partida em si. Esses momentos são ricos porque as pessoas estão mais relaxadas, você consegue criar uma conexão mais próxima, e isso transparece na imagem final. Todos os retratos que apresento na exposição foram intencionalmente feitos pós-jogo, por isso vemos algumas pessoas molhadas de suor ou chuva, sujas de terra, uniforme nos ombros, chuteiras amarradas. Foi muito legal poder jogar com os gestos, linguagem corporal e códigos de estilo das pessoas a partir do que elas traziam consigo, sem acrescentar nada. Com muita observação e desarmando a pessoa ali no momento da sessão, acredito que esses retratos nasceram com a força que deveriam, borrando a linha entre a fotografia documental e a imagem de moda.
O futebol tem influenciado outras esferas, como a própria moda, e na várzea as práticas comunitárias tem uma estética muito própria. Durante a pesquisa, quais foram as assinaturas de estilo e comportamento que mais te marcaram?
Os uniformes, em primeiro lugar. Do que as meninas usavam em Alter do Chão, até os jogadores da Copa Quilombola Kalunga no Goiás, todos tinham características muito próprias. Achei interessante também a presença de cores neon, ultra vibrantes, que estão muito presentes na exposição, inclusive propondo um forte contraste com as imagens em preto e branco. Mas talvez o mais interessante seja a forma como as vestimentas do esporte se misturam com as subjetividades de estilo de cada um. Isso é algo que sempre me atraiu, como pequenos acessórios de uma pessoa contam uma história, carregam uma carga simbólica grande, de uma tatuagem a uma tira de cabelo. Acho que o mais rico imageticamente era como esses acessórios complementares interagiam com os uniformes e peças mais técnicas.



O roteiro que você percorreu foi bem longo, vai de São Paulo a Amazônia. Você percebe que as diferenças entre esses territórios influenciaram a dinâmica do jogo de alguma forma? E se sim, como isso aparece no seu trabalho.
Sim, as diferenças entre territórios tornaram cada sessão especial da sua forma. Em São Paulo, nos jogos de várzea que fotografei entre amigos no Taboão da Serra ou na Luz, por exemplo, o clima era mais descontraído, de descompressão, e ao mesmo tempo conexão e reencontro entre os jogadores. No campo do Povoado Moinho, onde fotografei um jogo infantil, senti uma outra energia. O jogo parecia indefeso e comum, mas depois, quando entrevistei as crianças, outra camada da história se revelou. Aquele campo, lindo, no meio do Cerrado, cercado pela Chapada dos Veadeiros, está ameaçado pela iniciativa privada há um tempo, e esses jogos precisam acontecer com frequência para manter o campo ativo. Acho que essas nuances, esses contextos ao redor dos jogos e times, mudam bastante a forma como as imagens são percebidas, por isso faremos uma série de eventos durante o mês em que a exposição vai durar para compartilhar essas histórias e abrir o processo criativo por trás de todo o trabalho.
Pra você, qual é o papel do fotógrafo contemporâneo em relação aos ecossistemas e comunidades que ele registra? Pergunto isso considerando o movimento de reverter parte do valor das vendas para os grupos registrados em imagem.
Há 15 anos fotografando retratos, aprendi que nenhuma imagem se faz sozinha. Ela nasce da colaboração entre o fotógrafo e a pessoa retratada, a partir de uma entrega igualmente importante de ambos os lados. Nunca comercializei um retrato sem levar em conta esse acordo, seja no meu trabalho com marcas ou nos meus projetos de arte. Isso não é uma regra, mas é a forma como me sinto confortável em trabalhar. Durante a execução do projeto Em Campo, vendo de perto a realidade de como o futebol é praticado com tanto amor e garra apesar da escassez de estrutura para os times e das associações, esse meu pensamento sobre o retrato me pareceu fazer mais sentido ainda. Foi uma forma que encontrei de poder colaborar minimamente e de forma mais prática com a realidade desses atletas. Por isso, 50% do valor arrecadado com a venda das fotografias será revertido para as associações esportivas e clubes amadores que foram retratados nas imagens, contribuindo para melhorias em suas sedes, realização de campeonatos e infraestrutura necessária para a formação e o treinamento dos atletas.



De que forma a Em Campo conversa com seus trabalhos anteriores e o que tem de inedito sobre a juventude que você ainda não tinha captado?
Vejo Em Campo como uma continuidade do meu trabalho. Sempre me interessou fotografar a juventude brasileira, é um objeto de pesquisa, uma investigação se desdobra. O inédito foi usar o futebol como lente para acessar essas histórias e perceber como ele cria identidade, pertencimento e comunidade. Apesar de ser um projeto documental, Em Campo conversa diretamente com meu trabalho de moda. Em ambos, o retrato ocupa um lugar central e existe uma atenção aos gestos, às subjetividades de estilo e à própria diversidade que faz do Brasil um país tão lindo e plural. Acho também que o mais interessante foi abrir mão do controle. Não definir o casting, nem o que cada pessoa estaria vestindo, e deixar que os encontros e as surpresas conduzissem as imagens.
Serviço:
Hick Duarte: Em Campo
Visitação: 18 de julho a 22 de agosto, das 12h às 20h - Grátis
Capela Galeria: Galeria Metrópole – Avenida São Luís, 187, Terraço, Sala 5.