Pass the Peas: Design e música brasileira que cruzaram o Pacífico

A editora indonésia que se interessou pela nossa música, nosso design, e transformou a paixão em pesquisa

Pass the Peas: Design e música brasileira que cruzaram o Pacífico

Sou suspeito para falar, mas a música brasileira é muito foda. E claro que a paixão pelo som que produzimos não tem limites geográficos, mas sempre me surpreendo positivamente quando descubro ecos que nossos ritmos alcançam por aí. O exemplo mais recente veio de mais de quinze mil quilômetros daqui, mais precisamente da Indonésia, quando descobri o trabalho da Pass the Peas, uma editora independente que mergulhou de cabeça na missão de catalogar a identidade visual de gravadoras brasileiras. O resultado desse trabalho foi compilado em Brazilian Records Logo Archive Vol. 1 e 2, dois livros que cobrem os selos fonográficos de A a Z.

A origem do projeto, apesar de toda a cara de demanda acadêmica, nasceu de uma admiração pessoal. Conversando com a equipe responsável, eles revelaram que tudo partiu de um amor profundo pela música e pela cultura do Brasil. "Notei que as capas dos álbuns brasileiros são super interessantes e bonitas", conta Tama Krishna, que percebeu cedo o potencial gráfico que estava no centro dos vinis. "Vi alguns logotipos de gravadoras muito legais, e foi aí que surgiu a ideia de criar um livro de arquivo de logotipos".

Claro que mergulhar na história fonográfica de um país estrangeiro, ainda mais um tão distante, exige um belo esforço. A pesquisa consumiu cerca de um ano de trabalho exclusivo e dedicado, e o primeiro obstáculo foi uma barreira logística considerável, já que existe a dificuldade grande de encontrar discos brasileiros físicos nas ilhas do país. O que costuma chegar por lá é, na maioria das vezes, os álbuns de maior sucesso comercial e com distribuição internacional feita pelas gravadoras com intenção de internacionalização do seu catálogo. Ainda bem que estamos no tempo da internet, que foi a solução encontrada para contornar o problema.

Provando que sempre dá pra fazer dos limões uma limonada, a garimpagem virtual trouxe outros contornos ao projeto, já que o grupo percebeu que a mecânica de prensar discos no Brasil não era idêntica ao das corporações tradicionais. A equipe relata com muito fascínio a descoberta de selos que eram “apoiados por órgãos governamentais, conselhos de artes, museus, companhias aéreas, instituições religiosas e coisas do tipo”. O vinil, naquela época, era a mídia definitiva de registro e também de propaganda, e operava como um braço institucional de diferentes setores da sociedade. Sabe quando você vai em uma feira de antiguidades e encontra discos aleatórios dos mais diversos temas? Então, é disso que estamos falando.

Para a galera da Pass the Peas, o suprassumo dessa era de ouro está realmente no fato do design gráfico e da musicalidade “estarem completamente interligados e se complementarem”. A estética funcionava como identidade visual do artista e servia também como um “registro instantâneo do clima social” da época. Acho muito interessante observar que a genialidade desses logotipos está na forma original em que eram concebidos, por vezes até desenhados à mão, sem correções artificiais e muito distantes da vetorização fria que tanto vemos no design contemporâneo. Eram traços crus mas que dialogavam também com a urgência da nossa música.

Os editores perceberam essa complexidade narrativa espalhada pelas capas e pelos selos. Durante o período de pesquisa e catalogação, notaram como as artes visuais da época transitavam entre polos opostos, por exemplo. De um lado, tinha uma coisa meio nacionalista e patriótica, com “vibrações tropicais, explorando a bela natureza da praia de Copacabana” e uma série de temas ligados ao futebol, à selação brasileira e aos clubes. Do outro lado, estava a galera das trincheiras, que se utilizava do design como uma “sátira, como forma de protesto contra o governo da época”. É exatamente essa dualidade que embalou o samba-jazz com muita elegância, ao mesmo tempo que reconstruiu a antropofagia da tropicália. Para eles a nossa música é cativante justamente pela história rica, em que cada época tem sua própria forma.

Acho muito curioso pensar que Brasil e Indonésia parecem mundos muito distantes, e realmente são fisicamente, mas a equipe conseguiu traçar paralelos bem interessantes e que justificam essa conexão com a nossa arte. “Se você olhar para os nossos padrões socioeconômicos, nossos países na verdade compartilham muitas semelhanças”. Além de dividirmos um clima bem parecido, e traços culturais tropicais, eles comentam que as duas nações atravessaram “tempos políticos sombrios nas décadas de 1960 e 1970”.

É claro que esses reflexos ganharam forma na música também. A Bossa Nova brasileira atravessou o Pacífico e “influenciou fortemente a música indonésia, especialmente por volta das décadas de 1970 e 1980”, inspirando uma série de músicos locais a absorverem nosso balanço. E claro, a paixão das arquibancadas também está nesse caldeirão cultura de trocas entre povos irmãos. Nós somos berço de craques, e temos jogadores brasileiros espalhados por todos os cantos do mundo, inclusive na Indonésia, o que também ajudou a disseminar nossa música.

Um projeto desse tamanho, claro que exige uma trilha sonora de respeito para acompanhar. Durante o ano de produção do livro, as caixas de som da Pass the Peas tremeram com os grooves de gênios como Tim Maia, Jorge Ben Jor, Quarteto em Cy e Arthur Verocai. A de se admitir que a seleção feita foi impecável, cheia de mestres que ajudaram a definir a estética sonora do nosso país.

Apesar de ficar muito feliz em ver esses ecos que nossa música produziu em outros países, ao ponto de fazê-los produzir um trabalho como esse da Pass the Peas, inevitavelmente penso que por vezes nos falta ter esse olhar arquivístico para o que é nosso. O que eles fizeram nasce do amor pela música e pelo design e se materializou em dois livros que funcionam como manifestos da nossa arte como identidade, história e resistência. Em tempos de streaming, em que a música perde sua embalagem física, é interessante observar para o que já foi feito com olhos e ouvidos atentos.

Além do livro, a editoria tem uma série de itens que relacionam música e artes visuais, não só brasileiros. Vale muito a pena navegar pelo site deles e, fazendo sentido, garantir um mimo pessoal. Eles enviam para o mundo todo!


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