Filmes em que nada acontece
O Slow Cinema como antítese da velocidade desenfreada nas artes
Em tempos de vídeos curtos, scrolls infinitos no Instagram e TikTok, trends repetidas à exaustão e conteúdos rápidos com cortes esquizofrênicos, a fuga pode estar no extremo oposto, no tédio. Essa é a proposta do Slow Cinema, o “cinema-lento” em tradução literal, ou cinema de contemplação, uma espécie de gênero que surge como antítese a tempos de acelero tecnológico, mas bem antes das redes sociais.
Nas décadas de 1970 e 1980, a globalização já se encontrava estabelecida e a velocidade dos meios de comunicação estava a milhão. As distâncias, físicas e simbólicas, passam a ser reduzidas de um jeito antes impensado, e nas artes isso se imprime como desenvolvimento tecnológico. Em resposta a isso, alguns diretores começam a, não de forma organizada, pensar o tempo de maneira diferente, e assim como na literatura moderna e contemporânea, entendem que a narrativa não precisa necessariamente seguir a estrutura padrão de evento seguido por conflito e finalizando com sua resolução.
Chantal Akerman, Andrei Tarkovsky, Béla Tarr, Lav Diaz, e Abbas Kiarostami são alguns dos nomes mais conhecidos dessa tendência que estica os planos ao limite, fazendo do tédio uma ferramenta de desconforto proposital, mas não necessariamente negativa. Os elementos narrativos passam a ser distribuídos ao longo do filme todo, que se constroem por takes mais longos, por vezes parados, e até com poucos diálogos. Gosto de pensar que o slow cinema aterra as histórias e se preocupa mais em mostrar o que está acontecendo agora, no momento, do que construir expectativa sobre o que vai aparecer a seguir.

Também é perceptível que boa parte dos diretores que optaram por seguir essa tendência são de países do lado leste do Meridiano de Greenwich, e por mais que nem todos façam parte do que culturalmente consideramos Oriente, existe uma força que briga com o modelo ocidental de arte, cinema e cultura. Apesar de não se caracterizar como um movimento, ou exatamente um gênero, o que os conecta além das escolhas estéticas, são as perspectivas de quem viveu ou vive em países marcados negativamente pelos horrores das guerras, como Irã, Filipinas e China.
Nesse momento atual, em que a velocidade está muito mais acentuada do que há 50 anos, me pareceu interessante listar alguns filmes célebres do Slow Cinema para você incluir entre os próximos a se assistir. Sei que estamos aos poucos nos acostumando com materiais que sentem medo do espectador pegar o celular caso não o estimule a cada cinco segundos, então encare essa experiência como desafio para olhar com calma e tempo para o agora.

Limite (Mário Peixoto, 1931)
Apesar de ser realizado muito antes do conceito de slow cinema existir, começar com um filme de vanguarda brasileiro me pareceu fazer muito sentido. Um homem e duas mulheres, presos em um barco à deriva, relembram o seu passado nesse filme que não teve lançamento oficial na época. A qualidade das cópias que sobraram não ajudam muito a ver com perfeição as texturas e paisagens filmadas, assim como os longos close-ups nos rostos dos personagens que, aos poucos, aceitam que chegaram ao limite de suas vidas.

Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce, 1080 Bruxelles (Chantal Akerman, 1975)
O filme mais conhecido de Akerman provavelmente é um dos exemplos mais radicais e também políticos do uso do tempo pelo cinema, para mostrar o que não aparece sempre em cena. O filme nos coloca dentro do dia a dia da protagonista, e a câmera a acompanha em tarefas comuns como lavar a louça, arrumar a cama e descascar batatas, tudo sem cortes e no tempo que leva na vida real. A rotina sufocante e alienadora da dona de casa aos poucos começa a ruir, até o clímax que, de certa forma, sempre esteve ali, nesse acúmulo cansativo do tempo comum.

O Sacrifício (Andrei Tarkovsky, 1986)
Claro que o cara que escreveu um livro sobre teoria do cinema chamado Esculpir o Tempo (1985), estaria na lista. Difícil escolher um só, mas vou com esse que é o último filme de Tarkovsky, uma parábola sobre um homem que tenta negociar com Deus a salvação do mundo de uma guerra nuclear. O filme aborda questões filosóficas, claro, mas também dá às cenas o tempo que elas precisam para acontecer, sem intervenção prática ou edição, nos forçando a compartilhar as angústias do personagem.

Sátántangó (Béla Tarr, 1994)
Esse aqui você pode parcelar em alguns dias porque tem mais de sete horas de duração, mas eu prometo que vale a pena. O filme é baseado no livro de mesmo nome do vencedor do Nobel de Literatura de 2025, e mostra os efeitos destrutivos do controle de humanos sobre outros humanos, quando em situações de estagnação. O cenário é uma vila na Hungria pós-guerra, e além do tédio, outro tema muito explorado pela lentidão e repetição das cenas é a desesperança. Além de separar um tempo para assistir, indico fazer quando estiver de bom humor, porque o clima é pesado.

Trilogia da Vida (Roy Andersson, 2000 - 2014)
Aqui eu roubei e coloquei três filmes de uma vez, mas vale a pena. A trilogia composta por Canções do Segundo Andar (2000), Vocês, os Vivos (2007) e Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência (2014), é quase uma pintura em movimento. Os filmes apresentam algumas esquetes tragicômicas, geralmente em enquadramento fixo e sem cortes, exigindo que nós, espectadores, observemos cada pedaço do quadro construído pelo diretor. O humor é meio ácido, meio esquisito, e brinca muito com as falhas do cotidiano humano.

Jogo de Cena (Eduardo Coutinho, 2007)
Sem querer generalizar, mas o documentário brasileiro tem um histórico de não se deixar levar pelo ritmo frenético das montagens. Em Jogo de Cena, o gênio Eduardo Coutinho dá espaço para vozes e rostos sobre o palco de um teatro vazio. As histórias de mulheres anônimas são contadas por elas mesmas e recontadas por atrizes profissionais, que precisam transmitir para o espectador a mesma verdade, enquanto confrontam seu fazer artístico. Daqueles filmes atemporais.

Um Elefante Sentado Quieto (Hu Bo, 2018)
O mais recente da lista, para provar que o Slow Cinema não fica preso em um único contexto temporal. Os planos-sequência de câmera fechada, seguem quatro pessoas que viajam ao Norte da China, em busca de um elefante que, supostamente, fica sentado, ignorando todas as pessoas ao redor. O filme é bem melancólico e a forma em que foi filmado combina com a narrativa pesada, lenta, cansativa e sufocante, como um elefante e como a vida de uma parte significativa das camadas mais marginalizadas da China contemporânea.