Antonio Cicero foi o poeta hitmaker
O Imortal conhecido pelos poemas e livros filosóficos, foi responsável por alguns dos hits mais famosos da nossa música popular
Tem uma cena, imaginária, claro, que resume bem o que eu quero contar aqui. Alguém no karaokê, depois de tomar umas, colocando Fullgás (1984) pra tocar e a galera cantando "você me abre seus braços, e a gente faz um país" com uma empolgação de quem sente que a letra foi escrita pra si. E aí, se você perguntasse para essas pessoas quem escreveu aquilo, a resposta mais provável seria "sei lá, a Marina Lima?".
Resposta errada. Por trás da voz, sim, é a Marina, mas por trás da letra está um nome que o Brasil conhece de um outro rolê. Antonio Cicero, poeta, filósofo, imortal da Academia Brasileira de Letras, cadeira 27, para ser mais exato. A gente já escreveu aqui sobre outros gênios que trabalharam nos bastidores da nossa música, tipo o Eumir Deodato e o Paulo Sérgio Valle, mas o caso de Cicero é um pouco diferente porque não ele não é como se ele passasse batido, ele só é lembrado por outra coisa. O Brasil lembra do escritor e esquece que essa mesma pessoa deu voz a toda uma geração através da voz da irmã.

A história começa em 1975, quando Marina, ainda engatinhando como cantora, musicou um poema do irmão chamado Alma Caiada. Dois anos depois, Maria Bethânia gravou uma versão, que a censura da ditadura proibiu de ser lançada. A canção só chegou ao público em 1979, num disco da Zizi Possi. Ou seja, de primeira os irmãos já se mostravam uma dupla dinâmica, pensando na linguagem, e ela na melodia.
O legal e curioso é que essa relação se inverteu com o tempo. Cicero já disse que raramente escrevia poemas pensando em músicas. Na maioria das vezes o processo era o contrário, ele pegava as melodias prontas dos parceiros e só então escolhia as palavras que encaixavam no meio. Ouvindo o (ótimo) 168º episódio do podcast 451 MHz, no qual alguns convidados, incluindo Marina, leem poemas de Cicero, dá para perceber uma naturalidade rítmica na escrita, parece que encaixam muito fácil em qualquer tempo.
Mas o que eu acho mais bonito nessa história toda não é só a lista de sucessos (embora ela seja gigante), é perceber que dava pra rastrear, dentro das letras, os mesmos temas que ele ia desenvolver décadas depois nos ensaios filosóficos que o levaram pra Academia Brasileira de Letras. O cara era filósofo ao mesmo tempo que era letrista. Não tinha uma função principal e a outra como um freela. Era a mesma cabeça funcionando em dois fluxos.
Pega o próprio nome Fullgás. O trocadilho do título, por mais simples que seja, é uma poesia. O efêmero, fugaz, passageiro, e o tanque cheio, pronto para uma viagem longa. Acho que isso bateu pra quem ouviu na época porque foi uma geração que estava aprendendo a conviver com a consciência de que tudo passa, e sobre como a arte funciona para dar contorno a experiências, como um registro mesmo. O disco de 1984 já carregava, no título, uma ideia que muita gente tenta explicar ou entender durante a vida toda: urgência e consciência de que tudo é passageiro.
Outro ponto importante para essa música é o contexto histórico. 1984 foi o auge da campanha das Diretas Já, com o país inteiro pedindo eleição direta depois de vinte anos de ditadura militar. O verso que citei no começo do texto, de juntos fazermos um país, é uma alusão clara ao movimento. Para deixar mais claro, Marina aparece no vídeoclipe da música, usando uma camiseta pedindo: “Brasil, urgente, diretas pra presidente”. A faixa é uma canção de amor, e ao mesmo tempo o retrato de um país tentando se mexer depois de duas décadas andando com o pé no freio. Faz sentido que tenha terminado como uma das dez músicas mais tocadas nas rádios brasileiras naquele ano.
Fora desse momento específico, mas não totalmente, como um bom poeta Cicero gostava de escrever sobre amor, mas fazia isso pela lente da contradição, da antítese. Em A Chave do Mundo (1979) o amor é fogo, como no poema de Camões, necessário, simples, mas pode machucar. Em O Último Romântico (1991), parceria com Lulu Santos, o amor resiste, mesmo contra a vontade de quem ama. É aquela velha história, que por mais que seja uma escolha, uma decisão, também faz parte aceitar a parte que não se controla.
Gosto também como ele brinca, de forma irônica, com essa postura blasé que algumas pessoas constroem e alimentam, na música Água Perrier, famosa na voz de Adriana Calcanhotto. A letra coloca uma pessoa deslumbrada e que vê graça em tudo, em contraposição à uma pessoa que finge não ter interesse em nada. Todo mundo conhece alguém que performa tédio e indiferença quase como uma estética montada a dedo, né?! Essa música é um pouco sobre isso.
E aí tem o oposto disso tudo em Charme do Mundo (1981), que fala sobre o encanto com a vida, essa coisa de se impressionar com tudo, mesmo que seja banal. É como se Cicero quisesse caminhar entre o tédio e o fascínio, para entender o quanto o amor resiste ou se ele depende de novidade o tempo inteiro para continuar funcionando. E nesse caminho ainda tem À Francesa (1989), que é justamente sobre esse momento quando alguém cansa e cai fora, e é preciso lidar com o desapego, mas como isso pode servir de combustível para se viver novas experiências.

Apesar de citar muitas músicas feitas para a irmã, Cicero também trabalhou com e para muito mais gente. Teve trampo com João Bosco e Waly Salomão, com quem escreveu Saída de Emergência (2006), com Maria Bethânia, Gal Costa, Ney Matogrosso e Zeca Baleiro. Cada parceria puxava para caminhos diferentes, mas a caneta era sempre a mesma, colocando poética independente do terreno.
Essa clareza e harmonia que existia entre o Cicero compositor, poeta, e o Cicero filósofo, era uma obsessão declarada por ele. Enquanto lançava as pedradas, letra atrás de letra, ele seguia alimentando o currículo intelectual com livros premiados no mundo todo. Teve finalista do prêmio Jabuti sobre crítica literária, teve papo cabeçudo misturando Kant, Hegel e Heidegger, teve poesia pra cacete, fora as colunas publicadas na Folha de S. Paulo durante o final dos anos 2000. Alguns anos depois, todo o trabalho rendeu a ele a cadeira 27 da Academia Brasileira de Letras. E escrevo tudo isso não para dizer que existia um lado mais “intelectual” e outro mais “comercial” nas produções de Cicero, porque me parece que ele via tudo com o mesmo peso e colocava o mesmo esforço em tudo, sem fazer juízo de valor.
Acho que o maior feito de Antonio Cicero tenha sido provar, muito antes da gente querer discutir o que é cultura de massa e cultura erudita, que música música boa também é poesia, e que dá pra levantar as mesmas questões filosóficas em um texto acadêmico, em um ensaio ou em um refrão chiclete para ser cantado no karaokê. E olha só, às vezes essa filosofia é cantada por gente que nem imagina o nome de quem a escreveu.
