Antes da New Wave ser batizada, Jimmy DeSana estava lá

Sem os registros expontâneos do fotógrafo, dificilmente teríamos uma história visual da geração novaiorquina que mudou a cena de arte e música

Antes da New Wave ser batizada, Jimmy DeSana estava lá
Talking Heads (1977)

Talvez você tenha tropeçado nos últimos dias em algum artigo, post ou vídeo falando sobre a volta dos CD’s e discos de vinil, objetos que até pouco tempo atrás eram a principal forma de se ouvir música e hoje viraram decoração ou itens de coleção. Fato é que boa parte da mágica das mídias analógicas está na possibilidade de tocar e ver as capas, os encartes em tamanhos que hoje se limitam às telas de celular. Por isso que, nas últimas semanas decidi resgatar alguns dos nomes responsáveis por capas icônicas, como S. Neil Fujita e Stanley Donwood. Pois bem, hoje quero falar de um cara que foi responsável por registrar as cenas No Wave e New Wave na década de 1970.

Em 1978, numa parede de estúdio em Nova York, foram penduradas 529 imagens dos quatro integrantes do Talking Heads. Rostos, mãos, pedaços de roupa, ângulos repetidos até formar um mosaico enorme, como um quebra-cabeça. A ideia tinha saído da cabeça de David Byrne, mas quem passou dias fotografando a banda, revelando, recortando e organizando aquilo tudo até virar a capa de More Songs About Buildings and Food foi Jimmy DeSana. Ele não assinava como fotógrafo de capa de disco. Na real, essa nem era a praia dele. Ele era só um cara que sempre andava com sua câmera, presente nos lugares certos, disposto a fotografar qualquer coisa que aparecesse pela frente. Por sorte, algumas bandas estavam por perto.

Novamente, ele é o tipo de personagem que a gente costuma esquecer quando fala de uma cena musical. Não o artista que sobe no palco, mas quem fica do lado de fora, documentando aquilo tudo sem saber ainda que estava documentando a história. Jimmy DeSana foi uma dessas pessoas, e o resultado é que boa parte de como hoje enxergamos o auge do punk e da New Wave nova-iorquina, os rostos, as roupas, a luz precária dos bares, passou pelas mãos dele antes de chegar até nós.

DeSana nasceu em Detroit em 1949, mas cresceu em Atlanta, onde começou a fotografar ainda adolescente, principalmente amigos e conhecidos. Formou-se em Belas Artes pela Universidade da Geórgia em 1972, e o trabalho de conclusão de curso já dizia bastante sobre como funcionava sua cabeça. 101 Nudes, foi uma série de 56 fotolitografias em preto e branco de amigos nus ou seminus, fotografados dentro e ao redor de casas comuns, de periferia, cenário que qualquer família americana reconheceria. Puro hedonismo.

Em 1973, DeSana se mudou para Nova York e foi direto pro East Village, bem a tempo de pegar o nascimento de uma cena que ainda nem tinha nome definido. CBGB estava no comecinho, o Mudd Club nem existia, mas o punk já chegava com uma porrada de novos artistas tentando decidir o que fazer da própria vida numa cidade quebrada, e um monte de gente circulando entre música, artes visuais e literatura sem se preocupar muito com fronteira entre uma coisa e outra.

Nessa época, se você fosse um pouquinho desajustado, seria fácil entrar nesse circuito, e o DeSana foi um desses. Amigos e biógrafos costumam repetir a mesma imagem dele, sempre com a câmera pendurada no pescoço ou na mão, em qualquer festa, qualquer show, qualquer vernissage. E, ao contrário do estereótipo do fotógrafo oportunista que dispara sem pedir licença, quem conviveu com ele garante que DeSana nunca tirava uma foto de alguém sem perguntar antes. Isso talvez explique por que tanta gente confiava nele, e por que seu arquivo, hoje, tem uma sensação de intimidade que fotos de show costumam não ter.

Pra pagar as contas, DeSana trabalhava como fotógrafo freelancer para alguns projetos que viviam dentro dessa cena: East Village Eye, File, New York Rocker, SoHo News, Village Voice, além do Trylon & Perisphere, um jornal de arte homoerótica editado pelo crítico Gregory Battcock, onde DeSana também publicava desde o início dos anos 1970. Era trabalho comercial, o tipo de corre que sustenta um artista enquanto ele desenvolve o próprio projeto à parte. Só que, olhando hoje, esse trabalho é exatamente o que garantiu a DeSana o posto de cronista visual oficial (e não oficial) de uma cena inteira.

Ele fotografou a galera que definiu a linguagem visual daquele momento. David Byrne, Debbie Harry, Richard Hell, Billy Idol, James Chance, a banda Television… Fotografou também gente que ficava no lado mais literário e artístico, mas que estava sempre no mesmo bar, na mesma festa, na mesma exposição. Kathy Acker, Laurie Anderson, Kenneth Anger, Patti Astor, John Giorno, Yoko Ono, William S. Burroughs. A real é que naquela época era difícil separar música de artista plástico, e isso fazia pouca diferença. Todo mundo andava com todo mundo, e junto estava o Jimmy DeSana, de câmera na mão.

O trampo com o Talking Heads talvez seja o exemplo mais visível dessa proximidade entre DeSana e a cena. Além da capa de More Songs About Buildings and Food, de 1978, ele também assinou a arte do primeiro single da banda. Fez também a capa do disco de John Giorno, poeta e artista sonoro ligado à mesma turma, You're the Guy I Want to Share My Money With (1981), além de capas para a Semiotext(e), editora que publicava textos franceses cabeçudos e virou o rolê intelectual daquela geração. Ele não era designer de capas contratado pela gravadora, mas como estava próximo, fotografando os próprios amigos, funcionava bem.

Em fevereiro de 1981, chegou o momento que colocou esse universo inteiro dentro de um museu, ainda que de um jeito meio caótico. Diego Cortez, cofundador do Mudd Club, organizou a mostra "New York/New Wave" no P.S.1, em Long Island, reunindo mais de cem artistas ligados à cena punk, No Wave e graffiti que vinha se formando fora dos circuitos oficiais. A exposição bombou, com fila dando volta no quarteirão, e é lembrada até hoje como o momento em que artistas como Jean-Michel Basquiat, Keith Haring e Robert Mapplethorpe ganharam projeção. DeSana estava lá, ao lado de Nan Goldin, o próprio Mapplethorpe e Basquiat, exibindo seu trabalho fotográfico junto de quem ele passava anos fotografando informalmente pelos clubes. É um momento simbólico e um pouco irônico, já que o cara que vinha documentando a cena de dentro, sem status de artista principal, de repente estava pendurado na mesma parede que os nomes que ele retratava.

Vou abrir um parêntese, porque seria estranho falar de DeSana só pelo trabalho comissionado e ignorar que, em paralelo a tudo isso, ele desenvolvia um trampo pessoal, hoje considerado o núcleo do seu legado artístico. As séries Submission (1977-79) e Suburban (1979-84) trazem corpos nus, quase sempre sem rosto, contorcidos em posições estranhas dentro de casas de subúrbio, sob luzes em cores ácidas, rosa-choque, verde-limão, roxo... É como se ele pegasse o cenário mais “normie” possível, a casa americana padrão, e colocasse ali dentro tudo que aquele cenário tentava esconder. fetiche, bondage, corpos que não cabem na lógica da família tradicional. O escritor William S. Burroughs, que ele conheceu justamente circulando por essa cena, assinou o texto de abertura do livro Submission, publicado por DeSana de forma independente em 1979.

Esse trabalho duplo, de documentar a cena por fora e reinventar o corpo por dentro do estúdio, é o que torna DeSana um caso difícil de encaixar em algum modelo específico de arte. Ele não era um fotojornalista musical, tipo Bob Gruen, nem um artista que só usava a música como pano de fundo conceitual. Ele existia em um espaço do meio, meio artista, meio trabalhador da própria cena, e talvez seja justamente essa posição que explique por que seu nome nunca ficou tão conhecido quanto o de gente que ele fotografou.

DeSana morreu em julho de 1990, aos 40 anos, vítima da Aids, em uma época em que boa parte daquela geração de artistas e músicos já tinha sido levada pela epidemia. Depois disso, seu trabalho meio que sumiu de circulação por décadas, guardado por amigos próximos como a fotógrafa Laurie Simmons, que ajudou a preservar o arquivo. Só recentemente esse material voltou à tona com mais força. Em 2015, a Aperture publicou a monografia Jimmy DeSana: Suburban e em 2022 e 2023, o Brooklyn Museum organizou "Submission", a primeira retrospectiva de museu dedicada a ele, reunindo mais de 200 trabalhos, incluindo boa parte dos retratos de cena que até então circulavam só em arquivo de zine ou em coleção particular.

O curioso é que, ao ver esse material reunido hoje, o que brilha não é só a qualidade técnica das fotos de banda ou dos retratos de festa, mas a sensação de estar mexendo num álbum de família. Tem Byrne posando sério pra Polaroid que vira capa de disco, tem Debbie Harry loucona em alguma festa, tem James Chance suado depois de um show que provavelmente terminou em briga... Registros de gente comum que, por acaso, estava inventando uma das cenas artísticas e culturais mais influentes do século, no meio de uma Nova York fodida, suja e ao mesmo tempo simples o suficiente para permitir esse tipo de experimento coletivo.

DeSana nunca vai ser lembrado do mesmo jeito que Byrne, Harry ou Basquiat, e talvez ele nem quisesse isso. Mas sem ele, boa parte do que sabemos hoje sobre como aquela cena parecia, fazia e se vestia simplesmente não teria imagens. Ele estava lá com a câmera antes de qualquer um decidir que aquilo tudo merecia ser preservado, e é por isso que, décadas depois, ainda é através dos olhos dele que a gente consegue ver o que a New Wave era antes de virar história.

Jimmy DeSana and Darrell Bagley (1983-84)

ISMO
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