O tênis foi encolhendo até chegar no chão
Do chunky sneaker aos modelos quase descalços, a tendência flat parece o limite de uma redução estética que atravessa sneaker, moda e comportamento
Por um tempo, parecia que todo tênis queria, sei lá, virar prédio. A sola subiu, ganhou camadas, plataformas e aquela presença meio impossível de ignorar. Tinha algo quase arquitetônico em olhar para um Balenciaga Triple S, com sua sola empilhada, ou para tantos modelos (em versões muitas vezes femininas) ganhando alguns centímetros a mais, e entender que o desejo estava na ideia de ocupar espaço. O Fila Disruptor foi um baita exemplo, mostrando que o chunky não era apenas uma obsessão de nicho sneakerhead, mas uma estética que tinha conseguido atravessar o mercado.


Balenciaga Triple S e Fila Disruptor: dois GRANDES exemplos da tendência dos tênis chunky
Depois de muita sola, muita espuma e muito vis-tech, o excesso começou a perder nitidez. Aquilo que antes fazia o tênis parecer novo, fresco, passou a deixar tudo meio parecido e o olho começou a procurar outro tipo de informação. A trajetória dos tênis flat começa aí, mas não como uma simples “volta” dos modelos baixos. Vamos reparar no movimento: a sola foi encolhendo aos poucos. Primeiro veio a volta dos clássicos de perfil baixo, depois os modelos ainda mais rasos, depois os híbridos que já parecem sapatilha, luva, meia, sandália. Até chegar nesse ponto curioso em que o tênis encosta no chão e a gente se pergunta quanto ainda dá para tirar - se é que ainda dá para tirar alguma coisa.
O clássico virou descanso visual
O adidas Samba foi um dos grandes sinais dessa mudança. Um tênis que veio do futebol indoor, com sola baixa e um repertório que vinha antes do TikTok, embora o TikTok tenha feito sua parte. O Samba entrou no guarda-roupa sem precisar explicar muita coisa, se adaptou rápido e ganhou (muito) espaço. Depois de anos de tênis com cara de experimento de laboratório, ele oferecia uma espécie de descanso visual. Ainda era sneaker, ainda tinha história esportiva, mas ocupava menos espaço no pé e no look.


O adidas Samba, hoje, dispensa apresentações
Gazelle e Spezial seguiram esse mesmo caminho, puxando uma memória de futebol, arquibancada e rua. O Onitsuka Tiger Mexico 66 afinou ainda mais essa leitura. Ele tem uma silhueta estreita e carrega uma nostalgia cinematográfica e esportiva que funciona bem nesse momento em que a moda parece mais interessada em arquivo do que em promessa de futuro. O Nike Cortez entra nessa mesma conversa por outro lado: mais associado à corrida, à cultura pop americana, à ideia de um tênis simples que já viveu muitas vidas antes de voltar a ser desejável.





Gazelle, Spezial, Cortez, Tiger... A lista de clássicos dos anos 1970 é longa
Esses modelos marcaram um primeiro encolhimento real da sola no imaginário recente. Eles ainda são confortáveis, usáveis e cotidianos, não pedem uma adaptação radical do corpo nem do guarda-roupa, mas já mudam a proporção. A calça cai diferente, o pé parece mais comprido, o look perde aquele peso. É uma transição discreta, mas fundamental.
A sola fica mais fina e o repertório muda
Depois dos clássicos, veio uma leva de modelos que eram mais do que “baixos”, vinham rente ao chão. O PUMA Speedcat é um exemplo bem evidente porque nasceu de uma lógica muito específica: a pilotagem. Um tênis para dirigir precisa ser fino, flexível, preciso. Ele não quer amortecer, quer fazer o pé sentir o pedal. Quando esse tipo de silhueta sai do paddock imaginário da Fórmula 1 e vai parar no street style, a mensagem muda. O interesse não está só no automobilismo como referência estética, embora isso também pese. Está na ideia de um tênis que troca volume por controle.
O adidas Taekwondo leva essa redução para outro território. Ele vem da sapatilha de luta, vem da funcionalidade. A referência às artes marciais aproxima o sneaker de uma disciplina corporal. Não é o tênis que promete te impulsionar para frente com uma entressola absurda, um drop altíssimo ou uma placa de carbono, que seja. É o tênis que pede equilíbrio, contato. No Lyst Index do primeiro trimestre de 2025, o modelo apareceu como o sneaker mais bem posicionado do ranking, atrás apenas de uma calça da Celine na lista geral de produtos mais quentes.


PUMA Speedcat e adidas Taekwondo: um vem das pistas de corrida; o outro, dos dojang
Os adidas Tokyo e Japan entram como arquivos de corrida minimalista, mas com outra temperatura. Eles não têm a agressividade técnica de muitos running shoes contemporâneos. O New Balance 204L aparece como resposta interessante porque vem de uma marca muito associada ao conforto robusto, aos tênis de caminhada, às solas que abraçam o pé. Quando a New Balance também achata a silhueta, dá para entender que o movimento não está restrito a um capricho fashionista. A redução virou uma gramática possível até para quem construiu desejo em cima de estabilidade.



adidas Japan, adidas Tokyo, New Balance 204L e seus solados coladinhos ao chão
Nesse bloco da trajetória, a sola muda de função simbólica. Se o tênis baixo clássico ainda falava de memória, esses aqui, já falam de sensação. Pilotagem, luta, e corrida, momentos que apontam para práticas em que o pé precisa reconhecer o chão. Depois de anos em que amortecimento visível virou sinônimo de valor, esse novo desejo desloca a conversa. O que chama atenção agora é o quanto o tênis deixa o pé aparecer de novo.
Sneaker ou sapatilha?
A moda fora do sneaker também foi descendo. Sapatilhas, Mary Janes, mules, loafers baixos, derbies macios e outras silhuetas começaram a ocupar o mesmo espaço de desejo que antes pertencia ao tênis robusto. Não é uma coincidência isolada do mercado sneaker. O pé, na moda como um todo, ficou mais baixo.
Os ballerina shoes da Miu Miu ajudam a entender esse clima porque tirou do balé aquela aura muito comportada e colocou a delicadeza num lugar mais urbano e quase displicente. Simone Rocha faz outro movimento, aproximando tênis e sapatilha por meio de laços, volumes macios e uma feminilidade que nunca é exatamente dócil. Já The Row e Alaïa puxam a conversa para outro canto: sapatos quase imperceptíveis, flats, peças que parecem perguntar quanta estrutura ainda precisa existir para um calçado continuar sendo calçado.




Miu Miu, Simone Rocha, The Row e Alaïa: quanta estrutura ainda precisa existir para um calçado continuar sendo calçado?
É nesse meio que aparece a tal “sneakerina”, esse nome meio feio para uma coisa visualmente interessante. Dá para torcer o nariz para o termo, com razão, mas ele nomeia uma zona que está ficando cada vez mais comum: tênis que flertam com o balé, sapatilhas que emprestam códigos do esporte, sapatos de treino que entram no look com a delicadeza de um acessório de dança. No mesmo relatório da Lyst, as buscas por “sneakerinas” cresceram 1300%, o que ajuda a explicar por que essa palavra estranha começou a aparecer tanto. Meu ponto aqui é mostrar como as categorias estão ficando porosas, muito mais do que ficar nomeando cada tendência. O que antes seria lido como frágil, infantil ou até pouco funcional, agora aparece como sofisticado, justamente porque contrasta com a rigidez visual que dominou os pés por tanto tempo.


adidas Taekwondo e PUMA Speedcat em suas versões “sneakerina”
Esse encontro com a moda também explica por que o flat não depende apenas da cultura sneaker para fazer sentido. Ele conversa com balletcore, quiet luxury, minimalismo, arquivo esportivo, automobilismo e vintage, mas não precisa ser reduzido a nenhum desses nomes. O maximalismo segue vivo, tá. As coisas coexistem na moda - hoje mais do que nunca. Basta olhar para Hoka, para os New Balance mais robustos, para a corrida de performance e para a própria Balenciaga, que continua tratando volume como linguagem. Só que o grande já não carrega sozinho a ideia de novidade (pelo contrário).
Do chão não passa?
O Nike Air Rift talvez seja um dos melhores personagens para essa etapa final porque ele sempre teve algo de objeto estranho. O dedo dividido e o cabedal aberto tiram o modelo de uma leitura tradicional de sneaker, criando uma aparência quase descalça. Quando esse tipo de modelo volta a circular com força e ainda se aproxima de colaborações, fica claro que o limite do tênis está sendo testado pelas bordas.
O Moon Shoe (que recentemente foi trabalhado pela Jacquemus e ganhou os tabloides nos pés de Rihanna) entra mais como imagem simbólica. Um dos mitos fundadores da Nike, com sua sola waffle quase primitiva, ele lembra que o sneaker também começou como experimento material, como tentativa de resolver uma relação básica entre pé, tração e chão. Olhar para ele agora, depois de décadas de amortecimento performático e design inflado, dá uma sensação curiosa: talvez o futuro esteja parecendo cada vez mais com um rascunho do passado.


Nike Air Rift e Moon Shoe. “Eu vejo o futuro repetir o passado”
A sola foi diminuindo. Primeiro perdeu a arrogância do volume, depois voltou ao clássico, depois ficou fina, depois começou a encostar em outras categorias... O tênis flat parece abrir um impasse. Se o desejo recente foi tirar peso, tirar altura, tirar estrutura, o que acontece quando já não há quase nada entre o pé e o chão? A moda costuma responder ao limite com inversão, mas talvez a próxima pergunta seja até que ponto a gente ainda chama isso de tênis.