"Sou uma mulher da fronteira" - Marina Peralta retorna às raízes em FRONT
Em novo disco, a artista do MS quer mostrar que tem muita cultura sonora em seu estado natal, e que as fronteiras estão aí para serem cruzadas
Sul-mato-grossense radicada em São Paulo, filha de pai paraguaio, Marina Peralta cresceu em uma casa onde o guarani circulava entre a avó e o pai, e onde a guarânia, o chamamé e a polca paraguaia tocavam mais do que o sertanejo que domina a região. O reggae chegou depois, e virou base de uma obra que agora olha para o próprio território com outros ouvidos.
Seu novo álbum, FRONT, chega hoje nas plataformas, dez anos depois de Agradece (2016). O reggae e o dub seguem como fundamento, e junto caminham o rap, MPB, reggaeton e cumbia, em português e espanhol. A lista de convidados faz a conversa sobre fronteiras ficar ainda melhor: Chico César, Ponto de Equilíbrio, Yago Oproprio, Bia Ferreira, Anelis Assumpção, Belén Natalí, as paraguaias Las Hijas de la Alquimia e as conterrâneas Tetê Espíndola e Alzira E.
Na entrevista, Marina fala de fronteira como geografia, como linha de frente e como coisa a ser rompida. Conta como São Paulo fortaleceu a conexão com o Mato Grosso do Sul, como uma melodia enviada por Chico César levou quase oito anos para ser lançada e o que ela precisou deixar para trás para fazer um disco que quisesse ouvir com orgulho. Confere o papo.
E aí Marina! Tudo certo? Minha primeira pergunta não é necessariamente sobre o álbum, mas eu queria que você me falasse sobre suas primeiras lembranças sonoras de onde você cresceu. O que você lembra de rádio, uma língua, um som que tocava do lado?
De fato, no Mato Grosso do Sul o sertanejo é muito forte, mas na minha casa ninguém nunca foi muito do sertanejo. Existe uma parte dessa música fronteiriça que é muito nossa, que é a guarânia, o chamamé e a polca paraguaia, que sempre esteve presente dentro da minha casa. Lógico, tive outras influências porque o meu pai nasceu no Paraguai, mas morou muitos anos no Rio de Janeiro e gosta muito de música brasileira. Mas, dentre a música popular brasileira vinda da minha mãe e do meu pai, essa música regional sempre escutei muito. O nosso regional é Tetê Espíndola, a Alzira E, que estão presentes no disco, e o Geraldo Espíndola, de quem sou muito fã também. Ainda que o sertanejo seja muito forte, existe um lugar dentro dessa vertente que é mais originário. Eu acho que isso vem da polca paraguaia, do chamamé e da guarânia.
E em que momento você entendeu que conseguia transformar essa herança em um método mesmo? Não só em referência ou estética, mas em forma de construir o seu trabalho.
Sinto que carrego uma originalidade do jeito de cantar, do jeito de colocar a voz, da forma como trago as melodias, muito ligada a todas essas referências. Mas acho que só com esse disco eu fiz isso de forma mais consciente e intencionada. O FRONT é o início dessa jornada para mim. Em alguns momentos eu estava tratando como uma síntese, e é mesmo a síntese de todos esses anos, mas acho que o FRONT abre uma era de estar mais consciente em relação às referências, às sonoridades e aos ouvidos com que quero dialogar e onde quero chegar.
E que fronteiras você quer trazer nesse disco? Pensando na fronteira como um conceito muito amplo, quais são as que você está trazendo?
Quando comecei a pensar, parti de um conceito geográfico mesmo. Eu não morei na cidade literalmente da fronteira, que é Pedro Juan Caballero, mas a nossa região toda é muito influenciada por toda essa cultura fronteiriça. A minha avó e o meu pai se comunicavam em guarani dentro da minha casa, fora o espanhol.
O FRONT vem primeiro desse lugar geográfico, só que quando começo a pensar sobre isso, percebo que sou uma mina que sempre esteve na linha de frente durante muitos anos da minha vida. Durante muitos anos eu estive na luta mesmo, na militância, nas articulações, nas candidaturas, nas ocupações e nos atos, nos mais pacíficos e nos que nem tanto (risos). Isso para mim também trazia uma coisa do front, que é estar na linha de frente.
Aí me vem também a coisa de romper. Nós somos da fronteira, mas no fundo o que eu mais quero é rompê-las. As fronteiras são linhas imaginárias criadas por uma organização política, mas servem para separar, servem para expulsar pessoas de seus territórios. Mas acho que o FRONT também ultrapassa fronteiras limitantes minhas sobre o que posso fazer com a música e o que posso apresentar para as pessoas. São muitas fronteiras. Cada dia eu descubro uma nova.
Hoje você mora em São Paulo, que é uma cidade de misturas muito doidas e tem diversas fronteiras internas. Como ter se mudado para cá influenciou ou contribuiu com a construção da sua ideia de fronteira e de estar no front?
Essa pergunta é muito boa, porque São Paulo realmente muda a gente e traz muitas coisas. São Paulo relembra a nossa pequenez e isso não é ruim. Relembra que o mundo é muito mais do que a gente, os nossos conceitos e os nossos achismos. São Paulo deixa a gente em estado de alerta e estar aqui foi o que mais me deu vontade de mostrar que eu não sou daqui. Não porque eu não goste daqui, me identifico com São Paulo em vários aspectos, mas foi estar aqui que me levou ao caminho de volta. Sair é muito importante para olharmos para os nossos espaços com outros olhos e perceber a beleza do que a gente já vivia.
Campo Grande é uma cidade muito rica em música autoral, sempre foi. Tem muitos artistas, bandas muito boas e compositores muito fodas. São Paulo reforça em mim a necessidade e a vontade de fazer um caminho de volta e de poder trazer comigo essas coisas. Talvez eu tenha vindo sem elas e eu voltei, falei: "Não, pera aí, vem cá, preciso levar tudo junto comigo". E esse disco é o início, é um start nessa vontade de dialogar com a América Latina, com países hispânicos e com a regionalidade dos espaços.
Vou pegar esse gancho que você fala de recomeço. O Agradece saiu em 2016 e nesses 10 anos, desde o álbum de estreia, o que você precisou abandonar para chegar no lugar em que está agora?
Tentando não ir para um lugar tão subjetivo, acho que consigo falar mais do que tive que reaprender do que abandonar, e vem uma maturidade em vários aspectos. Uma maturidade lírica de composição, de flow, de narrativa, de repertório lírico e palavras. Eu amo trabalhar com palavras para além das melodias. Esse sempre foi um foco meu, tanto de escuta quanto ao fazer minha própria arte.
Tive que abandonar alguns apegos e preocupações extremas com atender as vontades do meu público ou as expectativas das pessoas em relação a mim. Dou muita importância para o que o meu público gosta de ouvir, pensa e sente, mas esse disco foi uma realização muito pessoal. Como mulher, já lancei muita música, mas tem algumas coisas que escuto e me arrependo muito de não ter insistido em algo que eu gostaria mais, de não ter insistido numa mix, num volume ou numa abordagem…
Esse foi um disco que decidi que gostaria de amar. Queria ouvir com orgulho e com satisfação e isso demandou muitos desconfortos ao longo do caminho. Trabalhei com homens muito firmezas, que souberam respeitar esse espaço, mas para além disso, sou uma pessoa hoje que não toleraria não estar com pessoas assim também. Respondi mais com novas visões diante desse trabalho, mas abandonei pessoas, lugares e crenças limitantes sobre mim mesma.
Você falou muito dessa riqueza cultural sonora que vem do Mato Grosso do Sul, e trouxe a Tetê Espíndola e a Alzira E. O que esse encontro de gerações revela sobre essa cena do Mato Grosso do Sul que o resto do país talvez não conheça tanto?
Tem um show em que faço a direção artística e co-direção musical, o Fronteira Guarani, que une o Hermanos Irmão, um trio de violeiros do MS, a Alzira E, o Brô MCs, primeiro grupo de rap indígena do país, e eu. Sempre tive esse apreço por estar caminhando com os artistas da geração que veio antes de mim. Eles foram muito importantes no meu começo, abriram portas, indicaram, ensinaram e ajudaram a escrever editais para começar.
Temos artistas lá da minha geração, ou um pouco depois, que fazem músicas bem regionais. Eu já não sinto que me enquadro apenas na música regional, já trouxe referências de outros países e de outras cenas urbanas. Tem um diferencial, porque o pessoal da geração mais velha não vai tanto para esse lugar do urbano, é um regional mais ligado ao Pantanal, à natureza. A sensação geográfica de habitar ali é muito linda. Temos outra relação com o silêncio, com os rios e com as águas, e a gente não veio do mar. A música regional do Mato Grosso do Sul tem esse cheiro. Se você parar para ouvir a música da Tetê, ela tem som de passarinho que só tem lá. Eu trazer a Tetê e a Alzira para esse disco é para afirmar isso, o quanto eu respeito e o quanto sou fruto dessas pessoas que furaram a bolha do MS e vieram para cá.
Vou retomar o que você falou um pouco antes do reggae como esse gênero com códigos fundamentais. Como é esse processo de desobedecer regras, mas sem deixar que o seu reggae perca o fundamento?
Tenho para mim que dificilmente alguma coisa pode abalar o que eu construí na minha trajetória dentro dessa vertente. Nunca quis ser jamaicana. Sou a menina da fronteira do Paraguai com a Bolívia e com o Mato Grosso do Sul. Não tem como as pessoas quererem que eu seja jamaicana. Mas escuto muito reggae cantado em espanhol. Escuto o reggae do Chile, da Colômbia e da Argentina.
A real é que a gente não passa por essas referências de modo geral. Em geral, escutamos o reggae jamaicano. É óbvio e é lei, mas não sei se necessariamente quebro regras com o reggae. Talvez para quem é mais ortodoxo. Só que dentro do reggae sempre fui muito responsável com as coisas que estou falando. As minhas músicas são muito rastas, porque não estou ali falando de qualquer coisa. Estou falando a partir das minhas vivências, das minhas perspectivas de existir neste século, de ser uma pessoa dos anos 90, vinda de onde vim, colhendo tudo que entendi dessa música.
Um ponto legal é que minha primeira referência no reggae é brasileira, bandas como Ponto de Equilíbrio, que estão no disco. Sempre estivemos na linha de que precisa falar sem recuar nesse debate. A regra que eu poderia ter quebrado e escolhi não quebrar é que o reggae é uma música dos guetos para os guetos, para falar sobre as coisas que o povo precisa. Dentre as regras do reggae que acho que não tolero quebrar, são essas: a narrativa e o baixo e bateria originais, e um bom bass.
Aliás, a faixa com o Ponto de Equilíbrio é animal, uma delícia de ouvir.
Que é Roots! Fiz essa música depois que assisti a um show deles. Foi ano passado ou o ano retrasado no máximo que fiz essa música. Foi uma das últimas do disco. Eu me vi no show sabendo cantar todas, e aí veio essa música. Uns dois dias depois eu fiz ela.
Já que falou de ordem de composição, vou falar de uma das primeiras, com o Chico César. Li que ela levou quase 8 anos até chegar à versão final, é isso?
Quando eu estava me mudando para São Paulo, foi uma fase que estava muito próxima do Chico, tínhamos amigos em comum naquela época e foi uma vivência especial. Depois de nos conhecermos, o Chico me mandou pela DM do Instagram um vídeo cantando: "Não deixe que digam, que pensem". Lembro até hoje da melodia e falei: "Eu só precisava disso. Não fale mais nada". E continuei a música. Na época gravamos um vídeo, era outra letra, mas guardei isso para sempre. Falei que não iria lançar à toa e que algum dia viria junto com um compilado de canções especiais. Quando ela surgiu, eu ainda não sabia que viria nesse disco, com essa abordagem e intenção. Sabia que viria em algum disco meu e ficou guardadinha para esse momento.
E mudou muita coisa desde a primeira versão?
Algumas frases eu mantive, por exemplo: "Na casa da desordem mora a revolução", é uma frase que o Chico tinha adorado quando criei. Falei: "Essa frase tem que voltar". Mas mudei bastante a melodia e trouxe outras coisas. Ela era uma letra mais subjetiva e eu quis trazer mais objetiva, porque o Chico é muito objetivo.
Já que puxei o Chico, paraibano, vou trazer uma outra referência, não sonora, mas visual, que é o figurino da tua capa. As Cangaceiras Futuristas, duas mulheres baianas, que contribuem para contar a história do FRONT. Como essas linguagens se cruzam e como essas referências de outras mulheres de fronteiras distantes ajudam a contar essa história?
Fui até as cangaceiras principalmente porque eu tinha uma sensação de orgânico, de uma coisa que não era plástica, com esse aproveitamento de tecidos. Sempre fui da onda do aproveitamento dos brechós e desse rompimento com as grandes marcas. Além de trabalhar com duas mulheres muito talentosas que admiro muito, elas são artistas da moda mesmo. Levei as minhas referências e, nesse look, a gente tem um detalhe de um aguayo boliviano na saia, uma parte amarela que recortei do look que usei no Lollapalooza em 2025… Tem uma bandeirinha do Paraguai escondidinha, um Brasil escondidinho, broches feitos com latas de refrigerante e fotos das minhas duas avós e das minhas duas filhas na minha roupa. Se dar um zoom, dá para ver. São jeans que a gente reaproveitou, tecidos de algodão que elas tingiram com casca de cebola roxa e branca.
Traz uma referência maximalista que dialoga com as cores da América Latina. Amo a estética que sempre trouxemos do reggae, do verde musgo, do amarelo ocre e do vermelho, mas para esse disco eu queria trazer mais cores e mais informação. As cangaceiras têm tudo a ver por essa identificação de povo, de rompimento de fronteira e de ser latina demais. Fui atrás de gente que é latina demais, e a Bahia é latina demais. Acho que por isso que deu match também.

Vou fazer a última pergunta. Quando alguém ouvir o teu disco de ponta a ponta, se pudesse escolher uma única coisa que você quer que a pessoa entenda sobre você depois que concluir a audição, o que seria?
Acho que sobretudo eu gostaria de escancarar meu orgulho de ser de onde sou e de sermos da América Latina, da América do Sul e de Abya Yala. É isso que eu gostaria de despertar nas pessoas. Gostaria de reafirmar que as pessoas sentissem essa originalidade e esse orgulho de fazerem parte desse mesmo território. E também perceberem que sou diversa. Sou cantora, gosto de falar e cantar sobre várias coisas, mas não recuarei de pautas e lutas, pois não posso perder esse espaço que tenho para falar.
Bem foda, porque falar de América Latina tem ficado um pouco mais vivo hoje em dia, né?!
Tem mesmo, está no momentão. Um ponto que achei muito legal é que, no fundo, a gente estava com receio de soltar as músicas nesse momento do Brasil, mas as quatro músicas que soltei até agora dialogam diretamente com tudo. Isso me dá muito orgulho e fico feliz de saber que faço arte para narrar o tempo que estou vivendo.