Rap, rock e revolta: FBC quer a revolução em seu 7º álbum

O rapper mineiro mais uma vez surfa em novos gêneros, mas não quer fazer entretenimento, quer deixar um registro histórico

Rap, rock e revolta: FBC quer a revolução em seu 7º álbum

1º de Maio, Dia Internacional do Trabalhador, foi a data escolhida pelo Padrim FBC para lançar seu sétimo álbum, TAMBORES, CAFEZAIS, FUZIS, GUARANÁS E OUTRAS BRASILIDADES. O rapper, que construiu sua carreira com bases firmes na cultura hip-hop, já foi para o funk e o charme em Baile (2021), flertou com o soul em O Amor, O Perdão e a Tecnologia Irão Nos Levar Para Outro Planeta (2023) e agora escolheu o rock como novo território sonoro para expressar sua arte.

Durante entrevistas recentes, o Padrim já tinha sinalizado que iria fazer um disco de rock e que este seria o seu trabalho mais político até então, algo que faz muito sentido com a postura recente do MC, que tem usado sua visibilidade para discutir e denunciar questões sobre desigualdade social, violência policial, promover intelectuais de esquerda e se posicionar ao lado de pautas não só progressistas como radicais e revolucionárias. Para quem conhece o histórico do artista, não tem novidade nisso, mas o disco chega com um discurso muito mais direto e claro, sem contornos.

A história do disco começou no dia 17 de abril, data em que originalmente seria lançado, mas que foi escolhida para divulgação da capa e do primeiro single: "BANDIDO BOM". A faixa definiu o tom do que viria a ser o disco, um álbum que não usa meias palavras para falar sobre o momento atual da política e da população brasileira, e marcar a importância da luta popular como único caminho possível para a mudança. Aliás, dia 17 de abril também é o Dia Internacional da Luta Camponesa, para deixar claro o que ele quer contar.

Não faltam exemplos de bandas e artistas que misturam rap, rock e política: Planet Hemp, Rage Against the Machine, Run DMC, Beastie Boys; e o primeiro single claramente bebeu na fonte desses artistas. A faixa que se debruça sobre os recentes debates por anistia para os golpistas do 8 de janeiro de 2023, com uma base composta por guitarras, bateria marcante e scratches do DJ Cost. Ainda tem espaço para um solo de Daniel Souza para amarrar tudo, enquanto FBC rima com um flow à lá Zack de la Rocha. E o público já escolheu o nome da banda: Planet Against the Padrim.

A capa, divulgada na mesma data, carrega alguns elementos visuais muito interessantes e que ajudam a construir essa nova fase do artista. Assinada por Kawany Tamoyos, o projeto buscou ressignificar algumas imagens históricas do Brasil colonial, como uma afronta às narrativas construídas e sustentadas há mais de quinhentos anos. As principais referências foram as pinturas da chegada dos portugueses em nossas terras, os mapas da divisão colonial do território brasileiro e, por fim, um pôster comemorativo de 1888, que celebra a Lei Áurea.

A ilustração digital apresenta uma pessoa indígena de iPhone no bolso e Kenner nos pés, cumprimentando uma mãe negra com seu filho no sling, enquanto caravelas são alvejadas por flechas e queimadas ao fundo. Alguns detalhes como as guias de proteção, símbolo das religiões de matriz africana, a tatuagem de borboleta, terror dos homens red pill, e os homens porcos devorados por uma onça, traduzem visualmente sobre o que o disco quer falar. 

Para abrir o álbum, FBC escolheu regravar a faixa "GÊNESIS (Parto)", de João Bosco, um ponto de macumba meio tambor meio samba, clássico do jeito que só o artista mineiro sabe fazer. Na versão do Padrim, ficaram somente as percussões e a letra é entoada como canto de guerra, preparando para a porradaria que estaria para começar. E a promessa se cumpre com "O RONCO DA CUÍCA", outra composição de João Bosco e Aldir Blanc, que originalmente era um samba e agora é um hardcore acelerado. “Roncou de raiva a cuíca / Roncou de fome” é um verso que pode resumir o que o disco fala, já que historicamente nosso país conseguiu substituir a raiva por celebração e festa, e a dor em produto, estética.

A partir daí, são 13 faixas que vão do hardcore, punk, rap, nu metal, ao samba e o funk, gêneros que novamente evocam o conhecido Raprockandrollpsicodeliahardcoreragga do Planet Hemp. Aliás, é curioso pensar que pouco menos de um ano da despedida da banda carioca, alguém tenha escolhido ocupar esse espaço que durante mais de 30 anos foi de Marcelo D2, BNegão e sua banca. Quando a banda encerrou as atividades, no final de 2025, muito se falou sobre a importância deles, não só na música, mas na cultura, na política, nas ruas, e a justificativa de D2 deu na época foi justamente a de que estava “velho”, em outra fase, e que era importante dar espaço para outras gerações se manifestarem. Parece que FBC ouviu, e de forma muito respeitosa se apropriou desses elementos que o Planet trabalhou por décadas, e fez sua versão.

A faixa “GUILHOTINA” é quase uma paródia de Red Hot Chilli Peppers, mais especificamente da faixa “Give it Away”, que no refrão vira “queimem o rei”. Mas não confunda paródia como cópia barata do som californiano e que, no caso do RHCP, há muito tempo se pasteurizou. “Um bilionário gera emprego / Diz o senso comum. Aqui é o Brasil, caralho / Enfia o senso no cu.”

Enquanto ouvia o disco na primeira hora do dia, fui acompanhado as letras disponibilizadas pela plataforma de streaming, e diferente de trabalhos com mais força comercial e, por consequência, com mais dinheiro investido no lançamento, elas não apareciam organizadas conforme a música, e sim como um rascunho, como se escritas em papel ou em documento do word, com as separações de verso, refrão, e até orientação de como certos trechos deveriam ser cantados. A experiência, que para alguns é erro, desleixo ou mesmo falta de polimento, me aproximou do processo criativo do álbum, como se a partir disso eu pudesse entender melhor o objetivo de cada uma das músicas.

Em “ÓDIO SOCIAL”, em certa parte aparece “verso 2 falado em forma de discurso”, e assim FBC o faz, declamando um discurso potente, sobre o imaginário da independência , que conclui com as palavras de ordem: “se o povo não se revolta, a revolta é contra o povo”, antes de evocar movimentos de resistência e insubordinação como a Cabanagem, a greve dos ganhadores, e Balaiada.

Entre as participações do disco estão somente Djonga, que rima em uma das faixas mais “rap” do disco, e a grata surpresa MC Taya, jovem da Baixada Fluminense que cunhou o termo “metal mandrake”, mesclando funk carioca e rock, e canta na penúltima faixa, “CANUDOS”.

O álbum encerra como começou, com mais uma faixa de João Bosco. “TIRO DE MISERICÓRDIA” carrega o mesmo título do álbum em que foi lançada originalmente, em 1977, um marco na carreira do músico mineiro. O crítico musical Mauro Ferreira, na época em que o álbum foi reeditado pela Kuarup, escreveu: “Bosco e Blanc assinam todas as onze músicas deste disco que atingiu seu alvo ao captar as tensões urbanas dos tempos da fera. É um disco que parece ter nascido de birra, de teimoso, para parir uma radiografia do cotidiano duro das quebradas.”

FBC parece ter se conectado com o conterrâneo para compor, novamente, o que seria uma crônica da realidade político-social do país. A sonoridade é outra, e por mais que muita gente acredite que o disco soe muito como as bandas aqui já citadas, é importante lembrar que poucas delas ainda existem. Parte de uma nova geração, e voz ativa da mesma, o Padrim entregou um disco que de forma muito direta e clara serve de grito, um que há muito tempo é sufocado nas margens da nossa sociedade.


ISMO
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