Sergio Mendes levou a sonoridade do Brasil para os EUA

A vida e obra de um dos maiores difusores da música brasileira aconteceu muito mais no exterior do que por aqui

Sergio Mendes levou a sonoridade do Brasil para os EUA

Aquela história de acontecer primeiro no exterior para depois acontecer no Brasil não é uma desconhecida dos músicos e do público brasileiro. Inúmeros artistas vivenciaram esse êxodo do sucesso, tendo que primeiro “agradar a gringa” para depois ser bem aceito pelo público aqui. O que era antes uma prática vira-lata, por muito tempo passou a ser uma validação natural, mesmo que ingênua, da crítica musical local para com nossos próprios artistas. 

Com a Bossa Nova e com a MPB, em alguns períodos, essa máxima se fazia presente e artistas como Tim Maia, Astrud Gilberto e Morris Albert foram alguns dos nomes que conquistaram os gringos antes de fazerem sucesso por aqui. Mas o Sergio Mendes, tema desse artigo, apesar de ter hoje seu reconhecimento e sua história contada, não necessariamente chegou a vingar de fato no Brasil. 

Sergio Mendes é natural de Niterói, Rio de Janeiro, e sempre teve a música na sua vida. Pianista, descobriu no jazz e na música clássica o seu lugar de estudo e paixão, posteriormente sendo arrebatado pela Bossa Nova. Ao lado do baixista Tião Neto, fez suas primeiras apresentações em bares do Rio de Janeiro tocando o ritmo brasileiro e outras vertentes do jazz. Em 1961, com o Sexteto Bossa Rio, lança o Dance Moderno, seu primeiro disco. 

Com essa banda, ele, Paulo Mora no sax, Pedro Paulo no pistão, Otavio Bailey no contrabaixo, Dom Romão na bateria e Durval Ferreira no violão, ficaram conhecidos como uma das bandas mais técnicas do jazz brasileiro na época. Essa galera chamou tanta atenção que começaram a fazer shows na Europa e Estados Unidos - sendo o último onde Mendes começou a guinar sua carreira, fazer contatos e montar novas bandas. 

Junto de Cannonball Adderley, em 1963 lança o Cannonball’s Bossa Nova e que pode ser considerado um dos principais lançamentos de Bossa Nova de todos os tempos, mesmo sem ter o mesmo reconhecimento local que tem outros discos, como o Getz/Gilberto, lançado na mesma época. 

Em 1964, Sergio se muda para os Estados Unidos e vê sua carreira deslanchar. Com a banda Brasil ‘66, se torna um expoente da música brasileira, mas muito mais para os gringos do que para os brasileiros. Com lançamentos na Blue Note Records e colaborações com norte-americanos, começa a fazer seu nome falando em inglês. No Brasil, suas músicas eram tidas como de “exportação”, como muitas críticas o chamavam, de maneira pejorativa, deixando seu sucesso ainda mais isolado no exterior. 

De fato, Sergio lançou muitos álbuns e os anos 60 foram os de maiores sucessos na carreira do músico. Sua ida definitiva para os Estados Unidos fizeram-no ser um músico conhecido e respeitado do cenário da Bossa Nova, lançando releituras de clássicos brasileiros - a mais famosa delas, Mas que Nada, de Jorge Ben, é um sinônimo quando o assunto é Sergio Mendes e faz sucesso até hoje. 

Sergio e o Brasil '66

Mas que Nada, do disco Samba Esquema Novo, do Jorge Ben, de 63, ganha a versão de Sergio Mendes ainda no mesmo ano, mas essa faz sucesso só algum tempo depois, em 1966, quando o Brasil ‘66 traz a roupagem de banda e a toca em locais prestigiados do cenário norte-americano. Essa música trazia elementos brasileiros, letra em português com elementos só nossos e fez a galera pirar - foi atrelada ao futebol, foi sampleada por rappers e virou até releitura pelo Black Eyed Peas, em 2006. 

A versão do Black Eyed Peas trouxe um olhar diferente para o músico brasileiro décadas depois de sua primeira estadia nos Estados Unidos. Sergio, até então, tinha grande nome e respeito, mas talvez não o reconhecimento por parte do público mainstream - pelo menos não no Brasil. Fergie, Will.I.Am e companhia trouxeram luz ao músico no século XXI - de novo seu nome sendo mais falado por estadunidenses do que por brasileiros. 

Claro que a carreira de Sergio Mendes não se resume a esse hit, tendo sucessos como o disco Never Gonna Let You Go, de 1984 e um Grammy na categoria World Music, em 1993, com o disco Brasileiro. O disco Timeless, de 2006, além de Mas que Nada, tem músicas com Stevie Wonder, John Legend, Erykah Badu, Marcelo D2, Justin Timberlake, entre outros. 

A gente poderia tentar explicar o sucesso e longevidade de Sergio Mendes no exterior de várias maneiras. Mas fato é que, nos anos 60 principalmente, estar fisicamente fora do Brasil era uma via que dificultava seu reconhecimento local. Sergio escolheu os Estados Unidos para trabalhar e viver e ficou lá até sua morte, em setembro de 2024. Emplacou 14 músicas no top 100 americano nos seus mais de 60 anos de carreira e seu legado na música brasileira é gigantesco, levando a sonoridade da nossa música para outros ouvidos e sempre reproduzido constantemente para pessoas que, não necessariamente, falam português. 

Sergio, Pelé e Mick Jagger em um jogo do NY Cosmos

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