A Mizuno fez o Prophecy. A rua fez o “Mizuno de mil”
Criado para a corrida, o Wave Prophecy ganhou outros nomes, usos e significados nas periferias brasileiras. Quinze anos depois, essa história voltou para a própria marca
A Mizuno acaba de lançar Relíquia: A Profecia Vem das Ruas, documentário produzido em parceria com o Originais Podpah para contar a relação do Wave Prophecy com o funk e as periferias brasileiras. Kyan, MC Neguinho do Kaxeta, MC Ktrine, Luana Maia, DJ Thays, Igão e Mítico aparecem relembrando um tênis que atravessou bailes, letras de música e histórias pessoais desde que desembarcou por aqui. O filme acompanha o retorno do primeiro Prophecy, lançado originalmente em 2011, e faz parte da campanha Relíquias Nunca Morrem.

Tem uma mudança importante nessa escolha de palavras. O Prophecy que a Mizuno apresenta hoje como “relíquia das ruas” nasceu como o modelo mais tecnológico de sua linha de corrida, construído em torno da Infinity Wave, estrutura de amortecimento que ocupa praticamente toda a sola e faz questão de deixar sua engenharia aparente. Nos primeiros anos do modelo no Brasil, era esse o discurso oficial: performance, tecnologia e corredores dispostos a pagar caro pela novidade.
Só que produto nenhum circula pelo mundo carregando uma bula que determine como deve ser usado, por quem e o que deve significar para sempre. Entre o Prophecy que saiu da fábrica e o que aparece hoje num documentário do Podpah existem quinze anos de gente usando e atribuindo novos sentidos ao tênis. E a história levanta uma pergunta que vale para muito além da Mizuno: quem faz o significado de um produto, a marca ou quem usa?
Antes de ser relíquia, ele era o tênis de mil
Em maio de 2013, uma reportagem da Folha de S.Paulo já registrava que alguma coisa não estava saindo exatamente como o departamento de marketing havia planejado. O Wave Prophecy custava R$ 999, tinha comunicação voltada às classes A e B e havia sido desenvolvido para corredores interessados em alta performance. Ao mesmo tempo, aparecia nos bailes funk, em letras de música e nos pés de jovens das periferias paulistanas. Um gerente da Mizuno ouvido na época chegou a dizer que “não é bom um funk que fala sobre o seu uso casual”. Em 2012, segundo a reportagem, as vendas do modelo haviam sido quatro vezes maiores que a previsão da empresa.

Vista treze anos depois, a declaração parece especialmente interessante. Hoje é justamente a relação com o funk e o uso casual que ocupa o centro da narrativa da marca. O que antes surgia como um desvio da finalidade imaginada para o produto passou a fazer parte de sua biografia oficial. Até o apelido ajuda a visualizar essa mudança: o nome dado pela Mizuno era Wave Prophecy; por aqui, ele virou também o Mizuno de mil, referência direta ao preço que ajudava a transformá-lo em objeto de desejo.
Seria fácil explicar esse fenômeno apenas pelo valor. Um tênis caro funcionando como prova de que alguém conseguiu comprar um tênis caro. Mas isso simplifica uma relação bem mais complexa entre consumo, estética e vida periférica. Em muitos desses contextos, roupa, tênis e acessórios não aparecem só como símbolo de status ou tentativa de reproduzir o gosto das classes mais altas. Eles entram em códigos próprios de pertencimento, estilo e conquista.
É também nesse sentido que aparece o “corre”: como uma ideia ligada não só a trabalho e dinheiro, mas a autonomia, segurança e realização. Em pesquisas sobre consumo nas periferias, o tênis surge com frequência como uma espécie de materialização visível desse esforço. Um “pisante” caro pode carregar o preço, claro, mas também tudo o que veio antes dele. Estar com um tênis considerado bom pode significar que o corre está andando, que alguma coisa deu certo, que existe ali uma conquista que pode ser vista.


Um produto sai pronto da fábrica. Seu significado, nem tanto
É nessa circulação que características pensadas para uma função específica começam a ganhar outras leituras. A Infinity Wave foi criada para amortecer o impacto durante a corrida, mas também colocou nos pés uma estrutura enorme, visível e impossível de ignorar. No Brasil, esse desenho encontrou uma estética que já valorizava tecnologias aparentes e silhuetas marcantes. O Prophecy continuava sendo um tênis de performance, mas já não precisava estar numa corrida para fazer sentido.
Essa história também tensiona uma definição de cultura sneaker muito acostumada a olhar para os Estados Unidos. A narrativa mais difundida passa pelo basquete, pelo hip-hop norte-americano, por colecionismo, escassez, lançamentos limitados e mercado de revenda. No Brasil, parte das relações culturalmente importantes com tênis foi construída por outros caminhos. No caso do Prophecy, entram funk, sportlife, tecnologia visível, preço e repertórios periféricos. Para muita gente que participou dessa história, talvez “cultura sneaker” nem fosse uma categoria relevante. O tênis, certamente, era.


É aí que a pergunta sobre autoria fica mais complicada. A Mizuno desenhou o Prophecy, desenvolveu sua tecnologia, definiu seu preço e colocou o produto no mercado. Mas não inventou sozinha o “Mizuno de mil”. Essa parte da história precisou acontecer na rua.
Quando a história da rua volta para a marca
Quinze anos depois, a distância entre esses dois Prophecy diminuiu bastante. No material do novo documentário, Rafael Santos, diretor de marketing da Mizuno, resume a leitura atual da empresa dizendo que a marca fez o tênis, enquanto a cultura brasileira fez dele um símbolo. A campanha afirma que o modelo inspirou mais de cem músicas e destaca o papel de colecionadores, restauradores, artistas e comunidades que continuaram atribuindo valor à silhueta mesmo quando o primeiro Prophecy já não estava nas prateleiras.
A mudança não aconteceu apenas na frente das câmeras. Para planejar o retorno do Prophecy 1, a Mizuno reuniu um conselho cultural que incluiu Eduardo Mizuneira, conhecido pelo trabalho de restauração desses modelos, Wesley Xavier, pesquisador ligado ao estudo Brasil Corre, Maria Julia Gotis Duarte e Samir Bertolli. Segundo uma participante do grupo, a proposta era construir a campanha a partir da escuta de pessoas ligadas à trajetória brasileira do tênis.
Isso torna a história mais interessante do que uma leitura automática de “marca se apropriando da cultura da periferia”. Há um movimento explícito de reconhecimento e incorporação de agentes que participaram dessa trajetória, mas também uma mudança importante quando uma memória construída socialmente entra na estratégia da marca. Histórias, apelidos, referências e usos que foram produzidos ao longo de anos passam a ser selecionados, organizados e transformados em comunicação oficial e, consequentemente, ajudam a devolver valor comercial ao produto.


É por isso que o momento atual é tão curioso. Em 2013, a Mizuno tentava reafirmar publicamente que aquele era um tênis para corrida e via com desconforto sua presença no funk. Em 2026, o funk é uma das principais provas apresentadas pela própria marca de que aquele produto merece ser chamado de relíquia. O consumidor não mudou apenas a maneira de usar o Prophecy. Em alguma medida, obrigou a empresa a mudar a maneira de entendê-lo.
O que volta não é o mesmo que saiu
O Wave Prophecy nasceu dentro de uma empresa japonesa, chegou ao Brasil carregando uma narrativa sobre corrida e tecnologia e, por aqui, encontrou outras músicas, corpos, cidades, desejos e maneiras de consumir. Agora, essa interpretação brasileira faz o caminho de volta: entra na publicidade e passa a compor aquilo que a própria Mizuno apresenta como legado do modelo. É uma circulação menos linear do que a velha ideia de uma cultura global simplesmente exportada para mercados locais. Produtos viajam, mas seus significados não passam intactos pela alfândega.
Por isso é insuficiente decidir se o “verdadeiro” Prophecy pertence à Mizuno ou à rua, seu significado foi sendo negociado. A novidade é que, quinze anos depois, a própria marca passou a reconhecer essa negociação como parte da história do produto.
O Prophecy 1 reaparece com sua enorme estrutura de amortecimento ainda exposta sob os pés. Mas a tecnologia já não é tudo o que se vê ali. O que voltou às prateleiras carrega também uma história que não cabia no projeto original, e que precisou acontecer do lado de fora da Mizuno antes de poder voltar para dentro dela.
