A gramática visual do subúrbio carioca

Enquanto o Centro volta à vitrine, uma volta a Jacarepaguá reencontra a linguagem do subúrbio que moldou meu olhar

A gramática visual do subúrbio carioca

Esta semana começou o RIOFW, depois de um hiato de dez anos, trazendo luz à moda carioca e a um espaço geográfico específico: o Píer Mauá. Situado no Porto Maravilha e em meio à revitalização do centro da cidade, ele ajuda a construir o imaginário de Rio de Janeiro que se vende por aí, com maravilhas naturais e maravilhas do mundo moderno. O Rio de Janeiro continua lindo.

Esta semana também, eu estive no Rio de Janeiro. Mas em outra cidade. O Rio de Janeiro que mora nas minhas memórias de infância. Nasci em Jacarepaguá e morei lá até os meus cinco anos de idade. Até os 24, ainda circulava entre a Praça Seca e a Vila Valqueire, quando a minha avó ainda morava ali. Esta semana, depois de seis anos sem passar por lá, estive brevemente de volta ao subúrbio que moldou o meu imaginário de Rio de Janeiro e, da janela do carro, olhei tudo com uma atenção diferente. O dia a dia automatiza o nosso olhar e, só assim, vinda de fora, depois de um tempão, para recuperar a curiosidade sobre algo que sempre foi tão familiar.

Um Rio que não batia com o meu

Desde que me entendo por gente, me perguntam porque troquei o Rio por São Paulo e que cidade eu prefiro. Desde que me entendo por gente, também, lamentam eu ter me mudado para cá, sem praia. Tão lindo, o Rio de Janeiro. A imagem de lazer infinito que se vende da Cidade Maravilhosa ignora muitos aspectos da vivência suburbana.

Para começar, a logística que era ir à praia da Barra ou do Recreio, saindo de Jacarepaguá, nos anos 1990 e 2000, antes do BRT, da Transolímpica e até da Linha Amarela. Saíamos muito cedo e passávamos às vezes duas horas no trânsito. Daqui da minha casa, em São Paulo, demoro metade desse tempo para chegar à praia pela Imigrantes.

Jacarepaguá Tênis Clube, piscina de plástico e banho de mangueira fizeram muito mais parte dos meus dias do que a praia. Olhando para trás, acho que crescer ali era entender, sem formular desse jeito, que o bairro era suficiente. A gente resolvia tudo dentro de Jacarepaguá e é por isso que a minha imagem de Rio de Janeiro, por muitos anos, foi organizada somente pelo subúrbio. Só mais tarde, e aos poucos, fui perceber que esse Rio raramente entra na imagem oficial da cidade.

Ir à praia era um evento e, por ser um evento, tenho bem mais fotos de infância na praia do que na minha piscina de plástico

Este artigo não é uma página de diário

Prometo que não é um texto sobre mim, mas sobre símbolos culturais e construção de identidade. É que a minha identidade também foi construída nesse espaço e quero que você acompanhe comigo essa construção.

Da janela do carro, a gramática visual suburbana

Com um quentinho no coração e uma sensação engraçada de pertencimento (mesmo já sem muito sotaque e com essa cara e essas manias de paulista), fui listando tudo que era único àquele espaço. Bares e restaurantes redondos nas esquinas, paredes de pedra, chãos de caquinho, imagens de santo nas fachadas, grades com grafismos, portões baixos, muitos fios nos postes, baixos demais, carros parados nas calçadas, prédios baixos, sem elevador. Uma paisagem tão familiar que, durante muito tempo, enxerguei apenas como o fundo normal da vida.

Dentro do meu imaginário, não consigo representar melhor os bares e restaurantes do subúrbio. Este é o 810, no Valqueire, redondo e de esquina.

Chamar esse conjunto de elementos de "gramática visual" não é incidental. Assim como uma língua se organiza por repetições, sotaques e regras que a gente aprende antes mesmo de conseguir explicar, a cidade também ensina o olho a reconhecer padrões. Certas formas, materiais e soluções urbanas vão se repetindo até virarem linguagem. O que eu percebi naquele trajeto é que o subúrbio também fala desse jeito. Ele fala pela escala dos prédios, pela relação entre a casa e a rua, pelo desenho das fachadas, pelo modo como a fé e o sincretismo religioso aparecem no espaço e pelo repertório material que foi se consolidando ali ao longo do tempo.

Os registros da minha infância, nos anos 1990, confirmam essa gramática visual

Parte dessa gramática começa na própria urbanização da região. Praça Seca e Vila Valqueire cresceram dentro de uma lógica muito diferente da cidade vendida pelo cartão-postal. Jacarepaguá foi se transformando ao longo do século XX entre loteamentos, expansão residencial e eixos de passagem, mas sem perder completamente uma escala de bairro.

Os prédios baixos sem elevador contam uma história urbana bem concreta. Eles respondem a uma verticalização acessível, muito ligada às décadas de 1970 e 1980, e a pequenas incorporadoras e a uma classe média suburbana que buscava o status do edifício sem o custo de manutenção de construções altas (a legislação permitia até o 5º andar sem obrigatoriedade de elevador). Já os portões baixos e as grades desenhadas ajudam a entender outra coisa: a casa suburbana protege, mas não se fecha. Ela mantém a troca visual com o vizinho que passa.

Grades de grafismo geométrico, herdeiras de um art deco simplificado que circulou pelas serralherias de bairro

Os muros de pedra e os chãos de caquinho também são muito importantes. Revestimentos como Pedra Madeira e Pedra Miracema foram ganhando espaço em muros e fachadas pela durabilidade, pela aparência de solidez e por um certo ideal de casa bem acabada. Já o caquinho nasceu do reaproveitamento de cerâmica quebrada, mas foi muito além disso. Entrou em varandas, quintais e calçadas como uma solução prática que também desenhava o espaço com cor e textura. Aos poucos, virou uma das marcas mais reconhecíveis dessa paisagem suburbana.

Hoje, o piso de caquinho carrega algum status na arquitetura, traz algo de afetivo e até de pitoresco. Seria um pezinho na alegoria da pobreza?

A religião merece um capítulo separado

Basta olhar para as fachadas. As imagens de santos nas casas sempre fizeram parte da minha memória visual do subúrbio. Estavam ali do lado de fora, na maioria das vezes num azulejo, mas às vezes num nicho, às vezes pintadas direto na parede, olhando para a rua junto com o resto. Não era uma fé escondida dentro de casa. Fazia parte da paisagem como a pedra, a grade e o caquinho.

Demorei para perceber que isso dizia bastante sobre o lugar onde cresci. No subúrbio carioca, a convivência entre o catolicismo popular e as religiões de matriz africana sempre me pareceu menos excepcional do que em São Paulo. Não porque não houvesse preconceito, ele existia e existe, mas porque ali o sincretismo estava mais espalhado pela vida comum.

São Jorge talvez seja o exemplo mais evidente disso. Ele está por todo o Rio, claro, mas no subúrbio a presença dele me parece ganhar outro peso. Não só pela força do santo guerreiro, mas por tudo o que essa imagem carrega nessa aproximação com Ogum: proteção, abertura de caminhos, resistência, defesa. Quando São Jorge aparece do lado de fora da casa, ele não está ali só para enfeitar. Ele guarda. Marca a passagem entre a casa e a rua.

São Jorge é tão importante no Rio de Janeiro que seu dia, 23 de abril, é feriado estadual

Essa religião espalhada pela paisagem também organizava o bairro de outros jeitos. Um deles era pelo doce. Levei muitos anos para entender o que estava acontecendo quando os nossos saquinhos de São Cosme e Damião eram recusados em São Paulo. Durante anos dos meus pais cumprindo promessa, achei que fosse simples estranhamento, como se as pessoas só não conhecessem aquela prática. Só muito recentemente, fui entender o quanto havia de preconceito religioso nessa recusa. No subúrbio em que cresci, mesmo quem não frequentava terreiro aceitava o saquinho. O vizinho podia não compartilhar daquela fé, mas entendia a boa intenção, a obrigação e a proteção contida naquele gesto. E também tinha festa de católico para os santos gêmeos, viu? O sincretismo é poderoso!

Nem todo Rio cabe no cartão-postal

Ainda esta semana, vou circular pelo RIOFW e pelo Píer Mauá, vivendo de perto esse outro Rio de Janeiro: o da vitrine, da revitalização, da cidade que sempre soube se apresentar muito bem ao mundo. E acho bonito que ele exista também. Talvez o ponto deste texto seja só recusar a facilidade de deixar que esse Rio fale sozinho. Não para opor um ao outro, nem para disputar qual deles seria o mais verdadeiro, mas para lembrar que uma cidade também se constrói nos trechos que não viram sinônimo dela. O Rio que me formou estava em Jacarepaguá. E, olhando de novo para ele pela janela do carro, entendi que o que eu reconhecia ali não era só memória. Era linguagem.

O Rio de Janeiro continua lindo, claro. Só nunca coube inteiro no mesmo enquadramento.


ISMO
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