Se o house é uma família, Ricardo Guedes é um dos pais
O DJ brasileiro que introduziu ritmos eletrônicos e um dos pilares da música eletrônica em rádios, cursos e clubes pelo Brasil
Nos final dos anos 80, a música eletrônica estava ficando cada vez mais forte no Brasil e estava explodindo nas baladas. Em São Paulo, a cena se proliferou rapidamente, tendo casas especializadas em diversos cantos da cidade. Se os DJs Meme e Iraí Campos foram os cabeças de mixar rock com eletrônico, criando hits das baladas, essa habilidade se tornou realmente um diferencial na mão de um talentoso DJ de São Paulo: o Ricardo Guedes.
Essa coisa do DJ ser o protagonista só aconteceu depois de 1978, quando o DJ passou a virar de frente para o público - antes disso, os caras ficavam de costas, e geralmente eram senhores mais velhos, que tinham muito tempo mexendo nas mesas de mixer. Ricardo então pegou essa virada, literalmente, dos DJs e acabou sendo impactado por garotos mais novos comandando a pista.
Ricardo cresceu no Papagaio Disco Club, na Avenida Faria Lima, onde lá até tinha ganhado um concurso de dança. Do amor pela música eletrônica, ouvindo e dançando, veio a vontade de estar nas pickups e, com ajuda do amigo e também DJ Tuta Aquino, aprendeu a mixar - e virou um mestre na arte de cortar e misturar faixas. Eles tinham só 16 pra 17 anos.

Ricardo foi criando seu repertório dentro da música eletrônica nas baladas de São Paulo. Viciado em comprar discos, seus primeiros sets grandes foram na Toco e na Contra-Mão. Em entrevista para Claudia Assef, ele comenta que a música eletrônica foi mais forte primeiro na periferia: “nos Jardins só chegou depois”. Nessas baladas, como a Toco, Ricardo tocava pra 2, 3 mil pessoas, misturando eletrônico, black music, house, jungle e afins.
Muitos dizem que o Ricardo Guedes era um mago das viradas, influenciando todo mundo que ia assistir ele por lá. Em um papo com o DJ Patife, o que o Ricardo fazia era base pra todos os DJs: "O Ricardo Guedes foi o nosso pai, foi com ele que ouvi Drum’n’Bass pela primeira vez, quando ele tocou The Wickedest Sound do Rebel MC com o Tenor Fy”, relembra Patife. Ricardo tinha faro para novas sonoridades que estavam vindo de Londres e foi um dos primeiros a tocar tanto o Drum’n’Bass, como o Patife comenta, quanto o Jungle.

Além do pioneirismo nas pistas, Ricardo foi também um precursor da mixagem nas rádios. Na entrevista citada acima, ele comenta que passou por várias emissoras fazendo mixagem, montagem e até chegou a ser coordenador da Pool FM: “eu ficava puto porque o DJ não levava créditos pelas mixagens”. Ricardo esteve à frente de programas como Esquentando Pratos e Volume 97, da rádio Energia 97 e o mais importante, o House Definition, que possibilitou o lançamento de 6 coletâneas com artistas do gênero.

Em suas maiores mixagens, tem remixes da Madonna, Guilherme Arantes, Simply Red, Barão Vermelho, entre outros. Ele também foi um dos primeiros DJs a abrir cursos para ensinar a arte de mixar e foi um dos primeiros a ter vídeos no Youtube com essa ciência.
“Eu sou um tijolo que foi usado em várias paredes nas horas que precisava sustentar” - Ricardo Guedes
Ricardo era uma escola de DJ ambulante. Sua influência era total, mesmo sem ter recebido os devidos créditos na época. Ele era icônico, misturando polêmicas, ressentimentos, um humor único e muito, mas muito talento nas pickups. Recebeu prêmios de melhor DJ pela DJ Sound em três ocasiões, e em outra como DJ relevação. Ricardo faleceu em 2010, vítima de um AVC, mas seu legado na música eletrônica brasileira merece ser cultuado e celebrado para sempre.


(fotos: arquivo Danceteria)