A humanização dos ídolos

Ver pessoas muito famosas como pares deixou de ser efeito para ser estratégia

A humanização dos ídolos
Câte Blanchet no Subway Takes

Historicamente, ídolos se construíam à distância, num lugar inalcançável. E a explicação está no nome mesmo, já que o termo nasceu para as divindades e foi apropriado por atores de cinema, jogadores de futebol e todo o tipo de figura pública durante o século XX. Essas figuras que habitam um Olimpo imaginário, longe dos problemas comuns, só podiam ser acessadas com mediação, um filtro, geralmente tocado pela imprensa, revistas de fofoca, programas de TV e jornais. E tudo isso mudou com a internet, as redes sociais e todas as mudanças que você já sabe. Sem novidades, essa digitalização da vida permitiu que os ídolos inaugurassem suas humanidades.

A questão é que, apesar desse modelo mais humanizado, na prática o que se via eram perfis pessoais sendo administrados por moderadores e profissionais que construíam com muito cuidado a forma como esses ídolos seriam percebidos. Até uma atualização recente desse modelo, na qual pessoas famosas assumem o controle de suas próprias narrativas como estratégia para se tornarem autônomas e definirem com mais precisão a leitura que o público tem sobre suas vidas. O impacto disso tudo não fica só no contexto pessoal ou no ciclo de seguidores do famoso em questão mas alteram a forma como a sociedade consome cultura, enxerga desigualdades e, principalmente, como as dinâmicas de classe operam.

No passado, se um atleta, por exemplo, estivesse passando por uma crise de imagem, ou um artista fosse lançar um novo projeto, a estratégia dependia necessariamente de coletivas de imprensa, entrevistas exclusivas e um trampo pesado do time de relações públicas. Mesmo em contexto positivos, não se sabia o que aquela pessoa fazia, consumia e passava seu tempo. Recentemente, assisti à uma entrevista na rua do ator Cillian Murphy, na qual compartilhou sua história com a música punk da Irlanda e seus gostos atuais. O vídeo me fez pensar em como isso contribui para a relação entre ele e uma comunidade que talvez não o percebesse além dos papéis que interpreta. 

O poder de edição que o Instagram, TikTok e YouTube entregaram para essas pessoas, garantiu também que elas definissem o que, quando e como mostrar suas vidas. Essa vulnerabilidade passou a ser ferramenta de narrativa, ou melhor, storytelling para essa galera que depende da visibilidade para lucrar. Chorar na frente da câmera, desabafar sobre pressão, mostrar as bagunças e “falhas” ajudam a baixar a barreira que existia entre fãs e ídolos, além de convencer que sua condição não é tão diferente da de todo mundo.

É muito curioso também pensar que esse tipo de comportamento, em alguma medida vai de encontro ao que uma parcela significativa das pessoas famosas abriam mão ao escolher o caminho da fama. A perda da privacidade sempre foi uma questão, e existia a profissão, hoje extinta, que trabalhava em prol dessa comunidade que queria saber mais da vida de seus ídolos: os paparazzi. O jogo vira quando a privacidade também pode ser monetizada, além de, claro, ser um asset bom demais na gestão de carreira, para não ser utilizado. E o melhor, nada daquilo precisa ser realmente verdadeiro, já que não raro são os casos que a espontaneidade é coreografada por estrategistas, redatores e equipes de conteúdo. No final do dia, nunca fomos tão próximos dos nossos ídolos e essa intimidade nunca foi tão roteirizada.

Agora é que vem a questão que para mim parece ser a mais complexa. Todo esse trabalho de humanização não é espontâneo, e tem gerado impacto direto na percepção que as camadas mais populares têm em relação às pessoas ultra-ricas, modificando as lógicas da luta de classes. Eu sei que estou parecendo aquele amigo que, na mesa de bar, consegue colocar esse tema em qualquer assunto, mas acompanha meu raciocínio.

Historicamente, a ostentação sem limites gerava distanciamento e até indignação em um contexto em que a desigualdade de riqueza era (e ainda é) incontestável. Hoje, essa tática de humanização funciona como um amortecedor, um band-aid social, logo, quando um bilionário posta um vídeo reclamando do trânsito ou uma diva pop aparece de moletom comendo um hambúrguer de franquia, rola uma ilusão de que a sociedade é horizontal.

As vezes parece que falta revolta

A classe trabalhadora, aquela que acorda cedo, pega busão e metrô lotados e lida com os efeitos diretos da inflação, olha para essas figuras e sente empatia. A frase “gente como a gente” começou como brincadeira mas hoje é usada de verdade para neutralizar possíveis críticas a essa estrutura. A humanização contribui também para que essa simpatia se torne objeto de referência e desejo, como se a partir da aproximação da realidade, fosse possível alcançar o mesmo status que essas pessoas. E assim, do nada, a gente cria uma bolha onde fãs defendem seus ídolos de críticas, sem lembrar do abismo material que os separam.

Posso ter pesado o clima, eu sei, mas eu não consigo desvincular isso de vários elementos que hoje estão muito presentes na nossa cultura e são potencialmente destrutivos. Estou falando do consumo em massa, do movimento red pill, do apoio à meritocracia, da defesa das bets, das discussões sobre taxar grandes fortunas e extinguir a escala 6x1. Recentemente a discussão sobre a influência no funk na cultura da misoginia dividiu o público que consome o produto final, a música, mas a humanização dos artistas que cantam as letras em cima de palcos em troca de cachês bem elevados parece suavizar a crítica de quem tem dificuldade em se opor.

É assustadora a quantidade de jovens fãs do Elon Musk

A prática de trazer esse universo distante para o cotidiano pelas telas tem ganhado destaque em vários conteúdos e virou formato. O Subway Takes me parece um exemplo perfeito. Para quem ainda não conhece, o programa criado por Kareem Rahma, começou de forma orgânica, no qual ele abordava moradores de Nova York no metrô da cidade para que eles dessem suas opiniões mais polêmicas sobre qualquer assunto, coisas banais mesmo. Apesar do metrô da cidade ser o mais famoso do mundo, ele não deixa de ser um símbolo da classe trabalhadora urbana, e usá-lo como cenário para essas trocas foi uma ideia muito foda. O esquisito foi ver como a dinâmica mudou após o programa viralizar nas redes. Hoje, quase todos os episódios são com atores de Hollywood, cantores, influencers e comediantes, que descem ao subsolo e se juntam ao povão para dar o seu “hot take”.

Considero esse trabalho de humanização de pessoas famosas um dos fenômenos da comunicação mais fascinantes e bizarros dos últimos anos. A internet permitiu que o discurso fosse mais democrático, dando voz a todo mundo, ao mesmo tempo que refinou as armadilhas. A imagem tem um peso enorme, e apesar da discussão parecer velha, em tempos de IA, ela ganha novos contextos.

Como público, acho fundamental construir senso crítico para separar o que aparece nas telas do que realmente acontece na vida real. O fato de um ídolo chorar nos stories ou pegar o metrô como nós pegamos, não derruba as barreiras materiais que nos dividem. Reconhecer que essa vulnerabilidade é construída como estratégia de conteúdo, pode ser o primeiro passo para que, mesmo que a gente continue consumindo, isso seja como espectadores e não como pseudo-amigos íntimos de uma galera que nem sabe nosso nome.


ISMO
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