1959: o ano em que a música ultrapassou seus limites
Clássicos do jazz e da Bossa Nova traziam liberdade e extrapolavam barreiras da música no mundo todo
Em 1959, a música estava prosperando no mundo todo e diversos gênero musicais estavam na beira do seu ápice. Em meio à Revolução Cubana de Fidel Castro e ao primeiro título mundial da seleção Brasileira de basquete, a música era um dos principais meios de entretenimento, senão o mais sólido.
Em 3 de fevereiro daquele ano, porém, um acidente aéreo terrível tira a vida de Buddy Holly, Ritchie Valens e The Big Boper, em um episódio que ficou conhecido como “O dia em que a música morreu”. Esses artistas eram consagrados no rock, principalmente nos Estados Unidos, um gênero recente que não era de agrado de conservadores devido ao seu caráter subversivo.
Teorias da conspiração à parte, o “Dia em que o rock morreu” marca um trágico capítulo desse ano que seria marcado por grandes transformações na música. La Bamba de Ritchie Valens, ou os óculos Ray Ban e a Stratocaster de Buddy Holly marcaram gerações que redefiniram os rumos da música popular jovem no mundo inteiro.

No jazz, 1959 viu seu ano mais revolucionário até então. O gênero que começou décadas antes estava um pouco desgastado, sendo gradativamente substituído no mainstream por outros, tipo o rock ou o R&B, como com o lançamento bombástico de What'd I Say, de Ray Charles, que também ganharia muitos adeptos para um novo jeito de cantar uma música gospel e preta. Mas no jazz, 1959 reservaria uma expansão de jeitos de fazer a mesma coisa, com discos que extrapolariam as fronteiras do gênero até então.
Quatro grandes álbuns marcaram o ano: Miles Davis - Kind of Blue, The Dave Brubeck Quartet - Time Out, Charles Mingus - Mingus Ah Um e Ornette Coleman - The Shape of Jazz to Come. Esses quatro lançamentos marcaram a evolução do jazz e moldaram o caminho do que viria a ser o gênero nos próximos anos - Take Five, do Dave Brubeck, por exemplo, se tornaria o single de jazz mais vendido e Kind of Blue, de Miles Davis, o álbum.

Cada um desses álbuns tinha caminhos particulares dentro do mesmo gênero. Enquanto o quarteto de Dave Brubeck era dinâmico e tradicional, Charles Mingus trazia uma diversão com influências latinas, Miles Davis ia além no trompete e Ornette Coleman trazia um álbum singular, com cadências, solos e melodias não-convencionais - um álbum até esquisito, difícil de primeira ouvida, mas que influenciou muitos músicos a seguirem caminhos não-ortodoxos, um free jazz que inspiraria outros subgêneros a seguir.
O início do Free Jazz foi esse álbum aqui
Dá pra atrelar essa criatividade e caráter experimental desses álbuns a uma pressão menor de vender discos. Se o jazz estava sendo “substituído” por outros gêneros no mainstream, floresceu então um movimento de livre-interpretação e novas possibilidades. Ah, isso tudo sem falar em álbuns tipo Jazz Party, do Duke Ellington, Take Charge do Cannonball Adderley, But Not for Me da Ella Fitzgerald e Moanin' do Art Blakey.
No Brasil, vários gêneros musicais se destacaram em 1959, como o rock de Celly e Tony Campello, o nordeste em música do Jackson do Pandeiro e o samba-canção de Maysa. Mas foi na Bossa Nova que a música brasileira ganhou o mundo e o disco Chega de Saudade, de João Gilberto, redefiniria o gênero pra sempre.

Curiosamente, Chega de Saudade também marca o primeiro formato em álbum como conhecemos hoje, com canções separadas por faixas, cada uma delas sendo singular, sem outras versões da mesma música. O álbum de estréia de João Gilberto conta com composições de Tom Jobim, Carlos Lyra, Vinicius de Moraes, Ronaldo Bôscoli, Newton Mendonça, Ary Barroso, Dorival Caymmi, Marino Pinto, Zé da Zilda e Luis Peixoto. Esse “dream team” da Bossa Nova ajudaria ao álbum alcançar status de lendário, marcando a Bossa Nova e explodindo o gênero na próxima década no mundo todo.
O “jazz brasileiro” da Bossa Nova tem em Desafinado, Chega de Saudade e Bim Bom, faixas fundamentais para a expansão do ritmo. Nos anos de 1960, a Bossa Nova invadiu os Estados Unidos e possibilitou músicos como Tom Jobim, Stanz Getz e Elis Regina brilharem e explorarem ainda mais as possibilidades do som que João Gilberto colocou como nosso em Chega de Saudade.
Essa música quebra a cabeça de gringos e de brasileiros pelo seu caráter desafiador - ela era uma resposta à crítica, que chamava a Bossa Nova de "música para cantores desafinados"
1959 viu ainda a chegada do primeiro Grammy, que se tornaria a maior premiação da música mundial. Nel Blu Dipinto Di Blu (Volare), de Domenico Modugno ganhou como melhor gravação e melhor música. Se nos próximos anos a música foi além, pode ter certeza que 1959 foi fundamental para pavimentar cada passo dado no caminho.