A música independente e autossuficiente de Gabriel Guerra
Um papo sobre sons, manias e o fim do selo 40% Foda/Maneiríssimo
Gabriel Guerra, AKA Guerrinha, AKA Repetentes 2008, AKA Cavalcantissimos — para citar somente alguns de seus pseudônimos — é um dos nomes mais ativos da música independente do Rio de Janeiro há mais de uma década. Presente em bandas como Dorgas e Garageiros do Abismo, foi na música eletrônica e experimental que ele encontrou terreno fértil para criar a 40% Foda/Maneríssimo, selo musical que, assim que completou 100 lançamentos, encerrou os trabalhos.
O anúncio que pegou muita gente de surpresa foi também uma forma muito bonita de se despedir, afinal, ter 100 lançamentos, fora os projetos paralelos, não é para poucos. O selo criado por ele e Lucas de Paiva, AKA Pessoas Que Eu Conheço, foi casa de artistas e projetos fundamentais para entender a nova cena musical no Rio de Janeiro, além de fomentar a cultura independente distribuindo CD’s, vendendo discos de vinil e fitas cassete enquanto não paravam de criar.
Chamei Gabriel para trocar uma ideia sobre o encerramento do selo, seus processos criativos, e esse novo momento de vida.
Salve, Gabriel! Cara, não tem outro jeito de começar essa conversa. Como um dos órfãos da 40% Foda/Maneiríssimo, eu preciso perguntar: por que acabou? Já estava nos planos iniciais encerrar com o 100º lançamento?
Na verdade, se eu falasse que a gente planejava isso desde o início, eu não sei nem se a gente planejava os cem lançamentos. Mas com o passar do tempo foi ficando meio claro, em 13 anos acontece muita coisa, e quando a gente foi chegando perto do 50º lançamento, a gente falou: "Já passou dos 40, né? Agora acho que ou é 100 ou é nada".
Aconteceram coisas pessoais também, no sentido de eu estar me mudando para São Paulo, e o Lucas também super pegado com o trabalho... A gente até mantinha uma boa rotina de lançamentos nesses últimos tempos, mas era algo que, quanto mais eram feitos, mais o trabalho de manter o selo ficava complicado. E o selo sempre foi uma coisa para ser muito pequena. Então pensamos em sair com louvor, com os 100 lançamentos, ao invés de só deixar para trás. Mas acho que é isso, foi muito a mistura de alcançar a marca e também do trabalho que estava dando para uma coisa que em si era muito pequena e já tinha durado 13 anos. Acho que a história foi bem contada assim.



A estética visual da 40% Foda/Maneiríssimo girava literalmente ao redor do selo, um carimbo
Bom, já que comecei do fim, agora bora saltar para o começo. Qual era o objetivo quando vocês colocaram o selo no ar?
Eu e o Lucas nos conhecemos, de uma forma meio sucinta, nós dois trabalhávamos num estúdio, eu devia ter 18 ou 19 anos e ele, sendo 5 anos mais velho, devia ter 23, nessa época de 2010 ou 2011. Era um estúdio grande que gravava orquestra, mas por acaso ele era alguém com quem eu compartilhava certos gostos em comum, especialmente em música eletrônica e várias outras coisas. Ambos produziam, só que a gente queria ter uma plataforma só para a gente, para podermos lançar quando quiséssemos as coisas que queríamos experimentar. Isso ao invés de ficar procurando alguém para validar o que a gente queria fazer, entendeu?
O selo era literalmente uma desculpa, quase um carimbo mesmo, para validar essas nossas produções mais focadas em música eletrônica. Mas o tempo foi mudando a perspectiva, a gente só queria ter uma plataforma para nós mesmos. E, obviamente, fomos encontrando pessoas no meio do caminho que também tinham, se não o mesmo som, a mesma visão. Essa sempre foi a ideia do selo: mais pessoas que compartilhavam filosofias parecidas do que necessariamente som. Foi uma coisa muito feita por fazer mesmo, a gente nunca imaginou que duraria tanto tempo assim.
Foda isso de quem colaborava chegar mais por uma filosofia do que necessariamente pelo som. Considerando que o Rio é muito provinciano, quando vocês pensavam em pessoas para participarem, elas chegavam até vocês ou vocês já tinham uma relação antes?
Era muito de ir achando no meio do caminho, sabe? Antes do selo eu já tinha bandas independentes, então já rolava essa coisa de ir tocar em algum lugar, dormir na casa da pessoa que está fazendo o show e conhecer as outras pessoas. Com o selo foi a mesma coisa, a gente ia tocar em algum lugar, fazer uma live, discotecar e conhecíamos fulano. Sempre achei essa a forma saudável de ir criando essas conexões no cenário independente.
No caso do Rio, você usou a palavra perfeita, tem uma coisa muito provinciana aqui. E acho que foi muito importante fugir um pouco da bolha da Zona Sul para conhecer pessoas que não eram só de um espectro das coisas. Foi muito isso, de tocar em São Paulo ou no interior do Rio e conhecer uma pessoa que tem afinidade com você e que faz as coisas de um jeito que você gosta. Fomos catando essas relações com o tempo.


Showcase da 40% Foda/Maneiríssimo na Domply (2023) | Fotos: Vinícius Rocha
Li um texto em que você fala sobre o desejo de ter um controle sobre todos os processos da sua música. Quero saber se você ainda tem essa relação com o seu trabalho e quais são os pontos positivos e negativos de ser tão estrito a uma filosofia de trabalho?
Essa é uma ótima pergunta e basicamente dita a forma como funciona não só as minhas coisas com a música, mas a minha vida. Há uns 20 anos, quando eu era muito novo, já era fascinado por todo esse cenário independente. Me lembro de frequentar comunidades de banda independente, ir em show e festival, mesmo menor de idade, para ver uma banda de quatro pessoas. Fui introduzido a esse ambiente muito cedo e sempre foi um fascínio o quanto a gente se doa e se sacrifica para fazer essa coisa pela qual ganha tão pouco. Você vai entendendo também a sua forma de ver como as coisas na vida funcionam.
Essa coisa de ter o controle total, no sentido de "eu quero entender daqui até aqui", foi me fascinando, porque você cria essas relações entre tudo o que você faz. Por que você quer pensar ou distribuir as coisas desse jeito? Esses pensamentos parecem alheios à música, mas têm um efeito rebote que influencia a forma como você a faz. Vira uma coisa totalmente autossuficiente. Se não tivesse ninguém ouvindo, você está literalmente construindo um mundo que só você entende. É a ideia de um universo total no qual só você tem a chave, e isso sempre foi muito precioso para mim, pois acaba sendo um motor até para questões da vida. Posso estar ferrado ou não ter nada para fazer, mas ainda tenho um disco na minha cabeça que quero fazer de um determinado jeito.
Ter essa autossuficiência e esse controle incentiva o seu lado sensível e faz as coisas florescerem de forma positiva na cabeça, mas também tem os lados negativos. Um deles é que você tem sua vida inteira dedicada a isso. Ontem eu fui reouvir um disco que fiz como Cavalcantissimos, e vi que tinha um errinho de um acorde e foi muito difícil conseguir dormir. Agora tenho que fazer mais um disco (risos). A sua vida acaba sendo regrada por isso, o seu sono, a sua dieta, como isso interfere no meu trabalho de TI.
Outro ponto negativo é que as suas relações viram muito sobre você mesmo. Quando eu tinha bandas e era o cara que marcava os shows e fazia o trabalho sujo, ficava totalmente "control freak", o que era ruim por envolver outras pessoas. E nunca parece ser o suficiente, sempre tem alguma coisa para fazer, o que reflete na sua vida que não é só fazer música.
Mas é uma filosofia que peguei desde muito cedo. Quando vejo outros artistas — mesmo que eu nem goste tanto do som deles — nos quais a música dita a vida e que têm um prazer por aquilo existir independente de tudo e todos, eu fico fascinado, porque ninguém pode parar essa pessoa. Eu assumo um pouco essa filosofia.
Apesar de ser ditador em seus processos, Wagner carrega o nome do goleiro do Botafogo, e não do compositor alemão Richard Wagner
Nesse mesmo texto, você fala sobre distrações que giram ao redor da música, e que tocar ao vivo é uma distração do seu fluxo de trabalho de produzir e criar. Queria entender o quanto hoje, nessa cena de música experimental, você acha que existem espaços para se experimentar?
Eu não trabalho somente com música, então organizei as coisas da minha vida para que ela fosse um lugar confortável para eu poder experimentar. Estou numa posição mais confortável que alguém que só trabalha com isso e tem que abrir mão de algumas coisas, apesar de eu já ter estado nesse lugar antes. Eu acho que hoje a gente vive numa grande “sobrefamiliarização” de música. A gente está tão acostumado com muitas músicas, e como ninguém faz muita ideia do que está acontecendo, a gente tenta pescar informações, mas é muito difícil entender quando tem muita coisa acontecendo.
Eu acho que acaba sendo mais sobre a relação do indivíduo com aquilo do que propriamente a nossa relação como coletivo. Então, eu acho que agora é a melhor hora para experimentar o máximo possível, porque no fundo tudo isso diz da sua relação com você. Se você tentar ver as coisas por uma lente cultural, é muito difícil, a gente está numa espécie de estagflação cultural, onde muita coisa é produzida, mas não conseguimos pescar tudo.
Isso é um embate porque eu falo isso tendo meu trabalho e tendo música para ser algo para eu experimentar. Mas eu sinto quase o dever de lembrar amigos super talentosos de que eles têm que continuar. Existe uma crise de confiança com o que fazemos, porque vemos o trabalho sendo feito de forma tão banal que achamos que o nosso não vale porra nenhuma. Mas o que a gente faz vale o esforço. Vale a pena você tacar o terror, às vezes numa situação em que acha que não valeria, porque a gente não tem muito a perder. A gente tem que forçar mais essa nossa confiança no valor daquilo que a gente tanto preza.




Guerrinha abrindo o show do King Krule (2024) | Fotos: Stephan Solon
Voltando rapidinho ao contexto da label, o físico era uma coisa importante para vocês, né? Por que fazia sentido vocês colocarem isso no CD e lançarem um EP, mesmo entendendo que às vezes não faz sentido financeiramente?
Olhando para trás, a partir do CD, eu acho que tinha uma coisa estética de você ver que aquilo existe e que tem algo que o define, um CD, uma fita cassete, um vinil... Aquilo existir num formato físico é quase como se existisse um cálice de ouro daquilo. A gente vive num tempo em que não tem as coisas, a gente aluga, então é engraçado você ter um CD de um EP com três músicas. Isso era algo que me fascinava e ainda me fascina, nem que seja só o CD-R carimbado.
Entre 2016 e 2020 a gente prensou em discos de vinil, mas a gente não tomou prejuízo financeiro porque fazíamos contratos com as distribuidoras, que tinham acordos com as lojas. As lojas compravam umas 15 ou 20 cópias direto da distribuidora e se viravam. O que aconteceu com o vinil foi que demorava muito tempo entre o lançamento de um e outro. O dinheiro tinha que voltar para recomeçar, e isso levava um ano.
Como eu e o Lucas produzíamos que nem malucos, eu até me arrependo de ter parado com o CD nessa época para focar só no vinil. Hoje vejo que foi um erro, se a gente tivesse continuado com os CDs, acho que estaríamos mais satisfeitos sonoramente falando. O físico tem uma coisa diferente de vender uma camiseta, por exemplo. A camiseta não reproduz som, não foi feita para isso, mas o disco, o CD, o pen drive, aquilo ali indica o áudio da coisa. Essa era a minha pira com o físico.



Vinil de Cidade Grande (2022)
Tem uma coisa meio mágica também, né?! Vi recentemente alguém falando que era "ateu do vinil" porque não acreditava que riscos num negócio de plástico conseguissem tocar um som.
Exato! O caso do vinil é muito bizarro porque você consegue ouvir o som mesmo se não estiver plugado. Mas tanto o vinil, quanto a fita, o CD e até um HD — que a gente não vê — têm uma coisa girando que indica a forma como aquele áudio é reproduzido. Isso cria essa sensação mágica de ver o processo resultar em som, que é o ar sendo bombardeado para um falante.
É engraçado falar disso, porque eu estava empilhando meus discos para levar para São Paulo e pensando: "caramba, é muita coisa". Tem discos ali que nem sou tão fã, mas como gastei dinheiro neles, eu crio uma relação. Lembro de quando era novo e deixava de comer o lanche do almoço para comprar um CD no fim da semana, o que te faz dar um certo valor àquilo.
Sempre dei muito CD de graça nos sets que fazia e a pessoa às vezes não tinha nem como ouvir, mas o disco ficava jogado na mesa dela. Até ela jogar fora ou perder, ela tem que lidar com essa coisa física existindo, como naquele tweet do Kanye West: "Me deram uma água e agora eu tenho que lidar com isso". O lance físico ocupa espaço, e a pessoa acaba criando uma mini relação com aquilo, nem que seja breve.

Vou pegar esse gancho que você falou de estar empilhando suas coisas para se mudar para São Paulo para falar das cidades. Você poderia traçar um paralelo entre o contexto de música experimental no Rio, quando você começou a trabalhar com música, e hoje, quando você está saindo da cidade?
Eu acho que no Rio, comparado a São Paulo, você não tem tanto como criar barreiras entre as cenas porque elas são muito pequenas. O Rio tem esse lado provinciano, meio Hollywood falida, em que você acha que a cidade vai te dar uma "aura", mas não é assim que cena independente funciona. As cenas são tão pequenas que acabam se unindo. Você vê lugares tipo a Audio Rebel, que existe há mais de 23 anos e nunca parou porque era a única opção acessível.
Quando a 40% começou, a música eletrônica ainda era muito focada em clubs e atendia a uma certa classe. O selo começou quando surgiram outros coletivos, e ajudou a sair um pouco dessa bolha e permitir fazer live set numa casa que nem tinha PA. Hoje eu consigo ver o lado negativo disso também, porque ao sair dos clubs talvez tenha faltado uma conexão com quem vinha antes, foi um corte meio brusco.
A grande diferença com São Paulo é que lá tem muito mais gente e as coisas são mais segmentadas. Pessoas com afinidades às vezes não se conhecem e os rolês não se intercalam, mas as coisas são maiores. Aqui no Rio você não tem muita opção, com certeza vai trombar com alguém e as pessoas já têm noção de quem você é e do que está fazendo.
Talvez a 40% tenha durado tanto tempo porque tudo era levado assim, a gente quase não fazia festas, fizemos só umas cinco em 13 anos. Se a gente tentasse fazer a parada rolar mais a sério e focada, a gente tomaria um mega prejuízo e cansaria. Tiramos bom proveito dessa dinâmica do Rio para testar e experimentar, sem o direcionamento focado que São Paulo tem.
Acho curioso pensar num festival como o Novas Frequências existindo no Rio, uma cidade onde para muita gente talvez não fizesse sentido existir uma cena experimental.
Sim, sim. Eu acho que no Rio, mesmo que alguém queira ter esse pensamento de segmentar, não dá. Você não tem muito para onde ir. O evento do Novas Frequências é o exemplo perfeito, acontece todo final de ano e parece festa da firma, você encontra os amigos e vira quase um fórum da cena. Mas não daria para ter um evento como esse de dois em dois meses no Rio. Em São Paulo, vejo festas acontecendo de dois em dois meses que parecem festivais, porque lá você consegue segmentar mais. Aqui no Rio, se você tentar segmentar as coisas, você está se iludindo.





Os lançamentos pela GPGC carregam uma outra identidade visual
Você está vindo para cá a trabalho com TI, mas pretende continuar o seu side job musical por aqui também? Como você sente que estar em São Paulo pode impactar no seu processo e na sua produção?
Na verdade, eu não fui obrigado a ir, mas o escritório da empresa é aí e meu contrato de aluguel aqui no Rio ia acabar. Vi uns apartamentos com preços em conta e achei que as estrelas estavam se alinhando para eu ir. Com certeza tenho dentro de mim a ideia de que ir para São Paulo vai trazer novos ares, nem que sejam mais poluídos (risos).
Tenho alguns discos meio prontos, inclusive um que é a "resposta" ao Wagner, o Jefferson, que espero que saia esse ano ainda. Teve uma série de lançamentos que eu fiz que não foram pela 40%, como o próprio Wagner, que licenciei por um selo meu chamado GPGC. Só que essas coisas que eu lanço por esse selo não são tão experimentais no sentido de testar, elas são muito mais focadas na forma de compor e de arranjar.
A 40% era o lugar onde dava para testar qualquer loucura e conectar um sequenciador num teclado, e eu sinto falta de ter um lugar assim. Talvez a ida para São Paulo, com o passar do tempo e quando eu for me ajeitando, me faça abrir um outro selo, não sei. Estou aproveitando esse momento porque nunca tive uma fase em que não precisasse movimentar um selo ou uma banda lidando com outras pessoas. Não tenho nada agora que precise da minha atividade de forma tão pesada.
Mas você tem as ideias e as coisas para criar, né?
É, e aí é difícil. Você vai numa festa ou num show e a coisa te belisca, dá vontade de voltar a fazer. Não paro de ter ideias, tenho zilhões de rascunhos, mas, se for para fazer, eu quero fazer organizado. Esse tem sido o momento da minha vida, e ao mesmo tempo vou curtir aqui minhas férias.