Para os Pistache Ganache, nada está cravado na pedra

Entre vitrines de marcas de luxo e oficinas sobre o fim das coisas, a dupla André e Martina gosta mesmo é de brincar com o efêmero

Para os Pistache Ganache, nada está cravado na pedra
Foto: Re Freitas

Numa calçada em frente ao Parque Villa-Lobos, em um pedaço de cimento ainda fresco, André pegou um graveto e escreveu “Parques Livres”. "Sabe-se lá até onde vai ficar, mas quem entrar pelo portão 3 do Villa-Lobos vai ver escrito ‘Parques Livres’ bem grande na calçada." Um protesto contra a privatização de um espaço que, na cabeça dele, deveria continuar sendo de todo mundo. “Gravar na pedra é um ato de rebeldia hoje em dia."

A frase resume uma filosofia construída em 12 anos lidando com vitrines de luxo, chafarizes destruídos, exposições e um bocado de entulho catado de caçamba. O Pistache Ganache nasceu em 2014, Com André Romitelli e Martina Brusius catando móvel jogado na rua de madrugada e derretendo estanho na calçada de São Paulo. Doze anos depois, os dois já tem no currículo vitrines para Hermès e Ara Vartanian, projetaram a loja Mad Enlatados e viraram sinônimo de narrativa aplicada a espaço físico.

No papo que fiz com os dois durante a montagem da recém lançada coleção com a Branco Casa, a frase "isso não tá cravado na pedra" apareceu algumas vezes. Me pareceu ser o tipo de coisa que se fala pra acalmar cliente ansioso, mas que também funciona como filosofia de trabalho. Passando pelo Parque da Água Branca, Martina reparou nos bancos de granilite com telefone de cinco dígitos, resquício de um tempo em que se achava que dava pra pintar um número de telefone e ele duraria pra sempre. "Penso em pinturas rupestres, em algum momento alguém num gesto muito simplório foi lá e desenhou a rotina dele e marcou na pedra sem saber que isso ia ser para gerações futuras. A gente nunca sabe o que vai ficar na pedra ", ela diz.

O ateliê começou com uma dinâmica bem mão na massa, mas em 12 anos essa relação foi mudando. Para André, "a gente passou a ser mais um maestro e menos executor, menos músico dos projetos. Mas acho que tem uma ética por trás do fazer que ele te transforma, então a gente tenta estar presente, fazer o máximo possível. Porque além de ser importante para o projeto, eu acho que é importante para mim como ser humano." Tática de sobrevivência num mercado que empurra qualquer estúdio criativo para a função de gestor de terceirizados.

Essa negociação entre o fazer artístico e o fazer comercial é o cerne do ateliê desde os tempos em que dividiam um espaço na Rua Teodoro Sampaio, e explicar o que fazem nunca foi fácil. "Eu às vezes tenho um pouco de dificuldade em apresentar, sou arquiteta, sou designer, sou artista. Porque é um pouco de tudo, mas você não vai passar uma grande bio quando alguém pergunta o que você faz. Tem que escolher uma alcunha de acordo com a ocasião", diz Martina. Uma cliente em potencial resumiu isso melhor do que qualquer texto institucional: "eu não sei o que vocês fazem, mas eu amo tudo."

Vitrines assinadas para a Hermès

Os Pistache Ganache trabalham em um método que exige confiança: primeiro vem o conceito, só depois vem a referência visual. O problema é que nem sempre é fácil vender essa ideia para quem já chegou com pasta de referência pronta. "A gente já falou não pra cliente que disse 'eu separei umas referências no Pinterest para mostrar para vocês'. E aí nesse dia o André tava um pouco mais audacioso e disse 'não, a gente não quer'. Acontece com frequência", conta Martina, explicando que uma referência visual isolada, sem considerar como aplicar aquilo na realidade, mais atrapalha do que ajuda.

Comento como essa obsessão pela imagem sem base no material não está rolando só na arquitetura. Moda, por exemplo, é um território em que observo como algumas marcas se preocupam mais com a imagem que estão produzindo do que necessariamente a materialidade da coisa que vai chegar pro cliente. Como a foto da roupa fica em um modelo é mais relevante do que o caimento em quem realmente vai usar.

Comentam também sobre como a I.A. tem sido um problema em algumas trocas com clientes, que tentam apresentar o que está na cabeça por meio dos prompts. Se anos atrás, chegaram a usar versões mais rudimentares dessas ferramentas, o que gerava deslumbramento, hoje o efeito é inverso, e a ideia é silenciar. Tanto que resetaram o próprio feed.

A relação do ateliê com redes sociais mudou nos últimos anos, apesar de reconhecerem que boa parte dos clientes chegou por ali. No fim, o boca-a-boca entre clientes rende mais do que qualquer investimento em mídia. Do outro lado da corda, revistas especializadas em arquitetura e design, que antes pautavam o trabalho deles com frequência, foram morrendo, ou melhor mudando o plano de negócios, seguindo o caminho das pautas pagas.

E agora, se já não tem mais tantos espaços assim para compartilharem as histórias, ficou nas próprias mãos a missão de contar uma história de cada vez, com calma, em vez de alimentar o feed toda hora.

"A gente tá se cuidando mais com o material de divulgação, com os desenhos, com as fotos, com o modo que a gente posta, porque antes a gente usava de uma forma mais orgânica. E tem que questionar também, porque será que vale todo esse esforço para uma mídia que é tão descartável?" - Martina Brusius

Antes da conversa, durante a pesquisa, eu queria entender como funcionavam esses processos de trabalho para clientes com perfis tão diferentes. O atelier projetou a loja da Mad Enlatados, ao mesmo tempo que já cuidou das vitrines da Hermès, por exemplo. "Com a Mad foi a primeira vez que a gente teve esse contato com a Gen Z, com uma galera muito nova. As pessoas realmente se identificam com a figura do Luizin, que é o diretor criativo junto com a Júlia, e tudo que eles lançam esgota, tem uma legião de seguidores fanáticos pela marca", diz André.

O espaço que eles projetaram é uma loja, claro, mas funciona como um centro cultural da marca onde fazem festas, exposições, DJ sets, enfim, virou parte da narrativa da marca mesmo. "O que eles têm é muito caro. Não tem preço que paga essa construção de comunidade, da pessoa se identificar com uma marca, e isso transcende o poder aquisitivo. Acho que esse é um luxo acima do que o mercado considera luxo."

Enquanto isso, marcas centenárias se esforçam para se rejuvenescer e construir novas comunidades ao redor da própria história. O desafio, além da acessibilidade, é entender como os mais jovens se conectam com o que consomem, e esse problema não se resolve da noite pro dia, e nem só pelo digital. No decorrer de todo o papo, fui percebendo que parte do trabalho do atelier é justamente ajudar a contar histórias através dos espaços físicos, coisa que o varejo, de modo geral, se esqueceu com a popularização do e-commerce.

De novo, não é sobre dinheiro, até porque tem coisa que não dá para só comprar. Quando pergunto sobre como funciona a criação em momentos de orçamento mais reduzido, coisa mais comum em marcas independentes do que com clientes maiores, tanto André quanto Martina comentam que o hábito de ressignificar materiais que antes eram descartados, trouxe uma expertise muito boa para criarem soluções práticas, funcionais e menos custosas.

Um projeto que me parece resumir o método dos Pistache Ganache de transformar limitação em linguagem, é a reconstrução do Chafariz da Misericórdia, obra original do arquiteto alforriado Tebas, que serviu de ponto de encontro entre afro-brasileiros e foi o primeiro ponto de água pública da cidade, até ser destruído. O trabalho aconteceu durante a Semana de Design de São Paulo, em 2024, dentro de um prédio em retrofit, e o material usado foi justamente o entulho da obra, que, aliás, acontecia no mesmo local em que antes existiu o chafariz. "É uma arqueologia reversa, efêmera", diz Martina.

A vitrine da loja da Viga nasceu de uma lógica parecida, de aproveitar o conhecimento acumulado em outros projetos para aplicar numa linguagem mais industrial. "A gente criou aquela parede usando telhas trapezoidais metálicas e os expositores são magnéticos, o que permitiu uma modularidade." Tudo isso porque existia um prazo de permanência definido, então as soluções precisavam ser simples e funcionais.

Mas, pra mim, a história mais engraçada foi da origem da loja revestida de carpete que fizeram pra Ryzi. Em uma montagem anterior, um lote de móveis acabou manchado pela tinta fresca e, pra contornar, decidiram revestir de carpete. A gambiarra ficou tão legal que virou proposta de projeto. André diz que "odeia o shopping. Acho uma das coisas que mais nos incomodam é o consumo ter que existir nesse ambiente tão piegas. Nessa loja, o carpete tinha um horizonte. Porque no shopping você não vê o horizonte e não vê o tempo passar. A gente fez esse degradê do azul que vira céu, e as bolsas voavam como pássaros. Tinha uma poesia."

No mesmo shopping, ao lado da Ryzi, eles fizeram a loja da Conceito ê., e a pergunta que guiou o projeto foi: o que esse shopping vai virar daqui 100 anos? “Foi um projeto inteiro feito sobre essa ideia do arruinamento dos pilares do consumo. Vai virar um templo, esse daqui era o templo onde as pessoas consumiam." A loja funcionou por alguns anos antes de ser desmontada, algo comum hoje entre os comércios. A vida útil média de um estabelecimento no Brasil é curta e parece ter um prazo de validade embutido em quase tudo que projetam, mesmo que façam coisas para durarem por muitos anos.

Curiosamente, os Pistache Ganache abriram mão do espaço físico que ocupavam. A decisão nasceu da mesma reflexão que atravessa o trabalho deles há 12 anos, de que tudo tem um ciclo, e que ressignificar é melhor do que acumular. Não à toa, a exposição de aniversário de 10 anos do ateliê se chamou Coisas Para O Fim, feita com materiais que já tinham chegado ao fim do ciclo de consumo. Alguns anos antes, o mesmo nome foi utilizado para uma série de workshops que também repensavam objetos, seus usos e seus fins.

Martina conta que "a gente agora se desfez do espaço físico, tudo teve que arranjar uma outra finalidade ou um fim. Foi um processo até um pouco dolorido, na verdade, remoer tudo para tirar de um espaço, mas muitas coisas encontraram novos fins." A frase, de alguma forma, poderia servir para qualquer um dos projetos que os dois já fizeram, seja o Chafariz de isopor, o carpete que virou céu dentro do shopping, ou o "Parques Livres" escrito com graveto em cimento fresco. Nada ali foi pensado para durar para sempre. E talvez seja exatamente por isso que continua de pé.


ISMO
Cultura em movimento

Assine nossa newsletter e receba
as últimas notícias em 1ª mão!

Assine agora