AK1N puxa o bonde e constrói a cena do footwork no Brasil
O DJ paulistano é referência na cena eletrônica underground e constrói a sua pesquisa em torno de ritmos periféricos pretos
Nascido e criado na favela do Jd. Paulistano, na Zona Norte de São Paulo, AK1N é DJ, produtor musical e cultural e técnico de som, com uma pesquisa focada em ritmos periféricos pretos e responsável por disseminá-los por todo o país. Criador da W1ND, residente da Tijolo Records e parte de projetos como SINCRO DJ's, immersa e Negritud&njoada FM, o DJ é figura central no underground nacional, e vem dedicando, desde o último ano, a maior parte de sua energia para a construção do Projeto Footwork, festa que acontece no CR1A 011, casa central para a cena underground de São Paulo, e chegou a sua oitava edição no começo deste mês.A festa é focada em disseminar a cultura do footwork – um gênero da música eletrônica surgido no final dos anos 90 em Chicago, derivado do ghetto house, tipicamente construído com a MPC, recheado de samples, linhas de baixo marcadas e bastante acelerado, situado em torno dos 160 BPM. O footwork surge como reflexo da vivência nas quebradas de Chicago, com nomes como RP Boo, DJ Spinn, DJ Rashad, DJ Clent, Gant-Man e Traxman usando a música como ferramenta social e cultural na criação de comunidade. De uma cultura extremamente local, foi conquistando o seu espaço no universo da música eletrônica global, ressoando nas periferias do mundo todo, até chegar aqui no Brasil.
"Os caras estão na luta igual a nós – são uns caras de quebrada, que fazem rolê comunitário, evento para tirar as pessoas da rua. Disso, escalonou para o que a gente tá vendo hoje, que é o footwork chegando em outros países – Brasil, Japão, lugares na Europa. Existe esse bom senso, de respeito, união, conexão e fortalecimento para impulsionar algo maior – que é o footwork em si." – AK1N
O primeiro contato do artista com o gênero foi jogando videogame, através da FlyLo FM, rádio do GTA V com curadoria de Flying Lotus, que abarcando diversos gêneros verdadeiramente underground e nomes como Kendrick Lamar, Thundercat e Tyler, The Creator, contava com uma faixa do DJ Rashad, numa época em que o gênero ainda estava em ascensão. De maneira discreta, a sonoridade foi conquistando o seu espaço dentro do repertório de AK1N.
Três anos depois, em 2016, deu início a sua carreira como DJ, com a TRIPPY MOB – projeto de Taipas focado no trap que movimentou a cena na região. "Foi a base de tudo, onde eu entendi a importância do profissionalismo. Do nada, tavam colando 700/800 pessoas no rolê – isso fez a gente realmente estudar o que é ser DJ, melhorar performance, buscar curadoria. Ninguém ali era produtor cultural – eram pessoas querendo organizar um bagulho maior, e a gente gostava muito de trap. A gente pegou a ascensão dessa parada no mundo e trouxe para o Brasil, para Taipas", conta ele.
Paralelamente, os estudos da bass music, do funk e de rolês pretos foram expandindo os acessos e o entendimento da cena. O footwork, que sempre esteve no seu repertório desde aquele primeiro contato, começou a aparecer em seus sets, junto de gêneros como o grime, jungle, drum 'n bass e UK garage. Em 2019, o seu foco tornou para as produções e movimentações nacionais – a passagem pela PLANO TM, coletivo que foi a base de muitas figuras do underground atual, marcou esse momento, e motivou a produção do set RUMO, que sintetizou toda essa trajetória através da música.
A capa do set mistura vistas de todos os cantos da cidade feitas enquanto trabalhava como Office Boy. "Tem essa brisa de brincar com as localidades, lugares onde todo mundo passa, mas quase ninguém vê beleza. Foi esse rumo de fazer as coisas à margem, e parte dos lugares onde eu estive", explica ele, que se interessa especialmente pela multiplicidade e variedade dos sons criados nas periferias: "aqui no Brasil, a diferença dos tipos de funks é nítida – para mim, isso é muito forte, eu amo as diferenças. Eu tive essa educação de entender as diferenças dos sons nas periferias – um trabalho autodidata, de ir correndo atrás, vendo, pesquisando.
Eu sempre fui uma pessoa muito eclética, por abranger gêneros pretos – que são a maioria. Sempre gostei de abordar muitos gêneros africanos – kuduro, batida, afro house, gqom. Eu acabo sempre sempre pesquisando esses sons locais de periferias pretas através do mundo – é muito de entender o território."
O footwork, cada vez mais, se tornava o foco da sua musicalidade. Em certo momento, sentiu a necessidade de construir um movimento que abordasse o gênero de maneira mais centralizada, levantando em conta os aspectos culturais, para além da sonoridade. Surgiu, então, no meio do ano passado, o FOOTWORK NO CR1A, conectando quem já explorava o gênero por aqui e abrindo espaço para quem mais quisesse colar junto.
Enquanto ritmo, o footwork sempre fez parte do mosaico sonoro das festas de música eletrônica. AK1N acredita que isso se deu pela presença constante de alguns DJs de footwork na maioria desses circuitos – que, sempre que possível, inseriam o gênero dentro dos seus sets.
"Tem esse lugar, da pessoa que está só esperando a oportunidade – eu vi que o rolê do FOOTWORK NO CR1A era muito sobre isso, também. Eu sei que tem muitas pessoas que já faziam a parada antes de mim – o próprio CESRV, o Yung Kush, o Chediak, o tabu, da ZONAexp. Então, ter mais pessoas envolvidas nesse propósito é muito importante", explica AK1N, que também ressalta a importância da conexão com o pessoal da dança: "quando você conhece a dança, você se apaixona. Foi muito importante ver os dançarinos, tendo em norte o footwork e aprendendo sobre a cultura, querendo colar no rolê.
É um rolê para as pessoas dançarem, se arriscarem a conhecer algo novo. Não é só para quem sabe do rolê, para quem entende o que é footwork – é realmente para pessoas que não conhecem, que não são familiarizadas. Eu vejo o pessoal colando e ficando muito confortável, sentindo muita vontade de dançar. É um espaço para extravasar, soltar para fora e ser feliz."

O projeto depende de muita vontade e força coletiva para existir – fatores que passam muito pela própria figura do CR1A 011, casa que recebe e movimenta de maneira ímpar as mais diferentes formas de expressão artística e de resistência no underground paulistano. Ao longo dos últimos anos, tem consolidado o seu lugar como um espaço de liberdade e de luta, recebendo eventos e festas das mais diferentes cenas independentes – dos vários gêneros da música eletrônica, da cultura hip-hop, do jazz e tudo mais que circula nesses universos, sem deixar de lado a importância política e anti-sistêmica dos movimentos culturais.
"Teve rolê que tinha nós que estávamos organizando e mais três pessoas – então, teve também um momento do próprio CR1A apoiar muito o projeto. Para a gente entender que é um projeto que vai crescer, que vai acontecer uma coisa maior, para mais pessoas conhecerem esse bagulho e, naturalmente, colar.
A parada é gradual, natural, e eu boto muito do meu bolso, ainda. Para a gente conseguir fazer um rolê legal, tem um parceiro que põe duas CDJ3000, mixer de fora, para a gente tocar. O rolê tem uma estrutura para o DJ tocar, para o dançarino dançar – tem uma preocupação ali. Os caras tão ralando de dançar a noite toda, tem que ter uma água, um drink ali. Tem que ter uma troca", explica o DJ.
"Para mim, é como se fosse a brisa da cachoeira – você entra na água, e quando você sai, é diferente. É totalmente positivo. Uma energia que, quando entra em mim, para sair depois é muito difícil"




O footwork bebe muito das fontes do hip-hop, e se constrói como uma evolução natural desse movimento. "É totalmente carregado de hip-hop, então é muito sample, muito recorte. É muito quebrado, realmente para fazer o dançarino se perder – para o mano entregar tudo de si, e se ele não entregar direito, vai ficar uma bosta. Tem esse lance do desafio.
É uma mescla cultural, com o hip-hop, com a dança. Tem uns que são mais voltados para o rap, uns que são mais voltados para a pista, um hard techno, um som que é para você botar enquanto a criançada tá na rua – às vezes tudo no mesmo álbum", conta AK1N, que ressalta o fator experimental, de pesquisa e educacional do gênero:
"Tem produtores que produzem mais juke, outros que produzem mais footwork e ambos são da mesma quebrada. É como se fosse o jersey club – às vezes muda de estado e muda para baltimore club, philly club, mas no mesmo BPM, na mesma brisa. A mentalidade dos caras para entender de música é loucura. E também tem esse olhar cultural, educacional do rolê."
Traxman dando um workshop de footwork em Tokyo, em 2016
Depois de mais de dez anos tocando, AK1N se encontra hoje bastante integrado no ecossistema da música eletrônica e sempre presente nas novas movimentações da cena do grime, mas sempre mantendo o seu posicionamento crítico e o foco na sua construção pessoal: "Por ter muitas pessoas que já estão no movimento elitizado, isso faz com que muitas pessoas do próprio rolê underground tenham esse mesmo olhar replicado – imposto pela sociedade. Mas o rolê voltou a ter esse olhar crítico, de base, de preocupação. Hoje, eu vejo o rolê do grime muito mais inclusivo – com mais acessos, mais controle de quem a gente vai permitir que esteja no nosso rolê. Se o respeito e a inclusão estiverem envolvidos, também vamos ter equidade.
Eu vejo que muito da branquitude, no próprio rolê do grime, é minimamente consciente, mas ainda acaba replicando vários bagulhos. Eu me envolvo, faço parte do movimento, continuo estudando – só que às vezes acabo não me identificando, não criando uma rede com as pessoas. Por ser uma parada cultural, muito de rolê, eu acabo ficando bem mais na minha.
Tá sendo um ano muito mais de entender como que eu continuo no rolê, na arte – e como eu continuo sendo a pessoa além do artista, também. E eu acabo sendo a mesma pessoa. Teve a mudança de ser um mano mais maduro, com posicionamento e de estar aberto para qualquer rolê. Tem esse lado mais sério, mais fechado, mas no lado pessoal, é a mesma parada, não mudou nada.
Nos últimos anos, eu voltei a ter contato com o pessoal da minha infância, voltei a ser essa pessoa com um olhar mais pessoal, também. A minha mãe me passou uma educação muito forte – de posição, de saber o que eu mereço. Eu me moldei em prol de tudo isso, e muito do que acontece hoje já tem esse esse viés direcionado. Pouca coisa é por acaso."




O momento atual é de construção, de colher os frutos, marcado pela positividade. AK1N segue levando a sua pesquisa para onde quer que esteja tocando, sempre equilibrando todos esses pontos.
"Por estar fazendo esse rolê, positivo, do footwork, de estar tendo esse norte, já é o que vale, tá ligado? Se me chamar para tocar, eu vou meter marcha, sempre vou estar aberto para trampar. Mas é isso, eu tenho meu posicionamento - não da para desrespeitar e abusar de mulheres e querer fazer parte do rolê, não vai! Nessa tomo meu posicionamento, mas vejo muita gente passando pano para certas atitudes o tempo todo. Nessa temos que ter um mínimo de cuidado e senso sobre essas coisas no rolê.
A gente passa muito tempo nessa energia de sobrevivência, de estar sempre à margem, sempre necessitando de mais, para realmente viver uma vida estável – porque nunca é suficiente. Eu precisei dar esses dois passos para trás para poder ir para frente.
Ano passado rolou de ir para Espírito Santo na The North Soci, para Uberlândia na UnderBait, e também voltei para Rio Grande do Sul esse ano na BOILER BAILE, para tocar footwork – uma possibilidade louca, de levar essa parada para outros lugares. Tem sido a realização de um sonho. É muito sobre trabalhar no tempo possível, e as coisas girarem em volta disso. Porque é um rolê de resistência, não é uma parada que tem um acesso amplo a rolês. A gente vive num país em que milhares de coisas vem antes – na própria música eletrônica, tem milhares de gêneros que vão vir na frente. Mas tem sido um momento muito bom, pro crescimento do rolê, pro crescimento do footwork.
Tem muita gente entendendo que é um rolê para positividade, para crescer, incluir e envolver as pessoas. É muito louco, além de estar fazendo a curadoria do projeto, de também estar investindo nele, ter esse olhar para quem está participando do rolê – muito respeito e cuidado. Eu faço o que eu posso."

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