Wasted Rita transforma crise urbana em vitrine
Em sua primeira instalação em São Paulo, a artista portuguesa ocupa a Surplus, na Galeria Metrópole, com uma falsa imobiliária que transforma especulação, pertencimento e exaustão em linguagem visual
No meio do mês passado, Wasted Rita, artista visual portuguesa que estourou na época do Tumblr, inaugurou a sua primeira instalação em São Paulo, na Surplus, dentro da Galeria Metrópole. O trabalho, acompanhado de texto crítico assinado por João Simões, procura conectar a linguagem da artista com a proposta do espaço – uma vitrine localizada no subsolo do edifício que recebe projetos que lidam com a relação entre arte e commodity, mercantilização dos espaços culturais públicos, a sedução da propaganda capitalista e o fetiche da mercadoria.
A ocasião é, também, a primeira vez em que a artista apresenta obras em língua portuguesa, além de uma em espanhol. "Não queria elitizar este primeiro contato, muito menos numa instalação num espaço tão aberto ao público e que pretendia abordar coisas que irritam toda a gente", conta Rita, que traz em Real Estate Real State uma provocação sobre as ideias de pertencimento, circulação e valor, partindo da linguagem visual de agências imobiliárias e deslocando de função os seus códigos mais reconhecíveis.
"Em vez de vender o latte matcha ou croissant de amêndoa – que a internet transforma em bens de consumo globais e símbolos de identidade desejáveis – eu falo sobre estar farta disso, e talvez outras pessoas que se sintam fartas disso se sintam mais seguras por saberem que há mais pessoas fartas disso."

A instalação nasce do cruzamento das vivências e da linguagem direta e irônica de Rita com o funcionamento e ecossistema da Galeria Metrópole – lugar de passagem, comércio, arquitetura e memória urbana – e porque não, de São Paulo como um todo, criando, de maneira ácida e assertiva, um jogo entre mercado imobiliário e estado emocional, expondo fissuras, desejos e instabilidades.
"A Surplus já parte dessa proposta de brincar com a tensão entre espaço mercantil e espaço cultural. Vinda de Lisboa — onde restam cada vez menos espaços pertencentes a pessoas locais e onde se tornou quase impossível alugar um ateliê ou abrir um negócio sem vir de um contexto familiar financeiramente confortável, a Metrópole fascinou-me desde o primeiro dia em que entrei.
Há qualquer coisa naquela mistura de livrarias políticas, restaurantes típicos e espaços comerciais hiper “tiktoktáveis”, tudo concentrado num lugar tão visualmente impactante, no centro da cidade, que me deu uma percepção, talvez ingênua, de que ainda existe espaço para São Paulo continuar a ser São Paulo, no meio de tanta gentrificação. Foi precisamente dessa reflexão — sobre quem ainda tem direito ao espaço dentro de cidades constantemente exploradas pelo mercado imobiliário e pelo turismo — que nasceu a ideia de criar a vitrine de uma falsa imobiliária.
Nasceu da existência numa cidade destruída pela especulação imobiliária, orientada para o turismo e para o investimento privado, sem qualquer preocupação real com as pessoas. Sobre assistir ao declínio das cidades e à erosão das suas identidades coletivas. Sobre passar anos a absorver e a experienciar instabilidade habitacional, e perceber como isso tem implicações profundas não só na identidade individual de cada pessoa, mas também na saúde mental de populações inteiras. E sobre a forma como tudo isto acaba por influenciar o desenvolvimento de diferentes gerações e, consequentemente, o próprio futuro da cidade", explica a artista.


A trajetória de Rita na arte começou na internet, com o Tumblr, num momento mais livre e cheio de possibilidades. Com o passar do tempo, a sua arte evoluiu e se espalhou para diferentes suportes, sem perder as características desse momento inicial. Hoje, a internet não funciona do mesmo jeito, e cada vez mais deixa de funcionar como um potencializador e aparece mais como um modelo meritocrata e inconsistente, como conta a artista:
"Eu acho que a internet hoje é muito mais chata. E por chata entenda-se hierárquica. A introdução do algoritmo deixou a internet – um espaço de sonho – uma diferente, mas sempre falsa, meritocracia.
Torna-se exaustivo andar atrás de atenção e reconhecimento dos senhores que decidem se a sua interação na internet é regular o suficiente, se publica nas horas certas, se evita palavras na legenda que prejudicam o seu alcance, entre outras regras confusas que deve seguir para ser recompensado.
Faço parte da primeira geração de pessoas que começou a criar a sua identidade — ou identidades alternativas — na internet, com o mIRC, MSN messenger, fotologs e, mais tarde, myspace. Esses primeiros momentos de exploração identitária eram mais genuínos, talvez por serem tempos mais ingênuos, mas sobretudo porque ainda não existia este potencial de mercantilização associado a tudo o que existe online."

Para refletir tudo isso dentro da instalação, Rita se apropriou dos códigos do mercado imobiliário, mantendo o vocabulário da venda – carregado de promessas e slogans – mas subvertendo a sua lógica. "Interessa-me a apropriação destes símbolos visuais para distorcê-los. Em vez de promessas de futuro, anunciar vulnerabilidades, contradições e afetos instáveis; em vez de segurança e estabilidade, propor incerteza, excesso de consciência e humor como forma de resistência.
Interessa-me essa tensão entre o real e falso, e cruzar temas como amizade e corporate, tristeza e tesão, precariedade e ambição — contaminadas por cultura pop, linguagem de internet e pela estética de propaganda. Tratar a vitrine como um espaço simultaneamente de exposição e venda, de desejo e promessa", explica ela.
Sendo o primeiro projeto da portuguesa em São Paulo, Real Estate Real State inicia diálogos, rompe com as expectativas e funciona entre o mundo real e o imaginado – efeito reforçado pelo texto sonoro reproduzido no telefone preso à vitrine. A instalação segue aberta para visitação até a próxima sexta-feira, e vale muito a pena para quem puder passar por lá.
"Não estamos propriamente a vender sentimentos, apenas a expô-los. Deixa de ser uma troca de capital para passar a ser uma troca humana.
Acho eu. Espero eu."
Wasted Rita: Real Estate Real State
Instalação na vitrine Surplus. Texto crítico: João Simões
Visitação até 5 de junho
Surplus: Galeria Metrópole - av. São Luis, 187 - subsolo. República, São Paulo