O homem que revolucionou as camisas de futebol nos anos 90
Como o designer Drake Ramberg e seu time na Nike transformaram o design de camisas e ajudaram moldar a estética dentro dos campos de futebol até hoje
Toda temporada do futebol é marcada por eventos canônicos: as contratações, os planos dos clubes, a renovação ou não de jogadores e comissão técnica, as melhorias dentro do futebol e, não menos importante, quais serão os novos designs dos uniformes que entrarão em campo.
Hoje, a camisa de futebol tem um lugar cult na prateleira de aficionados por esporte e também por amantes do fashion, uma vez que adentrou o guarda-roupa, as passarelas e as ruas das cidades mais fashionistas do mundo todo. A gente já falou aqui na ISMO sobre essa relação dos dois mundos, futebol e fashion, mas também vale falar das pessoas que são responsáveis por esse desejo: os designers, responsáveis pelos kits e por eu e você querermos comprar tudo que sai cada ano.
Nesse quesito, um nome se destaca: Drake Ramberg, que trabalhou na Nike de 1986 a 1996 e ajudou a definir o visual do futebol da época, com contribuições que iam além dos escudos, patrocinadores e números nas costas.
Drake Ramberg é uma figura importante no design esportivo, com kits que encapsulavam o espírito dos anos 90 do futebol. Trabalhando para a Nike na Europa, Drake conseguiu trazer o ethos da época no visual dos clubes e seleções que eram patrocinados por ela, fazendo com que alguns deles fossem eternos, como os do Arsenal, Borussia Dortmund, PSG e seleções da Nigéria e Itália - kits que hoje são cults e valem algumas centenas de dinheiros nas mãos de colecionadores e resellers.
Seu trabalho não foi só no futebol, trabalhando com times de futebol americano e até redesenhando o logo Flight, da linha Air Jordan, em 1988.

Designs que revolucionaram e marcaram época
Se os anos 90 no futebol carregam uma aura mágica, parte disso também é pelas camisas usadas na época. Trabalhando com clubes e seleções que a Nike patrocinava na época, Drake percebeu uma liberdade criativa por serem uma marca menor no futebol comparada às concorrentes, como a Umbro, Kappa e adidas. Em entrevista para o canal CLUBELEVEN, Drake conta que a Nike levava um olhar norte-americano para o futebol que ainda não tinha sido tão difundido: “nos EUA tinham os Yankees, Raiders, apelidos dos times que eram bastante explorados nos designs e no futebol isso não era feito com frequência; por exemplo, pegar o apelido do Arsenal, os Gunners, e transformar isso em design”.
A Nike e o Drake pegaram essa lacuna de criatividade que existia no futebol europeu e transformaram em simbologia. Um dos sucessos da marca no futebol começou dessa fagulha de criação, transformando kits comuns em ícones do design e mostrando que a camisa poderia ter muito mais do que só as cores do clube. Drake percebeu nas camisas uma tela em branco para ousar, brincando com golas, relevos, patterns, mangas, palavras e imagens. Mesmo as camisas de uma cor só ou de poucos detalhes ao ver de longe, e perto traziam algum elemento que ia além.

Os exemplos são diversos e no tempo que trabalhou junto do Borussia Dortmund, o simples fato de usar um amarelo mais neon do que o normal do clube fez com que a camisa se destacasse nas transmissões dos jogos e ganhassem status de ícones cult.



Com o Borussia, ficou de 91 a 95 e essa de 1993 trazia o número na diagonal
Com o PSV, da Holanda, as camisas com o design do Drake Ramberg foram as primeiras usadas pelo Ronaldo no clube, se tornando também icônicas e fazendo parte de uma das trajetórias mais legais do futebol.

“A gente costumava brincar que colocar uma gola na camisa era um jeito do torcedor usar no pub ou na igreja” - Drake Ramberg
Com a Nigeria, Drake entrou para a história, já que com seu design (e com o talento do time, é claro), a seleção foi responsável por conquistar as Olimpíadas de 1996. A camisa trazia uma águia no peito, o Nike centralizado com o nome do país e uma gola desenhada. Histórica.

Para o Drake, era muito mais sobre se sentir premium com uma camisa do que só torcer no estádio: “minha ideia era a pessoa olhar a camisa num retail e ser impactado com um bom escudo, com detalhes nas mangas, logos nas costas… Coisas que levavam a crer que era algo pensado e autêntico”.
O ontem e o hoje
Uma coisa que vale refletir sobre como era o design nos anos que o Drake ficou na Nike para os dias atuais é que muita história estava sendo contada naqueles anos, enquanto hoje a gente celebra essas histórias nos kits dos times. Por exemplo, em 2025, o São Paulo trouxe uniformes que celebram 20 anos das conquistas de 2005, da Libertadores e do Mundial, enquanto nos anos 90, times e marcas exploravam um espaço inédito, cheio de possibilidades e de caminhos criativos, uma vez que ainda estavam conhecendo esse mundo do design esportivo com maior ênfase.
Se a gente parar pra pensar, o fim dos anos 80 e o começo dos 90 nas marcas foram cruciais para o aprimoramento de materiais e para o design enquanto ferramenta de consumo, não só trazendo tecnologias que melhoravam a performance, mas que também eram apelativas nas prateleiras. Um bom exemplo é o Air Jordan, de 1985, tênis que revolucionou por suas cores e estilos - consequentemente sendo ótimo nas vendas e uma linha que segue viva até hoje.
Voltando ao futebol, em entrevista para a mídia Showboat Kits, Drake comenta que naquela época “não tinha fórmula a não ser fazer certo e celebrar histórias que talvez não tinham sido contadas ainda”.
Se hoje as camisas são cult e extrapolam os limites dos estádios, o design dos anos 90 foram cruciais para que se criasse toda uma atmosfera em cima desses kits. Hoje a gente tem lojas especializadas no mundo todo, canais de conteúdos específicos só das camisas, colecionadores famosos, vendas absurdas… Os “grails” muitas vezes são camisas dos anos 90 e, tão comum quanto, são camisas de design do Drake, como a do Arsenal away, da temporada 95-96, com o Arsenal na parte da bunda - sim, brincaram com o Arse (traseiro em inglês), no traseiro da camisa.

Em 2025 Drake anunciou sua aposentadoria depois de 37 anos trabalhando no mercado esportivo e se diz um colecionador de camisas, coletando suas criações e de designs que gosta. “Eu sou o colecionador que usa as camisas, não consigo botar numa caixa e deixar de colocar”, ele comenta. “É algo que eu tenho orgulho, ter feito camisas que são icônicas pra mim e pra muita gente”.


A camisa de goleiro com estrela feita por Ramberg, ícone do futebol dos anos 90 que retorna para as camisas de goleiro da próxima Copa do Mundo em 2026