O país do futebol que proibiu mulheres de jogar bola
Enquanto uma Copa do Mundo Feminina lotava estádios no México em 1971, mulheres eram proibidas de disputar futebol organizado no Brasil. 55 anos depois, o país se prepara para receber o Mundial de 2027
Não é novidade pra ninguém que o Brasil é conhecido como o país do futebol. O esporte faz parte da nossa cultura de um jeito que vai muito além dos noventa minutos de uma partida. Está nas conversas de família, nas rivalidades entre amigos, nas músicas, nas camisas de time que ganharam as ruas e, claro, nos jogadores que viraram praticamente personagens da nossa história. A gente cresce ouvindo falar de Pelé, Garrincha, Ronaldo e tantos outros nomes que ajudaram a construir essa identidade brasileira em torno da bola.
Mas tem uma contradição nessa história que nem sempre aparece quando falamos do nosso amor pelo futebol. Durante décadas, mulheres foram oficialmente impedidas de praticar a modalidade de forma organizada no Brasil. Isso começou em 1941, durante o governo de Getúlio Vargas, e só foi revogado em 1979. Enquanto os homens representavam o país nos gramados e ajudavam a consolidar o futebol como símbolo nacional, as mulheres precisavam encontrar outras maneiras de continuar jogando.

Agora, em 2027, o Brasil vai receber pela primeira vez a Copa do Mundo Feminina da FIFA. Pensando na relação que a gente tem com esse esporte, vale olhar um pouco para trás. Porque, muito antes de existir um Mundial feminino reconhecido pela FIFA, mulheres já disputavam competições internacionais, atraíam multidões e movimentavam a cultura do futebol. Uma dessas histórias aconteceu em 1971, no México, justamente quando brasileiras ainda enfrentavam restrições para entrar em campo.
Uma Copa do Mundo Feminina em 1971? Pois é.
Em 5 de setembro de 1971, cerca de 110 mil pessoas foram ao Estádio Azteca, na Cidade do México, assistir à final de uma Copa do Mundo Feminina. Sim, em 1971. A partida foi entre México e Dinamarca, que venceu por 3 a 0, com três gols de Susanne Augustesen, uma jogadora que tinha apenas 15 anos. O campeonato reuniu seis seleções (México, Dinamarca, Argentina, Inglaterra, França e Itália) e aconteceu vinte anos antes da primeira Copa feminina oficialmente organizada pela FIFA, em 1991. Se hoje a gente costuma tratar o crescimento do futebol feminino como algo recente, essa história ajuda a colocar as coisas em perspectiva.

E o mais curioso é que o torneio tinha uma estrutura que muita gente talvez não imaginasse para aquela época. Havia transmissões de televisão, patrocinadores, campanhas publicitárias e torcedores acompanhando os jogos. Um ano antes, em 1970, a Itália já tinha recebido uma competição internacional feminina, também organizada fora da FIFA. Ou seja, as mulheres já estavam criando seus próprios espaços para jogar futebol, e existia um público interessado em assistir. Aquela ideia repetida por aí de que ninguém queria ver mulheres em campo não se sustenta quando olhamos para esses acontecimentos.
Só que, mesmo com estádios cheios e empresas aproveitando a visibilidade da competição, as jogadoras não recebiam necessariamente os benefícios desse sucesso. Muitas atletas mexicanas eram estudantes ou trabalhadoras e precisavam conciliar treinos com suas rotinas. Algumas participaram de campanhas publicitárias sem pagamento, e, às vésperas da final, o elenco reivindicou uma compensação financeira, chegando a ameaçar não entrar em campo. Alicia Vargas, uma das atletas (e conhecida como "A Pelé Mexicana"), questionava justamente essa situação: enquanto o campeonato movimentava dinheiro, esperava-se que as mulheres se contentassem com a exposição. Parece uma discussão bastante atual, né?! Mas já estava acontecendo há mais de cinquenta anos.
Apesar de toda essa repercussão, o Mundial mexicano nunca entrou para a contagem oficial das Copas da FIFA. A entidade só organizaria sua primeira edição feminina em 1991, na China. Décadas depois, o documentário Copa 71, lançado em 2023 e disponível na Netflix, recuperou imagens e relatos das jogadoras que participaram daquele torneio. Uma das coisas mais interessantes dessa história é perceber como um campeonato capaz de reunir tanta gente acabou se tornando pouco conhecido. O futebol feminino já tinha público, jogadoras e competições internacionais. O reconhecimento institucional veio depois.

Enquanto isso, no país do futebol...
Pra entender o contraste, precisamos voltar ao Brasil daquela época. Em 1941, durante o Estado Novo, Getúlio Vargas assinou um decreto que restringia a participação das mulheres em esportes considerados incompatíveis com sua natureza. O futebol não aparecia diretamente no texto, mas a restrição abriu caminho para impedir sua prática organizada. Em 1965, já durante a ditadura militar, o Conselho Nacional de Desportos passou a proibir expressamente modalidades como futebol, futsal e futebol de praia para mulheres. A proibição só foi revogada em 1979, e a regulamentação do futebol feminino veio quatro anos depois, em 1983.

E qual era a justificativa para tudo isso? Basicamente, a ideia de que certos esportes não combinavam com o que se esperava de uma mulher. O futebol era associado à força, ao contato físico, à competitividade e a características consideradas masculinas. Enquanto isso, o corpo feminino era tratado a partir de expectativas ligadas à delicadeza, à maternidade e ao ambiente doméstico. Existiam até argumentos de que jogar bola poderia prejudicar a capacidade reprodutiva das mulheres. Louco, né?! Hoje, essas justificativas parecem absurdas, mas ajudam a entender como o controle sobre o corpo feminino também passava pelo esporte.


Só que tem um detalhe importante: proibir não significou fazer as mulheres pararem de jogar. Durante essas décadas, elas continuaram ocupando campos de várzea, participando de partidas beneficentes e organizando jogos fora das estruturas oficiais. Algumas enfrentavam intervenções das autoridades, outras encontravam maneiras de contornar as restrições. Pesquisas e arquivos reunidos pelo Museu do Futebol mostram fotografias, reportagens e registros dessas experiências. Então, quando falamos da ausência feminina na história do futebol brasileiro, precisamos tomar cuidado para não confundir falta de reconhecimento com falta de participação.
E aí chegamos a outra questão. Se o futebol é uma parte tão importante da nossa identidade, quem teve espaço para construir essa memória? A gente conhece as histórias dos grandes jogadores brasileiros, seus gols, títulos, rivalidades e momentos que atravessaram gerações. O futebol masculino inspirou músicas, filmes, campanhas publicitárias e uma série de referências que fazem parte da cultura popular. Mas, durante muito tempo, as mulheres tiveram menos acesso aos campeonatos, à imprensa e às estruturas que ajudam a transformar atletas em ídolos. Não surpreende que tantas dessas histórias tenham ficado longe do imaginário nacional.
O país do futebol está pronto para uma Copa feminina?
Em 2027, o Brasil vai receber a Copa do Mundo Feminina pela primeira vez. Serão 32 seleções disputando partidas em oito cidades, com abertura e final no Maracanã. E tem algo curioso nessa escolha: o mesmo país que passou décadas impedindo mulheres de jogar futebol agora vai abrir seus principais estádios para receber as melhores seleções do mundo. É uma mudança e tanto, mas que também diz muito sobre a relação que estamos construindo com o futebol feminino por aqui.

E se ainda existe quem diga que o futebol feminino não atrai público, os números de 2026 ajudam a colocar essa ideia em perspectiva. O Brasileirão Feminino alcançou 56,3 milhões de pessoas nas transmissões da Globo, sportv e Ge TV, um crescimento de 14% em relação ao ano anterior. A final entre São Paulo e Corinthians também levou 49.405 torcedores ao MorumBIS, estabelecendo um novo recorde de público da competição. São números importantes, principalmente porque mostram que o interesse pelo futebol feminino também existe fora dos grandes torneios de seleções. Mas existe uma diferença entre lotar um estádio numa final e construir uma cultura de torcida que se mantenha durante toda a temporada.
E é aí que os números começam a contar outra história. Segundo um levantamento publicado pela Folha de S.Paulo, com base nos boletins financeiros da CBF, a média de público na primeira fase do Brasileirão de 2026, desconsiderando os jogos com mando do Corinthians, foi de apenas 358 pessoas por partida. Em um confronto entre Bahia e América-MG, no Pituaçu, apenas 20 torcedores estiveram presentes. Além disso, 162 dos 167 jogos da competição terminaram com resultado operacional negativo na organização das partidas. É um contraste enorme com as quase 50 mil pessoas presentes na final. E também vale olhar para as condições em que esses jogos acontecem: o estádio escolhido, a divulgação das partidas e as oportunidades que o público tem de acompanhar os clubes. Afinal, uma cultura de torcida também depende de estrutura, investimento e continuidade.

Algumas mudanças já estão acontecendo. Em 2026, a CBF ampliou o Brasileirão Feminino de 16 para 18 clubes, aumentou o número de partidas e dobrou a cota de participação das equipes da primeira divisão, que passaram a receber R$ 720 mil cada. Em setembro do mesmo ano, também foi sancionada uma lei com diretrizes para o desenvolvimento do futebol feminino, incluindo medidas para ampliar a profissionalização das atletas. A legislação prevê uma redução gradual da participação de jogadoras não profissionais, mas ainda permite exceções. São avanços importantes, principalmente quando lembramos que a modalidade passou décadas sem o reconhecimento necessário para se desenvolver. Com a Copa de 2027 chegando ao Brasil, existe uma oportunidade de aproximar mais pessoas do futebol feminino, formar novas torcidas e ampliar as referências que fazem parte da nossa cultura esportiva. O desafio é fazer com que esse movimento continue quando o Mundial acabar.
Uma nova Copa, uma história que ainda precisa ser contada
Por isso eu quis voltar à Copa de 1971 neste texto. Naquela época, o futebol feminino já conseguia reunir multidões, atrair patrocinadores e movimentar dinheiro, mas isso não significava que as jogadoras tivessem o reconhecimento ou as condições necessárias para continuar suas carreiras. Mais de cinquenta anos depois, o cenário é outro, mas a história ajuda a lembrar que o interesse do público, por mais importante que seja, não garante sozinho o desenvolvimento de um esporte.
Agora, o Brasil tem pela frente uma oportunidade interessante. Receber a Copa de 2027 em um país que passou décadas proibindo mulheres de jogar futebol também é uma chance de rever a relação que construímos com essa modalidade. Se o futebol faz parte da nossa identidade cultural, faz sentido que as mulheres que sempre estiveram presentes nessa história também encontrem espaço nas arquibancadas, nos clubes, nas transmissões e nas referências que vamos passar para as próximas gerações.