O chão de fábrica pelas lentes de Carlos Reichenbach

O cineasta foi responsável por olhar o mundo do trabalho para além dos galpões

O chão de fábrica pelas lentes de Carlos Reichenbach

Precisamos reconhecer que, dentro do panorama do cinema mundial, o trabalhador braçal, o operário e o morador de periferia, nem sempre são retratados com dignidade. Chega a ser comum usar uma lente paternalista para construir personagens desse escopo, que surgem como números estatísticos ou só uma massa coletiva sem desejos individuais ou complexidade moral. Carlos Reichenbach, o eterno “Carlão”, escolheu um caminho diferente ao construir sua filmografia. O cineasta gaúcho, radicado em São Paulo, jogou luz sobre a humanidade do trabalhador brasileiro.

Com uma carreira que se confunde com a própria história do cinema paulista, Reichenbach foi um dos grandes nomes da Boca do Lixo e do Cinema Marginal, cena e movimento dos anos 1960 a 1980. O cineasta foi responsável por equilibrar com maestria, cinefilia e entretenimento comercial, realizando filmes que tinham no mundo do trabalho, no trabalhador e no universo que os rodeia, uma visão muito original e afetuosa.

Para Carlão, o trabalhador não era um conceito abstrato, um termo vazio e amplo. Era o vizinho, a mulher no ponto de ônibus, o metalúrgico que escuta música popular, a professora de escola pública. Ele entendia que essas pessoas eram e são agentes da cultura, essa que não necessariamente está nos salões de arte, nas galerias, mas sim nas catracas dos ônibus, nos bailes de quebrada, nos botecos e lanchonetes. Gosto de pensar em Reichenbach como um antropólogo urbano, que prestava atenção na trilha sonora da classe operária, nos gestos, nos lugares que frequentavam para fugir da alienação do trabalho e na cultura que seus comportamentos produziam. 

Difícil falar do trabalho de Carlos Reichenbach sem começar por seu filme mais conhecido: Garotas do ABC (2003). O grande ABC, berço histórico da industrialização paulista e do movimento sindical brasileiro, já tinha sido documentado pelo viés político. Mas Carlão escolheu mostrar o ABC como um ecossistema mais complexo do que só o das greves, pegando o íntimo humano, formado por pessoas com paixões, frustrações e também vítimas de violências cotidianas. 

No filme, acompanhamos Aurélia Schwarzenega (sim, o nome é porque ela é muito fã do Arnold), operária que trabalha em uma tecelagem. O ambiente fabril não é documental, mas a ambientação é construída com muito rigor, desde o barulho ensurdecedor dos teares, os movimentos mecânicos repetitivos, o bater dos pontos, o ambiente coletivo do vestiário e do refeitório, tudo está lá. Mas o interessante mesmo aparece depois do expediente, quando essas mulheres não deixam de existir, não desaparecem. É nos bailes, nos relacionamentos amorosos, e na vida fora do trabalho que discutem e lidam com as questões de um Brasil efervescente, do começo século.

Reichenbach corta o trabalho e coloca em uma balança, colocando de um lado a âncora de dignidade, a autonomia financeira dessas mulheres, e do outro a alienação que o mesmo produz. No filme ele também aborda a situação do proletariado e do desempregado, mostrando como as crises e a falta de perspectiva, em um dos principais polos industriais do país, podem servir de terreno não para a revolta popular, mas para o extremismo, aqui materializado na figura de uma gangue de neonazistas. Coisa bem contemporânea, aliás. Em Garotas do ABC, o operário é um ser político, claro, mas não precisa discursar em um carro de som para demonstrar isso. 

Frame de Falsa Loura (2007)

Depois de mapear o território, em 2007 Reichenbach lança Falsa Loura, seu último filme e uma espécie de pseudo-conto-de-fadas sobre a classe trabalhadora. A protagonista, Silmara (interpretada por Rosanne Mulholland), dança entre o papel de vilã e heroína, mas sem julgamento moral por parte do diretor. Ela sustenta a casa, cuida do pai doente e desempregado, com dificuldades em conseguir um novo trabalho por ser ex-presidiário, enquanto bate ponto todos os dias em uma fábrica de couro. 

Para mim o lado genial de Carlão em Falsa Loura está na forma como ele contrasta o ambiente fabril, da linha de montagem, com o escapismo da vida dos personagens fora das paredes de concreto. Silmara não está preocupada em discutir mais-valia com suas colegas, ela quer saber é de trabalhar e depois gastar o salário em shows de bandas românticas. E aqui eu que preciso não usar juízo de valor para não deslegitimar a visão do diretor, até porque a ideia dele é a de mostrar como também existe cultura na música que para muitos é só “mau gosto e cafonice”.

No chão de fábrica do filme, a gente vê solidariedade de classe não na organização sindical, mas nas conversas durante o expediente, nas ajudas que uma amiga dá à outra para não se ferrar com um superior, nas fofocas e críticas à gerência. A consciência de classe existe porque o sacrifício físico é o preço pago para ter independência e autonomia, para poder frequentar bares e casas de show e sonhar com um futuro melhor, mesmo que esse futuro venha através de relacionamentos conturbados. Quando Silmara começa a namorar o vocalista de sua banda favorita, as tensões de classe também aparecem e no final, o filme é um registro do que os trabalhadores brasileiros consomem para suportar o peso da engrenagem capitalista.

Mesmo que essas discussões só tenham ganhado maturidade nos últimos anos de trabalho de Carlos Reichenbach, e o cenário mais lembrado seja o das fábricas, em 1987 ele já abordava outras frentes do trabalho. Em Anjos do Arrabalde, ele mira a lente da câmera para o ensino público nas periferias de São Paulo.

Nas personagens principais, professoras de uma escola pública, que enfrentam jornadas duplas, triplas, quadruplas, enquanto tentam formar cidadãos para o futuro. O trabalho intelectual, ou melhor, a formação de intelectuais, aqui, é tão importante quanto o de tecer fios ou embalar itens de couro, ainda mais em um contexto de abandono estatal, de violência e de pobreza. De novo, algo muito atual. E falando em atualidade, a narrativa sobre a precarização do trabalho, principalmente o de cuidado, discute o peso do gênero nessas funções exercidas majoritariamente por mulheres.

O filme mostra que educar no arrabalde, nas margens da maior cidade da América Latina, é um puta trabalho braçal e de resistência, enquanto se precisa dar conta de suas próprias vidas, conflitos e crises.

Já virando a ótica, Carlão também dá a chance de olharmos para o outro lado da moeda, o do patrão. Em Filme Demência (1986), um trampo bem experimental e inspirado na peça Fausto, de Goethe, ele retrata o colapso de um industrial que vê falir a sua fábrica de cigarros, herdada do pai. Nesse contexto de “derrota”, Fausto, o protagonista, começa a ver não só sua posição profissional desmoronar, como seu casamento e sua cabeça, o que o faz mergulhar no submundo da noite paulistana.

Existe um contraste entre a figura do burguês em desintegração, meio patético, com a vitalidade, mesmo que muito sofrida, da classe trabalhadora em seus outros filmes. Isso, para mim, já deixa clara a posição do diretor em relação ao jogo de poderes. Para ele, o capital, quando descolado da humanidade, leva a pessoa à loucura. A vida está mesmo nas ruas, nas esquinas, no copo cheio de cerveja, e na mão de quem vende sua força de trabalho mas se recusa a vender aquilo que o faz viver fora do galpão da fábrica.

Se tem uma lição que Carlos Reichenbach deixa com sua filmografia, é a de que o mundo do trabalho não está só nos discursos panfletários. Eles são importantes, educativos, mas não podem ser encarados como dogmas. Nesse contexto em que as relações trabalhistas estão fragmentadas, a classe discute se faz sentido ou não acabar com a escala 6x1, enquanto a precarização e a “uberização” batem na porta, revisitar os filmes de Reichenbach é um exercício de memória e construção de empatia. Para ele, a mulher uniformizada no ônibus é a protagonista da cidade de São Paulo e porque não do país inteiro. Poucos artistas conseguiram filmar poesia no rosto cansado de um trabalhador, sem romantizar a exploração, até porque o foco dele está em quem são essas pessoas para além do trabalho. O suor está lá, mas não é a matéria prima para a arte.


ISMO
Cultura em movimento

Assine nossa newsletter e receba
as últimas notícias em 1ª mão!

Assine agora