Se depender de Nill, o rap nerd nunca morre
O artista é o primeiro a transformar a discografia em uma franquia de mangá
Muito antes do Borges falar que “todo vagabundo pode ter um lado nerd”, Nill já provava que o rap e a cultura geek, nerd, ou como prefira chamar, têm a sua conexão. O rapper e produtor de Jundiaí nunca escondeu seu amor por animes, mangás, jogos eletrônicos e quadrinhos, colocando elementos dessas diferentes expressões em sua obra desde o primeiro trabalho. Agora Nill deu mais um passo na carreira, lançando um mangá que narra visualmente as histórias de sua discografia, façanha inédita na cena mundial.
Há quase 10 anos, Nill começou a fazer barulho ao lançar Minha Mulher acha que eu sou o Brad Pitt, primeiro single do que viria ser seu primeiro álbum, Regina (2017). O álbum não foi o primeiro, mas um dos a ajudar na popularização da estética lo-fi e vaporwave no rap nacional. O disco que abre com o som de inicialização do Xbox 360, sampleava animações do Cartoon Network e se inspirou na cultura pop, o fazia não só para criar mais um canal de conexão com o ouvinte, como também amenizava temas pesados e pessoais, amaciando a carne.
Ali, em 2017, Nill já começava a entender que sua arte e potencial criativo não caberiam somente na música e que no futuro seria necessário colocar para jogo um novo formato. Como novos projetos não surgem do nada, foi preciso desenvolver a discografia para enfim definir o formato, e o resultado saiu em Maestro, franquia de mangá que reúne diversos personagens que apareceram nas histórias de Nill.

É interessante perceber que a narrativa sempre esteve presente nas músicas do rapper, de forma direta em faixas como a já citada Minha Mulher acha que eu sou o Brad Pitt, que fala sobre ciúmes, ou o clássico contemporâneo Regras da Loja, feat. com BK', e que narra um assalto a banco da perspectiva de um dos participantes do bando. Mas as capas também contribuíram para a construção desse universo, geralmente apresentando os personagens principais, que não necessariamente teriam sua história contada nas letras, mas que definiam o tom dos álbuns.
Em 2018, a mixtape Good Smell Vol.1, tem na capa a Lilith, uma mina negra com braço mecânico, ilustrada por Leo Bernal. Pouco se sabia sobre a personagem, que retornaria em Good Smell Vol.2 (2020), agora pelos traços de Bru Yeah, e mesmo com faixa nominal, ainda permanecia em mistério.
Em Lógos (2019), a capa é assinada por Loud Wagner, e um Nill de brinquedo tenta fugir de uma loja de brinquedos, espaço que serve não só como pano de fundo, mas assume a persona do disco. O trabalho é um dos mais conhecidos da carreira do artista, e talvez o mais conceitual. Em Regina ele já havia se provado na arte de rimar, produzir e amarrar tudo isso sob uma proposta, mas Lógos extrapola isso pontuando questões existenciais e filosóficas, afinal, o título já diz tudo: “Razão”, em grego.

Alguns anos se passaram até que 2023 nos trouxe O Resgate do Maestro. O “intervalo” da pandemia, que tanto afetou a sociedade, foi prato cheio para a cabeça inquieta de Nill que se voltou para as relações cotidianas e pequenos processos de convivência. Na capa, um robô gigante pousa na terra, mais especificamente em uma quebrada, paisagem tão reconhecível para alguns, mas que gera questionamentos para quem é feito de parafusos, engrenagens e códigos.
O título é o mesmo do mangá, que reúne todos esses elementos e códigos construídos em mais de 10 anos de carreira em histórias, e assim como nos discos, usa dos traços da cultura japonesa para tocar em temas sensíveis e pessoais. O primeiro capítulo é protagonizado por Lilith, que finalmente ganha voz, movimento e contexto, nos fazendo se reconectar com alguém que na primeira vez que apareceu, mal rosto tinha.
O projeto é feito a 8 mãos, e além do próprio Nill, que toca a criação, Cosmar é responsável pelas ilustrações e designs, Lucas Conti é o editor e o character design fica por conta de MZ09. Para os fãs do artista, é um prato cheio, e para quem curte mangás ou ficou enrolando para conhecer um pouco melhor o trabalho de Nill, o caminho inverso pode ser uma boa. Pouso Forçado, o primeiro capítulo de Maestro está disponível gratuitamente pelas plataformas Tá No Gibi! e Fliptru. Vale muito a pena dar aquela lida, que a trilha sonora já está garantida.