SonoTWS coloca o boombap underground em foco em novo disco
Se Não Sabe Agora Sabe, Vol.1 conta com 15 MCs do boombap underground, em uma verdadeira celebração do hip-hop brasileiro
Na última sexta-feira, 27/03, SonoTWS, beatmaker original de Jundiaí, SP, lançou Se Não Sabe Agora Sabe, Vol.1, disco colaborativo com 15 MCs que registra o melhor do que tem rolado no boombap underground nacional. Ao longo das 13 faixas, as batidas recheadas e potentes recebem as barras de Kong Cutz, Thestrow, Alra Alves, Ca$hline, Bonsai, Caio Ocean, Eveline PJL, Qualqpa (Def e Pneu), nabru, Baby Moi, Ak'him, VECTOR COLETIVO DELTA, sopapreta, yung vegan e $CARPA, nomes que têm movimentado a cena com muita autenticidade.
"A parada não é só minha. São 15 MCs, 15 sonhadores — eu me incluo nisso, então 16. Mostrar cada vez mais o nosso trabalho, o trabalho do corre independente, o corre underground. Eu me considero total underground, tá ligado? Independente de números." — SonoTWS

O produtor, junto de pumapjl, compõe o Febre90s, projeto que tem levado o boombap nacional para o mundo inteiro com uma sonoridade autêntica e atual. Mas o seu trampo não é de hoje — são mais de 13 anos fazendo beats com diversos projetos lançados. Entre eles, Otra Fita e Perfeitamente Incorreto Vol.1, já haviam trazido MCs da nova e velha guarda do rap nacional, mas Sono conta que a ideia foi dar início a um novo projeto, possivelmente recorrente, que se propõe a documentar o cenário underground de maneira verdadeira.
"Realmente são pessoas que eu acredito no corre. Eu me sinto muito grato pelo holofote que eu tô recebendo hoje em dia, pelo meu trabalho. E com esse trampo, é o meu lugar de conforto, é onde eu gosto. São pessoas talentosas, a gente não tá levando em consideração números — é o puro talento, rima, flow, melodia. Eu tô recebendo holofotes e me sinto tipo um espelho. Tá batendo aqui, mas eu queria que refletisse em toda essa rapaziada."

"É muito maneiro ser referência, usar referência. Mas eu acredito que só eu posso ser eu, e só você pode ser você. Então, se eu tô fazendo uma arte, uma música, eu quero que as pessoas vejam a minha personalidade, o meu estilo."
Um dos objetivos do projeto é mostrar as diferentes possibilidades de se fazer boombap no Brasil — de certa maneira, divulgar esses diferentes estilos para incentivar mais pessoas a buscarem suas identidades próprias. "Eu quis mostrar que existem 13 meios de fazer a mesma parada. Cada um tem o seu estilo, sua identidade, sua originalidade — pra mim, essa parada do estilo conta muito. Desde o começo da cultura hip-hop, do graffiti, é uma parte importantíssima. Você tem que botar o seu tempero, tá ligado? E eu acredito que isso é o que eu quero trazer com essa minha curadoria", explica o produtor.
O documentário Style Wars (Guerras de Estilo), marco importantíssimo na cultura hip-hop, principalmente para o graffiti, já indicava a importância do estilo para tudo isso
O disco, que foi todo produzido pelo Sono e saiu pelo seu selo próprio, Tired Of People, conta com a mix e master feita pelo 2F U-Flow. A capa ficou na conta do Skorpio, ilustrador catalão do rolê do graffiti que já trabalha com o Febre90s há bastante tempo, e traz outro peso para as artes do projeto, que chega em um momento de muita potência na carreira do produtor e com uma responsabilidade de transmitir, de passar adiante, a chama do hip-hop.
"Eu já entendo muita coisa, já vejo como que é a indústria por dentro — e já quebrei muito a cara. Então eu quero muito fazer com a rapaziada da hora e foda-se o resto. Vamos mostrar a força que é o bagulho, porque são quase 14 anos fazendo batida, e desde a primeira, lançando em fita K7. A gente mantém a parada viva. Eu tento levar essa chama do jeito que eu considero certo".
"Pra quem quiser mergulhar — se você não sabe, agora você vai saber. Tá rolando muita coisa maneira, então eu aproveito esse público mais novo pra fazer isso. Eu quero falar: 'isso daqui é bom', pra gente mostrar que tem muito trampo da hora, e se você for atrás, buscar, tiver um cuidado, uma curiosidade, você vai ver que tem muito mais coisa maneira rolando."
Dentro do hip-hop, que é uma cultura que se constrói à partir de diversos pilares, quem você é e como você se relaciona com a sua arte são pontos importantíssimos para quem quer fazer parte do movimento. Não é qualquer pessoa que vai acordar um dia e do nada produzir um instrumental. O processo é longo, e uma das partes mais difíceis é ter o seu trampo visto, receber suporte, atenção.
"Eu faço beat faz 13 anos, os mesmos beats desde sempre, e só dois anos atrás que eu consegui viver da parada. Eu não mudei nada. A única coisa que aconteceu foi a rapaziada conhecer o meu trampo — e eu penso muito sobre isso, tá ligado? O que essa rapaziada precisa é as pessoas conhecerem eles, e eu não tô falando que eu sou a pessoa que vai fazer isso, mas eu tô dando um empurrãozinho, colocando um tijolinho ali. As paradas que acontecem não é por sorte, é por muito trampo, muito estudo. Tem que ter um respeito, um carinho pela arte", conta Sono.
Por mais que o trabalho com o Febre90s esteja alcançado o mundo inteiro e acessando o mainstream musical, o que define esses conceitos não são os números e os ouvintes mensais. O underground aparece na forma de agir, de fazer e de se relacionar com as pessoas. Nas palavras do produtor:
"Eu penso mais como uma parada de espírito, mesmo. Tem gente que não tem números, que tá lá no underground, mas é mainstream. Eu vejo muito como um espírito do underground, do 'do it yourself', do independente, né? Eu vim disso daí, mano. A cultura do graffiti é isso — se você quer, você vai lá. Eu não peço permissão, eu vou lá e faço.
Se Não Sabe Agora Sabe, Vol.1 também é uma parada de pessoas que amam isso aqui, e é muito maneiro estar em contato elas, porque cada um gosta de de uma parada. Eu quero tentar incentivar essa faísca da curiosidade. Conhece o Febre? Da hora, sou feliz demais, mas tem muito mano bom aqui. Não fica achando que é só nós. Essa é a minha visão — eu já vim de outra geração, já sou mais velho."
O disco está disponível nas plataformas digitais e já conta com mais de um milhão de streams — o underground se expandindo, ocupando espaços. Ouça e acompanhe o trabalho do Sono, do Febre, da Tired of People e de todo mundo que está envolvido nesse projeto que já é um clássico.