Windmill Brixton é o bar mais legal do Reino Unido

Como uma pequena casa de show se tornou a Meca do novo rock britânico

Windmill Brixton é o bar mais legal do Reino Unido

Em pouco menos de um mês, a banda Shame, um dos nomes ainda em atividade da cena que remodelou o rock britânico, desembarca no Brasil. A escolha do Cine Joia para o show em São Paulo não poderia ser mais acertada, afinal, o grupo construiu sua identidade justamente em palcos pequenos, intimistas e cheios de história.

Apesar do histórico com saldo bem positivo, há de se reconhecer que a cena musical do Reino Unido, ao longo das últimas décadas, passou por ciclos de saturação e renascimento. Depois do boom do indie rock dos anos 2000 com bandas como Arctic Monkeys, The Kooks e Franz Ferdinand, e o esgotamento da fórmula, a década de 2010 viu uma pulverização de gêneros. Nesse grupo que aqui vou chamar de rock, hardcore e post-punk, o que se notou foi um ar de repetição e, em alguma medida, uma “polidez” estética em excesso. Faltava aquela coisa crua, meio suja, e uma pitada de paixão juvenil que ajudaram a definir os gêneros nos primórdios. 

Ao mesmo tempo, o cenário estava com décadas de maturidade, se tornando rígido demais para uma ruptura. Mas como tudo o que é sólido pode derreter, o panorama social pós-Brexit, marcado por incertezas políticas, desilusão social, doutrinas anti-migratórias e a pressão econômica sobre os mais jovens, serviu de caldo para que uma galera verter a ansiedade em uma música novamente desafiadora. É nesse contexto que aparece o The Windmill, um pub com capacidade pra cerca de 150 pessoas localizado num cruzamento discreto do distrito de Brixton, em Londres, e que se tornou o catalisador dessa nova onda musical.

Longe da mercado mainstream da capital britânica, o pub fundado nos anos 1990 começou a construir sua história na musica em meados dos anos 2000 e caiu nas graças da galera por sua curadoria e proximidade com a cena. Por ser localizado em Brixton, bairro com uma forte comunidade afro-caribenha, a diversidade também sempre fez parte do local e, somando isso a uma política de portas abertas, passou a ser visto como ambiente seguro e fértil para a experimentação artística.

Mais do que um pub ou casa de show, o Windmill funcionou como laboratório e ponto de encontro para jovens músicos dispostos a atravessar as linhas que definiam o post-punk, o rock experimental, o jazz contemporâneo e outros gêneros. Se antes sobrava polimento, agora faltava verniz, e o som cru, que para alguns era estética de vanguarda, transformaram o pub no coração de uma cena propria que passou a ser chamada de “Windmill Scene”.

É possível traçar um paralelo entre o The Windmill e o CBGB & OMFUG (Country, Bluegrass and Blues and Other Music For Uplifting Gormandizers), de Nova York, algo que não é só saudosismo, mas o reconhecimento da função cultural e do papel vital que lugares assim promovem para cenas.

O clube fundado em 1973 tinha como objetivo inicial ser, como o próprio nome diz, um local para country e blues, principalmente, mas (in)felizmente falhou nesse objetivo e começou a bookar banda e artistas de fora do circuito tradicional, e estou falando de nomes como Television, Patti Smith, Ramones e Talking Heads. Assim, se tornou sem querer querendo, um dos berços do punk e da new wave americanos. Tudo isso em um ambiente cru, meio sujo, atmosfera bem diferente dos salões de rock.

O Windmill cumpre essa mesma função antagônica e incubadora. Ambos são espaços simples, fora do circuito centralizado e mainstream, que priorizam a autenticidade em detrimento de uma produção certinha demais. Se o CBGB permitiu o nascimento do punk, o Windmill permitiu o surgimento dessa nova safra de rock britânico, que abraça a complexidade rítmica e lírica, criando um post-punk experimental que responde em tempo real, ao vivo e em bom som ao clima da Grã-Bretanha contemporânea.

Mas não vejo como um renascimento, mas a recalibração do que o rock, especialmente o experimental, pode ser hoje em dia. Talvez a maior contribuição da cena seja a normalização da complexidade, permitindo que públicos mais amplos encarem com ouvidos menos enviesados o som feito. Bandas como Black Midi não tratam o math rock como um nicho, mas como um instrumento expressivo para a ansiedade contemporânea.

Apesar da caixa que uso aqui, a Windmill Scene é estilisticamente bem diversa, unida mais pela sensação de desconforto para criar e pelas performances intensas do que por um gênero específico. Mas elementos como estruturas musicais menos convencionais um dos pontos de unificação. A ruptura com o minimalismo do indie e a aproximação ao jazz, fusion e até o krautrock, mas com uma roupagem jovem, moderna e eu diria popular parece contraditória, já que o hit não é bem o objetivo, mas isso só é possível graças a postura das bandas e artistas.

Black Midi, por exemplo, é tecnicamente absurda, mas faz isso de forma frenética e fazendo mudanças rítmicas abruptas. Trazem várias influências do noise e do jazz e são a figurinha mais virtuosa e caótica do movimento.

Já Black Country New Road, teve uma primeira fase com o vocalista e guitarrista Isaac Wood que fazia um som meio post-rock com letras faladas e não cantadas, e após sua saída ganhou contornos mais teatrais, com violinos e saxofones.

Squid é a galera mais dançante, meio Talking Heads das ideias mas com vocais ríspidos e uma agressividade acima da média, e Shame é o primo rebelde com pegada mais direta e politizada, energia visceral e letras sobre o cenário social britânico.

Essas bandas não apenas se apresentaram no Windmill, mas cresceram juntas, trocando membros entre si, compartilhando ideias, abrindo shows uns dos outros quando o sucesso foi chegando e foram ganhando. A colaboração e a proximidade geográfica — não obrigatória, já que os irlandeses do Fontaines D.C. também faz parte do clubinho — cimentaram a coesão da cena, permitindo que a experimentação de um grupo influenciasse diretamente o próximo.

O Windmill Brixton provou que, mesmo na era digital e da superprodução, o local físico de encontro e a curadoria dedicada de uma pequena casa de shows ainda são a força vital capaz de incubar a próxima grande onda de inovação cultural.

Se ainda não garantiu seu ingresso para o show, corre que ainda tem alguns disponíveis e ainda separamos essa playlist aqui com sons do Shame e de outras bandas da cena para se preparar para o caos que os caras prometem entregar no Cine Joia.


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