A Filmicca vive o cinema e sobrevive da teimosia

Gracielly Pinto, fundadora do streaming brasileiro dedicado a cinema independente, fala sobre a infância grudada na TV, o machismo que marca e a "magia cansada" de trabalhar com o que ama

A Filmicca vive o cinema e sobrevive da teimosia

Gracielly Pinto tinha uns quatro, cinco anos quando a mãe ligou uma câmera VHS, conectou direto na TV e apontou pra ela pela primeira vez. Na época não tinham redes sociais, não tinha câmera frontal, muito menos smartphone. O que existia era uma menina no sul do Brasil vendo a própria imagem aparecer na televisão de casa e achando que era magia. “Para mim foi tipo: 'Meu Deus, eu não acredito, eu tô na televisão.'"

Algumas décadas depois, essa mesma pessoa comanda ao lado do parceiro Pedro a Filmicca, streaming brasileiro que virou uma espécie de porto seguro para quem cansou de rolar o catálogo das gigantes até achar algo legal. Cinema independente, autoral, com mais da metade do catálogo assinado por diretoras mulheres, presença forte de cinema LGBTQIAPN+, produções negras e periféricas, incluindo um recorte de cinema palestino que outra plataforma resolveu tirar do ar e a Filmicca conseguiu resgatar. Tudo isso tocado por duas pessoas na gestão e curadoria, três nas legendas, uma designer e uma Assessoria.

Só que pra chegar até aqui teve infância sozinha na frente da TV, mudança de cidade, distribuidora fundada na cara e na coragem, machismo pra cacete e uma pandemia que, por mais paradoxal que pareça, foi o empurrão que faltava. Conversei com a Gracielly para entender como a paixão por cinema virou negócio, os bastidores da Filmicca, e os bônus e ônus de tudo isso.

Gracielly, durante a ExpoCine 2019

A babá era a televisão

Ela nasceu no início dos anos 90, filha única, numa família que ela mesma descreve como simples, ou seja, nada de tio citando Godard na mesa de jantar ou pai levando pra casa catálogo de exposição. O contato com o cinema veio da TV aberta mesmo, da grade de canais que se repetia ao ponto de gravar toda a programação.

“A questão é que eu sou filha única, então eu digo que a minha babá era a televisão, eu ficava conectada na televisão toda hora, sabe?”

Ela assistia de tudo, desenho, filme, o que passasse. E foi só depois, crescendo, que ela começou a se perguntar quem fazia aquilo. E aí caiu a ficha de que os primeiros nomes que ela conhecia como diretores eram todos de homens. As mulheres só apareceram depois, como descoberta e pesquisa. Escrevo isso aqui porque parece detalhe, mas hoje, décadas depois, ela resolveu inverter essa lógica na curadoria da própria empresa. A gente chega lá.

Aos 19, Gracie trocou Porto Alegre por São Paulo, atrás de uma bolsa de estudos em uma escola de cinema. Por mais que não tenha nascido em uma família mega conservadora, a capital gaúcha não traz o mesmo caos que SP, e por mais bagunçado que fosse, ela se sentiu acolhida em terras paulistanas. Nesse contexto conheceu o Pedro, que virou companheiro e, principalmente para essa história aqui, sócio de guerra no mercado de distribuição audiovisual brasileiro.

Os dois perceberam um problema simples de definir, mas bem complicadíssimo de resolver: tem um monte de filme bom, premiado em festival lá fora, que simplesmente não chegava ao circuito comercial brasileiro. Ou chegava só pra São Paulo e Rio, em sessão única de mostra. Gracielly vivia isso na pele quando morava em Porto Alegre e via gente de São Paulo comentando sobre filmes que nunca iam passar perto dela.

A solução dos dois foi abrir uma distribuidora do zero, sem contatos, sem herança ou conhecimento prévio nenhum além da vontade.

"A gente não sabia onde tava se metendo, mas pensamos: 'A gente também quer colaborar com isso' [...] a gente queria complementar isso, ajudar o Brasil a realmente ter outras obras e que a gente pudesse apresentar essas obras ao público."

O negócio então foi levantado com a economia pessoal dos dois, e uma disposição de negociar em dólar e euro com agentes de vendas internacionais que não têm a menor noção do quanto o nosso real vale. Imagina, combina um valor hoje, amanhã o dólar sobe e o acordo já não fecha mais na planilha. A ideia de ser o responsável por trazer filmes legais para o Brasil é muito foda, mas na prática é osso.

O machismo não planilhado

Se o dinheiro era um problema prático, mas com solução também prática, o machismo do mercado era outra coisa, e que batia tão forte quanto a preocupação em fechar as contas. Gracielly conta que precisou provar competência de um jeito que homens, ao lado dela nas mesmas reuniões, nunca se preocuparam em provar.

"E eu como mulher, já enfrentei isso em reuniões muitos anos atrás, mas isso fica como uma tatuagem em você, isso marca. uma coisa de questionário que você fica, cara, eu tô me sentindo quando era adolescente e tinha um grupinho falando de uma banda X e alguém queria falar assim: 'Não, se você não é poser, prova que você não é poser, me diga qual é a cueca que fulano usou no show de 1996.'"

A cena se repetiu em Cannes, onde os dois conseguiram ir em algumas edições. Mesma dinâmica: ela falava, o interlocutor olhava pro companheiro ao lado. Ela insistia, o cara voltava a olhar para os homens. Aconteceu lá fora, aconteceu aqui também, com programadores de sessão brasileiros.

O resultado disso foi um desconforto que levou anos para resolver, até o ponto dela conseguir se chamar de curadora sem hesitar antes, mesmo que na prática seja cabeça por trás da seleção de filmes desde o começo.

Chantal Akerman em Eu, Tu, Ele, Ela (1974), clássico do cinema feminista e parte do catálogo da Filmicca

Um streaming nasce na pandemia

A ideia de um streaming próprio já passava pela cabeça da Gracielly desde 2017, mas sem dinheiro sobrando, já que tudo ia para distribuição em cinema. Aí veio 2020, cinemas fechados, fonte de renda zerada, e a ideia precisou ser resgatada da gaveta para virar a única saída. Assim nasceu a Filmicca, pequena no começo, crescendo aos poucos com uma curadoria que nunca tentou competir em volume com plataforma nenhuma, até porque seria impossível. A régua então foi a de apostar na diversidade não como complemento mas como pré-requisito.

“A gente tem muito esse olhar de que pra gente não tem curadoria de filme sem diversidade. Uma coisa não anda sem a outra, sabe?”

Isso incluiu recuperar títulos palestinos que foram apagados de outra plataforma, ir atrás de cinema negro, cinema de diretoras, cinema LGBTQIAPN+, as vezes esbarrando em limitações como direito autoral parado, filme com direito de streaming numa empresa e direito de cinema em outra, ou simplesmente falta de grana pra brigar com concorrentes maiores pela mesma obra.

E de novo, todo esse trampo é feito com um time que chamar de enxuto é elogio. Ela e o Pedro tocam a curadoria, três pessoas ficam responsáveis pelas legendas, uma designer toda toda a identidade visual, peças de comunicação, cartazes… e uma assessoria de imprensa contratada ajuda com a parte de RP. É só isso.

Com esse time reduzido, o processo de construir o catálogo virou bem manual, por necessidade. Ela me conta que a lógica é casar um filme de apelo maior com um título nichado, para que um puxe a atenção pro outro.

"Tudo que a gente faz é super artesanal, eu diria. Eu digo isso para todo mundo, que é um trabalho de formiguinha [...] a gente meio que costura numa programação esses dois, porque no fundo o filme grande vai chamar atenção quando ele entrar no catálogo, a gente sabe que um vai chamar atenção do outro."

Como exemplo de como funciona esse método, ela comenta que atualmente, o título mais visto da plataforma, é um curta de três minutos do Chris Marker, sobre um gato ouvindo música. Literalmente, uma câmera registra um gato escutando música, e os comentários são muito positivos. E a ferramenta de crescimento, segundo ela, é isso, boca a boca mesmo.

A plataforma tem um posicionamento político claro, e isso é foda

Isso não significa que as costas estão leves, pelo contrário. Ela é a que cuida da parte financeira, mesmo odiando números, e não esconde a ansiedade que ficar acompanhando isso gera, já que um assinante pode cancelar de um mês pro outro sem aviso, porque streaming, diferente de comida, não é prioridade, então é comum ser o primeiro corte quando o orçamento aperta.

A mídia física também tem seu espaço

Se o streaming já é mó treta para empresa pequena no Brasil, produzir mídia física é quase um sonho. A fábrica nacional que produzia Blu-ray, por exemplo, fechou, então todo movimento brasileiro que queira prensar filmes, precisa lidar com logística absurda. Mesmo assim, a Filmicca tem começado a investir nisso, a passos curtos, claro, mas o primeiro lançamento foi um box dedicado à cineasta belga Chantal Akerman.

"Foi num movimento de preservação mesmo dessas obras, de ter essas obras em mídia física aqui no Brasil, numa boa qualidade também e restauradas. Gosto de pensar nessa coisa da pessoa levar um pedacinho da Filmicca para casa. Se você gostou desse filme, agora você pode ter esse filme para sempre."

Ela lembra da época de locadora, ambiente em que chegou a trabalhar por alguns meses, antes de se mudar para São Paulo, e de como aquilo sumiu do mapa muito rápido. Tão rápido a ponto de hoje ter gente que nunca viu um Blu-ray perguntando pra ela o que raios é aquele disco e onde ela pode reproduzir.

Ela me conta uma lembrança de infância, de quando ganhava uma fita VHS da Disney e antes do filme aparecia uma mensagem "essa fita é sua para sempre". Hoje em dia estamos nos acostumando muito com a ideia de ter tudo acessível via streaming ou serviços por assinatura. Música, filmes, séries e jogos estão deixando de existir em mídia física, e com elas também se perde o direito de propriedade sobre aquilo. A preservação sai da mão de quem adquire e se hoje seu filme favorito está disponível, pode ser que amanhã não esteja mais.

A montagem dos boxes é toda na mão

Sobre a discussão eterna de assistir filme "como deveria ser", ou seja em uma tela grande, com som Dolby Digital, e formato original, Gracielly entende que isso é um privilégio de quem mora perto de salas boas, e que essa não é a regra geral.

"Eu sou a favor do cinema, cinema é resistência, mas também sou da visão de que nem todo mundo vai ter o privilégio de poder assistir numa sala de cinema a um filme. Isso é um privilégio pra gente que mora aqui em São Paulo, entende? O importante é a pessoa conseguir de alguma forma assistir ao seu filme."

Ela chega a comentar que considera um pouco elitista a ideia de pessoas definirem que um filme "só vale se for do jeito que o diretor imaginou". Me lembro dos memes recentes de uma galera assistindo A Odisséia (2026) do Christopher Nolan, que foi filmado IMAX de 70mm, em telas minúsculas como do celular ou até do smartwatch. No caso desse formato, só existem 41 cinemas no mundo inteiro capazes de projetar 70mm, e nenhum deles está no Brasil.

Para tentar quebrar essa barreira geográfica, a Filmicca fecha parceria com SESCs em várias cidades para exibir filmes que não entram em circuito comercial. E sobre pirataria, ela não é indiferente ao problema, já que é diretamente atingida, mas reconhece o papel histórico que ela cumpriu no Brasil, e fica feliz quando vê gente que consome pirataria mas também assina a plataforma, por gostar de ter uma versão bem cuidada e por ser brasileira.

Quando se trabalha com o que se ama…

Pra fechar, perguntei se ainda sobra tempo e prazer em assistir filmes, sem ser trabalho.

"Eu acho que tem a magia ainda, mas é uma magia mais cansada, porque honestamente muitas vezes o que eu quero fazer é tomar banho e descansar. Às vezes eu não consigo falar: 'Ai, que prazeroso, porque às vezes eu tô muito cansada. Tem uma magia, mas é uma magia mais cansadinha. Uma magia tipo: podemos fazer amanhã, agora eu tô com sono."

No fim, não tem heroísmo forçado, nem aquele discurso de "eu vivo do que eu amo" que tanta gente da indústria criativa gosta de falar. Tem uma pessoa real, cansada de telas, que segura quase sozinha a estrtura de uma plataforma inteira, e que mesmo exausta, ainda tromba com um curta de gato ouvindo música e sente que vale a pena colocar aquilo no catálogo. É basicamente isso que sustenta a Filmicca até hoje: menos romantismo de tapete vermelho, mais teimosia de segunda a segunda.


ISMO
Cultura em movimento

Assine nossa newsletter e receba
as últimas notícias em 1ª mão!

Assine agora