O Brasil não ganhou uma colab pra Copa e eu tentei adivinhar por quê

Não falta marca brasileira interessante, mas talvez falte uma ponte mais sólida com a Nike (ou talvez a estratégia fosse outra desde o começo)

O Brasil não ganhou uma colab pra Copa e eu tentei adivinhar por quê

A Nike apresentou a X2, sua coleção de colabs de futebol para a Copa do Mundo, juntando seleções nacionais a marcas e criativos que circulam entre moda, rua e cultura pop. Canadá x NOCTA, Inglaterra x Palace, França x Jacquemus, Holanda x Patta, Nigéria x Slawn, Coreia do Sul x PEACEMINUSONE e Estados Unidos x Virgil Abloh Archive. Quase todos nomes que, de um jeito ou de outro, já tinham uma relação anterior com a Nike ou já estavam muito bem posicionados no imaginário global do streetwear.

Em todos os posts nas redes sociais sobre a lista, vi o brasileiro perguntando “cadê o Brasil?” e, num primeiro momento, achei a pergunta meio óbvia. Depois, achei menos. Porque quanto mais eu olhava para os nomes envolvidos, menos parecia uma disputa sobre qual marca brasileira “merecia” estar ali. A pergunta era mais chata, e talvez mais interessante: que tipo de relação uma marca precisa ter com a Nike para entrar numa conversa global desse tamanho?

Nos comentários, apareceram nomes que fazem sentido: PACE, CARNAN, Dendezeiro, HIGH Company, Mad Enlatados, PIET. E não é como se essas marcas vivessem isoladas, esperando alguém descobrir que o Brasil faz roupa. Algumas já têm repertório de colaboração com grandes esportivas. CARNAN, PACE e PIET, por exemplo, já passaram pela ASICS em projetos recentes e contínuos de tênis e coleção. É óbvio que existem marcas brasileiras capazes de dialogar com outros universos e não é só a gente que sabe. Mas por que será que essa ponte, no caso da Nike, parece não ter sido construída a tempo de entrar numa conversa global desse tamanho?

Hipótese #1: a Nike não tem um parceiro deste tamanho no Brasil

Minha primeira aposta é a mais pragmática. Talvez a Nike não tenha, no Brasil, uma parceira criativa tão sólida dentro do seu próprio ecossistema quanto os nomes escolhidos lá fora. Isso não quer dizer que as marcas brasileiras sejam menores em criatividade ou relevância. Essa leitura seria rasa, preguiçosa e, sinceramente, errada.

O ponto é outro. Uma coisa é ter uma cena forte, outra é ter uma relação construída com uma marca global. Quando a gente olha para os nomes escolhidos pela Nike, nada apareceu ali ontem. NOCTA já é praticamente uma extensão da própria Nike. Patta tem uma história longa com a marca, com mais de dez parcerias ao longo dos anos. Jacquemus já vem de uma sequência de colaborações há algumas temporadas. Palace, mesmo tendo sido por muito tempo associada à adidas, chegou à Nike antes dessa rodada, com um projeto próprio de futebol e comunidade em Londres.

No Brasil, existem marcas com linguagem, desejo e capacidade de colaboração. Mas existe hoje uma parceira brasileira da Nike com esse nível de intimidade, repetição e construção internacional? Olhando de fora, eu diria que não. Não falta marca brasileira interessante, não me entenda mal! Falta, talvez, uma marca brasileira que a Nike tenha ajudado a construir como parceira global. Percebe a diferença?

Hipótese #2: talvez a estrutura brasileira complique o caminho

Tem também uma camada estrutural que não dá para ignorar. A Nike no Brasil não funciona exatamente como uma operação comum da Nike global. O Grupo SBF (da Centauro) opera a Nike no Brasil sob o nome Fisia desde 2020, como distribuidor exclusivo dos produtos Nike no território brasileiro, além de operar o e-commerce e as lojas físicas da marca no país.

Não estou dizendo que a Fisia travou alguma coisa. Não tenho essa informação. Mas, se a operação brasileira está muito ligada à distribuição e ao varejo, e uma colab de Copa parece envolver Nike Football, federação, campanha global e canais internacionais, onde exatamente essa conversa sobre cultura brasileira acontece? Acontece aqui? Acontece fora? Acontece em algum lugar entre os dois?

Talvez o gargalo não seja “o Brasil não tem marca boa”. Talvez seja o fato de que o caminho entre uma marca brasileira e uma plataforma global da Nike passa por estruturas que não estão exatamente aqui, ou que não foram desenhadas para desenvolver esse tipo de parceria. E aí a ausência deixa de parecer só uma escolha criativa e passa por decisões comerciais bem maiores.

Hipótese #3: a estratégia de trabalhar a Jordan Brand se sobressaiu à coleção X2

A terceira hipótese é a mais simples: a estratégia global para a Seleção foi outra desde o começo. Enquanto a coleção X2 juntou sete federações a grandes nomes do streetwear internacional (escolhidos de acordo com a geografia), o Brasil apareceu por outro caminho: Jordan Brand.

E, pensando friamente, dá para entender a lógica. Enquanto todo mundo tenta construir mitologia no futebol, o Brasil já chega com uma pronta. “Todo mundo tenta mas só o Brasil é penta”, certo? Talvez a Nike tenha olhado para a Seleção Brasileira não como mais uma federação precisando de colab, mas como uma propriedade cultural forte o bastante para receber um tratamento separado. A coleção Jordan x Brasil foi anunciada com camisa 2, Pro Pack e coleção streetwear, com lançamento em canais digitais globais e lojas físicas pelo mundo - bem antes do anúncio da coleção X2.

Nesse cenário, a ausência de uma marca brasileira não seria exatamente falta de prestígio. Poderia ser o contrário: o Brasil colocado em uma prateleira própria, que continua sendo assinada por uma marca global. Dá para achar a jogada forte e ainda assim se perguntar o que ela deixa de fora. Jordan pode ter sido a grande colab do Brasil... Mas não foi uma colab brasileira (e a galera sentiu).

O que a ausência deixa ver

Pode ser que seja um pouco de tudo isso. Pode ser que não seja nada disso. Pode ser só uma decisão que passa por lugares que eu nunca vou acessar. Mas a pergunta está aí.

O incômodo aparece justamente porque não faltam marcas brasileiras interessantes, que já sabem colaborar com marcas globais, e porque o Brasil tem uma relação com camisa de futebol que vai muito além do jogo.

Talvez Jordan tenha sido mesmo a jogada mais forte. Mas a pergunta continua aberta: se o Brasil é grande o suficiente para ser exceção, quando vai ser grande o suficiente para assinar junto?


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