O afrojazz pós-hip-hop de Lourenço Rebetez

Em LÍNGUA GERAL, produzido por Arto Lindsay, o compositor mistura ritmos afro-brasileiros, jazz contemporâneo e a liberdade criativa do hip-hop

O afrojazz pós-hip-hop de Lourenço Rebetez
Fotos por Gleeson Paulino

Nem sempre é preciso tocar no tempo certo para fazer música boa. Às vezes, é justamente um beat ligeiramente atrasado, uma percussão que escapa da marcação ou dois ritmos que parecem não se encaixar que tornam a coisa toda mais interessante. Quem já ouviu os beats de J Dilla sabe bem do que estou falando. E essa ideia ajuda a entender o trabalho do compositor, guitarrista e produtor musical Lourenço Rebetez, que encontrou na mistura entre os ritmos afro-brasileiros, o jazz e a liberdade criativa do hip-hop um caminho bastante particular.

Em LÍNGUA GERAL, seu segundo álbum autoral, que chega às plataformas digitais nesta quarta-feira, 4 de novembro, Rebetez leva essa pesquisa ainda mais longe. Produzido por Arto Lindsay, o disco reúne sete composições que aproximam os tambores do candomblé, o jazz contemporâneo e a música eletrônica. Mas não se trata simplesmente de misturar gêneros. O que interessa ao músico é descobrir o que acontece quando diferentes maneiras de tocar e sentir o ritmo passam a conviver, mesmo que nem tudo se encaixe perfeitamente.

Capa de LÍNGUA GERAL

Formado em composição de jazz pela Berklee College of Music de Boston, nos Estados Unidos, Rebetez encontrou uma referência fundamental no maestro baiano Letieres Leite, criador da Orkestra Rumpilezz. Foi com ele que aprofundou seu conhecimento sobre os ritmos afro-brasileiros, especialmente aqueles ligados ao candomblé, e descobriu outras maneiras de pensar os arranjos. Em vez de colocar a percussão como acompanhamento dos instrumentos melódicos, a ideia era fazer o contrário: deixar que os tambores conduzissem a música e que todo o resto se organizasse a partir deles.

Essa influência já aparecia em O Corpo de Dentro (2016), seu primeiro álbum, também produzido por Arto Lindsay. Na época, o crítico Zuza Homem de Mello escreveu que, apesar de guitarrista, Rebetez pensava muito mais como compositor e arranjador. Seu principal instrumento seria a caneta. Influenciado por nomes como Moacir Santos, Charles Mingus, Gil Evans e Wayne Shorter, ele já demonstrava interesse por composições em que os arranjos tinham tanta importância quanto as melodias e cada músico encontrava espaço para colocar sua personalidade.

Mas tinha outro detalhe interessante naquele primeiro disco. Como o próprio Rebetez explicou a Zuza, os músicos que formavam a base da banda pertenciam a uma geração pós-hip-hop, que cresceu ouvindo jazz, mas também foi influenciada por uma cultura musical transformada pelos samplers, loops e novas tecnologias de produção. Uma turma pouco preocupada em respeitar as fronteiras entre os gêneros.

É justamente essa ideia de um jazz pós-hip-hop que ganha ainda mais força em LÍNGUA GERAL. Produtores como J Dilla e Madlib ajudaram a reinventar batidas através de samples e colagens "tortas" em uma marca registrada do hip-hop, enquanto outros nomes como DJ Shadow e Flying Lotus levaram as possibilidades de produção no gênero para outros lugares. No trabalho de Rebetez, essa maneira mais livre de pensar a música encontra a riqueza dos ritmos afro-brasileiros e a tradição de improvisação do jazz.

O crítico norte-americano Ben Ratliff, que durante anos escreveu para o The New York Times, dedicou um ensaio ao novo disco e chamou atenção justamente para essa característica. Para ele, seria simplificar demais dizer que a música de Rebetez é uma soma de Moacir Santos, Letieres Leite, J Dilla e Roy Hargrove. O interessante está no que acontece quando todas essas referências se encontram e começam a se transformar em alguma coisa diferente.

Em conversa com Ratliff, Rebetez falou sobre sua fascinação pelos loops de J Dilla, que parecem estar sempre um pouquinho fora do lugar. Ele gosta dessa sensação de que os ritmos estão quase se desencontrando, quase dando errado, mas continuam funcionando. É justamente nesse “quase” que encontra espaço para criar.

Um bom exemplo é “Segundo Sentido”. Na faixa, os percussionistas baianos Kainan do Jêje e Ícaro Sá tocam uma sequência rítmica em 11/8, uma divisão pouco comum para quem está acostumado com a estrutura da maioria das músicas populares. Sobre essa base, baixo, bateria e piano desenvolvem um groove que pode soar como um 4/4 tradicional. Na prática, são dois ritmos acontecendo ao mesmo tempo, criando uma sensação diferente, mesmo para quem não faz a menor ideia do que significam esses números.

E a escolha dos músicos também tem tudo a ver com essa proposta. Em “Sim e Não / Yes and No”, Kainan e Ícaro, ligados ao Terreiro do Bogum, em Salvador, dividem espaço com o baterista norte-americano Kassa Overall e o tecladista japonês Big Yuki, dois nomes da cena contemporânea de Nova York. Já em “Ananké”, aparece o tecladista Jason Lindner. São músicos com formações e referências bem diferentes, reunidos justamente para descobrir o que pode surgir desses encontros.

O disco abre com “Maestro”, primeiro single lançado do disco, uma homenagem a Letieres Leite que conta com a participação do Grupo Ofá, de Salvador. É uma maneira de reconhecer a importância de quem ajudou Rebetez a enxergar a música afro-brasileira por outra perspectiva. Assim como Moacir Santos, outra de suas grandes referências, Letieres mostrou que a tradição não precisa ficar presa ao passado e que os ritmos ancestrais continuam oferecendo possibilidades para a criação de uma música absolutamente contemporânea.

Arto Lindsay, que também produziu o primeiro disco de Rebetez, é outro personagem importante nessa história. Com uma trajetória que vai da cena experimental de Nova York aos trabalhos com Caetano Veloso e Marisa Monte, o músico e produtor sempre transitou por diferentes universos sem se preocupar muito com rótulos. Em LÍNGUA GERAL, essa liberdade aparece também na produção, com gravações sobrepostas, loops e arranjos que podem ser reorganizados no estúdio. É uma maneira de compor que vai além de escrever uma música e depois simplesmente gravá-la.

Existe ainda uma questão interessante nessa pesquisa. Como Rebetez explica no ensaio de Ratliff, a teoria musical ocidental nem sempre consegue representar tudo o que acontece quando os músicos de candomblé tocam seus instrumentos. Existem diferentes divisões de tempo acontecendo simultaneamente, pequenas variações e maneiras de tocar que não cabem perfeitamente em uma partitura. O que ele procura fazer é levar essas características para suas composições, em vez de tratá-las apenas como detalhes da execução.

E talvez seja aí que esteja a conexão mais interessante entre os tambores afro-brasileiros e os beats do hip-hop. São tradições muito diferentes, mas que, cada uma à sua maneira, mostram que o ritmo pode ser muito mais livre do que a marcação certinha de um metrônomo. O que para alguns poderia soar como uma imperfeição, para outros é justamente o que dá vida à música.

Lançado em parceria pelos selos RISCO, do Brasil, Jazzybelle Records, da França, e Think! Records, do Japão, LÍNGUA GERAL também mostra como essa pesquisa dialoga com uma cena musical que atravessa fronteiras. Mas, apesar de reunir músicos de diferentes países e referências que vão do candomblé à eletrônica, o disco tem suas raízes bem definidas.

No fim das contas, Lourenço Rebetez está fazendo uma espécie de afrojazz libertário, que carrega os ensinamentos de Letieres Leite e Moacir Santos, mas também aprendeu algumas coisas com J Dilla e toda uma geração de produtores que ajudou a reinventar o hip-hop. Uma música que respeita de onde veio, sem deixar que isso determine até onde pode chegar.


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