Aki Kaurismäki constrói pontes que conectam trabalhadores do mundo todo

O diretor finlandês, conhecido por seus filmes que retratam a classe trabalhadora e pessoas marginalizadas, tem retrospectiva no CineSESC

Aki Kaurismäki constrói pontes que conectam trabalhadores do mundo todo
Foto: Anssi Lauri

A língua portuguesa — ou brasileira, como prefiro chamar — é fantástica porque tem a capacidade de quebrar convenções definitivas, como tempo e espaço. O diminutivo, por exemplo, não significa necessariamente que o sentido da palavra "reduzida" vai corresponder a algo menor do que o original. Já as distâncias podem ser encurtadas ou esticadas de acordo com a relação que a gente constrói entre dois lugares, ou entre seus nomes. A China sempre vai soar mais distante do que a Indonésia, mesmo que na prática isso não seja verdade. E a Finlândia? Pode facilmente ocupar o posto de país mais distante do mundo, afinal, é a terra do fim.

Tirando esse imaginário todo que cerca um país não só distante, mas diferente, é curioso pensar que existem conexões relevantes entre nós e a fria Finlândia. Uma delas está sendo abordada agora pelo CineSESC, que reúne, pela primeira vez no país, os 18 longas de ficção de Aki Kaurismäki, provavelmente o nome mais importante do cinema finlandês, ao lado do irmão, Mika. A retrospectiva acontece entre 30 de julho e 12 de agosto, com ingressos no precinho, e cobre mais de quatro décadas de carreira.

Agora, apesar dessa mostra ser importante, este texto é na real sobre um cara que passou quarenta anos filmando os mesmos tipos de gente: desempregados, garçonetes, ferroviários e refugiados; com uma câmera parada, atores que quase não piscam e uma trilha sonora de jukebox de bar decadente. E sobre como esse jeito de filmar, tão “nórdico” e tão específico, encontra conexões aqui nesse nosso pedaço de terra.

Foto: Timo Peltonen

Kaurismäki é daqueles diretores-autores, que, segundo o curador Gustavo Galvão, é possível reconhecer com um frame. Plano fixo, cores levemente saturadas, personagens que falam pouco e quando falam soltam o texto mais seco possível. Já que comecei divagando sobre as palavras, “Seco” para definir o humor dos filmes, uma coisa quase imperceptível, mas que ainda assim te faz rir. É um cinema de gente que trabalha, perde o emprego, bebe sozinha e, de vez em quando, encontra alguém disposto a ficar junto no silêncio.

Alguns elementos que ele traz para as cenas nos ajudam a criar essa sensação de identidade. É o carro velho, o jukebox no canto do bar, o cigarro aceso em silêncio, a parede pintada numa cor que dificilmente existe na vida real em qualquer lugar do mundo... E fora do que é visível esteticamente, o drama, a comédia, o absurdo e a crítica social convivem sem gritar, mas sempre com muito afeto, como se o diretor tratasse cada personagem largado com o cuidado de quem sabe que ninguém mais vai cuidar.

Essa fórmula nasceu com a Trilogia do Proletariado, composta por Sombras no Paraíso (1986), Ariel (1988) e A Garota da Fábrica de Fósforos (1990). São três histórias de gente comum tentando sobreviver ao capitalismo dos anos 1980: um lixeiro, um ex-mineiro que perde o pai e a mina ao mesmo tempo e uma operária de fábrica que é ignorada pela própria família. Acho massa que Kaurismäki nunca dá lição a esses personagens, não têm “moral da história” no final. Ele só oferece o que a sociedade nega, que é um olhar próximo, um enquadramento responsável, um pingo de dignidade.

Na década seguinte, o diretor repetiu a dose com a Trilogia Finlandesa, com Nuvens Passageiras (1996), O Homem Sem Passado (2002) e Luzes na Escuridão (2006), e foi ganhando reconhecimento internacional sem nunca se render ao fenômeno de espetacularizar tudo. Os prêmios provam, inclusive, que os temas abordados não precisam ser fechados dentro de um período específico, já que as mazelas da humanidade não diminuíram nos últimos 40 anos.

Enquanto Aki construía um corpo de obra fechado, frio e auto-referente, o irmão Mika Kaurismäki fazia o caminho inverso, vindo parar no Brasil no fim dos anos 1980, de onde nunca foi embora de vez. Rodou o país de ponta a ponta, filmou em português, se apaixonou por uma das nossas, teve filhos e virou o finlandês mais brasileiro que existe.

O contraste do cinema entre os irmãos é bem interessante de se ver também. É de Mika o filme Amazon (1990), rodado na floresta amazônica com trilha absurda de Naná Vasconcelos. Moro no Brasil (2002), apesar de dizer tudo no título, é uma homenagem às raízes da nossa música, especialmente a nordestina. Enquanto Aki preferiu filmar o frio, Mika escolheu apontar a câmera pro nosso calor, pro barulho e por suor. Dá pra pensar os dois como um experimento de biologia, observar como um mesmo material genético se comporta em climas completamente diferentes.

Segundo Graziela Marcheti, coordenadora de programação do CineSESC, o fato dos dois já terem trabalhado juntos em outros projetos, "há uma troca de visões que acaba por influenciar no modo como ambos realizam cinema”. Ou seja, por mais fechado que pareça, existe um Aki que pegou por tabela um pouco do nosso molho latino-americano.

O Outro Lado da Esperança (2017)

E aí fica a pergunta: por que trazer Kaurismäki para São Paulo, e por que ele importa pra gente que, como eu, nunca pisou na Finlândia? A resposta, mais uma vez, está na classe. Segundo Graziela, “a sensibilidade de Kaurismäki, com personagens trabalhadores e marginalizados, é notável” e está claramente marcada pela história política e cultural do país onde vive. Na visão da curadora: 

Acredito que a afetividade presente nessas relações sociais, amorosas e econômicas é que possui o poder de sensibilizar diferentes audiências, em realidades muitas vezes, distintas. A chamada “vida comum”, marginalizada por questões de exclusão, está presente, de maneiras distintas, nas sociedades capitalistas, seja no Brasil ou na Finlândia.

Ou seja, o cara que perde o emprego numa fábrica de Helsinque e o que vai de layoff numa fábrica no ABC, podem estar conectados, mesmo que usem um uniforme diferente e a bebida depois do expediente não seja a mesma. É esse tipo de identificação que não se importa com idioma ou clima, e faz um cineasta tão distante encher sala de cinema em São Paulo.

Outra resposta é a raridade, já que a maioria dos filmes de Kaurismäki nunca passou em cinemas brasileiros. Essa é a oportunidade de, pela primeira vez, assistirmos com qualidade e em tela grande, filmes que antes dependiam da pirataria para circular por aqui. Segundo Graziela, o público do CineSESC é muito diverso, então vai aparecer a pessoa que já conhece todos os filmes do diretor, e gente que vai de coração aberto para conhecer algo novo.

A experiência coletiva do cinema também é um atrativo para conhecer melhor a obra de um cineasta, já que o encontro de pessoas, em grupos de amigos e outros afetos, possibilita a troca de olhares e entendimentos a partir da experiência de cada um.

Volto para a brincadeira da Finlândia como “terra do fim”, para concluir que Aki Kaurismäki passou a carreira inteira provando o contrário. Ao filmar gente como eu e você, deslocada, sem grana e sem sorte, ele construiu uma ponte entre Helsinque e qualquer cidade do planeta. 

No fim das contas, talvez a distância entre Brasil e Finlândia seja mesmo uma confusão linguística. Dois países geograficamente afastados, sem falar no clima, que encontram na tela de cinema uma chance de se conhecerem. Nós brasileiros, acostumados a rir da própria tragédia, nos reconhecemos nos filmes de Aki, só que com sotaque estranho e trilha sonora esquisita.

SERVIÇO:

Retrospectiva Aki Kaurismäki
De 30 de julho a 12 de agosto de 2026
R$ 20,00 (inteira) R$ 10,00 (meia) R$ 6,00 (credencial plena)
CineSesc - Rua Augusta, 2075 - São Paulo
Informações e programação completa: sescsp.org.br/retrospectivaakikaurismaki


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