Peroli é resistência na cena do grime no Brasil e no mundo

A DJ movimenta o grime em terras brasileiras e lá fora há quase dez anos

Peroli é resistência na cena do grime no Brasil e no mundo
Foto: @atemporalboy

Peroli é uma das mais importantes figuras da cena de grime brasileira. A DJ teve os seus primeiros contatos com o gênero em São Bernardo, cidade em que nasceu, anos antes de começar a tocar, e acompanhou as transformações da cena noturna e o desenvolvimento dessa sonoridade em São Paulo.

Foi ela quem criou a primeira festa totalmente focada no grime em São Paulo, a SIDE, que surgiu em 2019 e contou com três edições até o início da pandemia. Nesse período sem as festas, Peroli não parou, fez diversos sets pela internet e até uma euro tour virtual passando pelas principais rádios inglesas.

A sua trajetória acompanhou a evolução da cena do grime aqui no Brasil, ao mesmo tempo em que foi desenvolvendo laços fortes com a cena da Inglaterra, consolidando o seu lugar como uma das maiores representantes do gênero em nosso país.

No ano passado, a sua passagem pelo CR1AGRIME, festa que tem movimentado o grime em São Paulo, e pelo festival Outlook — um dos principais festivais de DJ's que acontece na Croácia — pela segunda vez, mostraram a sua potência e importância para a cena nacional. Além disso, ela foi uma das únicas pessoas a tocar com o Skepta no evento que rolou em decorrência do cancelamento do seu show que aconteceria em São Paulo.

A SIDE voltou para a sua quarta edição na semana passada, no Coffeeshop Club, com um line 100% feminino, composto pelas grandes Livea, Suelen Mesmo e Vitória Nicolau. Pensando em tudo isso, trocamos a ideia que segue.


A gente pode começar falando do início da sua relação com o grime. Quais foram os primeiros contatos e como era o cenário na época?

Eu sempre fui conectada à música, e como as nossas referências aqui acabam sendo mais norte-americanas, a gente acaba pendendo mais pro hip-hop e tal, mas eu sempre me senti desconectada. Eu acompanhava, mas me sentia um pouco desconectada.

Até que eu conheci uns amigos que curtiam muito música eletrônica. A gente se juntava pra ouvir e eu sempre fui muito curiosa, então ficava perguntando nome de produtor, de MC e tal, mas na época as pessoas me explicavam de uma forma muito abrangente, meio vaga até. Eu perguntava que música era aquela, eles falavam que era o "hip-hop da Inglaterra", e acabou sendo o jeito que eu conheci na época.

Eu comecei a frequentar algumas festas aqui em São Paulo, e a gente tem um período político ali que era proibido tocar funk nas casas em São Paulo, então tocava de tudo menos funk. Hoje já é completamente o contrário.

Tinha uma gama de gêneros que eram mais efervescentes na época, tinha mais essa abertura pra esses outros gêneros. Tinha a Metanol, do Akin; a Free Beats; a Colab011, do Cesinha — algumas festas ali na antiga que eram só de bass (bass music é um termo que engloba diversos gêneros da música eletrônica focados no grave), e a gente acabou conhecendo essas sonoridades nesses rolês.

Tudo isso começou quando eu ainda morava em São Bernardo, e lá, até hoje, as pessoas são fechadas pra muita coisa. A pessoa que fez essa introdução pra mim é o Yescal, que fomenta o grime desde os primórdios, e tinha o Redíneas também. Poder ter esse contato com sonoridades diferentes enquanto eu ainda morava lá foi muito importante pra moldar a minha identidade musical.

E essas festas não eram festas de grime, né? Já tinha alguma que levantava a bandeira do gênero?

Não, nem existia, pelo menos nos lugares que eu frequentava. Tanto que em São Paulo, só foi ter uma festa de grime, mesmo, se comunicando como uma festa de grime, quando eu fiz a SIDE, porque até então era chamado de bass.

Com bass entende-se que ia ter tudo que permeia ali os ritmos eletrônicos dos 140 BPM, que agora é uma discussão que o pessoal tem na Inglaterra. Dubstep, grime, dub — tudo que vai de barulho, 808, drill, que é mais pesado, entrava nessa de bass — e dentro dessas festas tinha o trap "Skrillex", então a gente ia pra esses rolês curtindo essas sonoridades — Major Lazer, Diplo.

Nós fizemos a primeira edição da SIDE no Estúdio Bixiga, que teve show do Fleezus logo no comecinho. Eu criei a festa quando o Fleezus lançou o EP Ruas, que ele fez a audição na Ã, lá no centro, e a galera destruiu a loja, foi cerveja pra tudo quanto é canto, teve bate cabeça, quebraram caixa, foi um caos. Eu tava tocando e me deparei com aquilo, e falei assim: "a juventude de São Paulo tá carente de evento, então eu vou criar uma festa pra essa galera."

Peroli tocando no lançamento de Ruas, em 2019 (foto por Lucas Cellier / I Hate Flash)

O Cesinha já fazia grime, o Fleezus cantava trap, o Febem sempre cantou rap, mas a gente viu esse crescimento dos MCs entendendo que dava pra encaixar as rimas nos beats de grime. Com o crescimento do Brasil Grime Show, as pessoas começaram a entender o que era grime — e eu sempre bati nessa tecla do grime, eu sempre trouxe, porque já era uma coisa que eu queria ouvir.

A terceira edição da SIDE foi em collab com o BGS e trouxe o Oblig diretamente da Inglaterra

É muito louco pensar que foram apenas três edições, e elas ressoam nas pessoas até hoje. A primeira teve o Fleezus, a segunda teve a Larinhx e a Blackat, e a terceira, quando veio o Oblig, nós fizemos com o Brasil Grime Show, em 2020 — ANTCONSTANTINO e diniBoy com uma porrada de MC's da época.

Depois desse momento, tudo se dissipou e as movimentações ficaram muito isoladas, meio "cada um no seu canto". O que você acha que acabou com esse senso de comunidade e fez com que muita gente parasse de fazer grime?

As pessoas que não tão mais, elas não tão mais justamente por conta do público — todo mundo que frequentava as festas virou DJ. Essas pessoas criaram as suas próprias festas e nunca mais colaram.

Não existe um ecossistema, não existe uma comunidade — as pessoas usam essas palavras, mas de fato não existe. Isso enfraquece muito "a cena", que é como as pessoas gostam de falar. Todo mundo começou a criar o seu próprio rolê e ninguém quis mais se fortalecer, uma coisa talvez de imaturidade, também. Todo mundo achou que o grime seria o novo trap, que todo mundo ia ficar rico com o grime.

Quando essa galera viu que não que não ia dar, migrou. Por isso que eu nunca me intitulei uma DJ de grime — mas eu sempre bati, advoguei pelo grime, porque eu gosto e nunca vou deixar de levar comigo aonde eu for.

Lá fora, existe um ecossistema, porque a galera vai se juntando. Não tem essa de "nova geração" e "geração velha guarda" — eles tão se misturando ali. Aqui é muito recente pra gente ter essa coisa de geração, mas querendo ou não, a gente já tem ciclos formados, e com esse pensamento que cria barreiras, você cria movimentos independentes e não um ecossistema. Esse senso de comunidade é muito mais forte lá do que aqui.

Peroli fez a tradução simultânea dessa palestra do Elijah que aconteceu em 2023 em São Paulo

Você tocou recentemente na 15ª edição do CR1AGRIME, festa da nova geração de São Paulo que tem movimentado o grime na cidade — essas trocas tem voltado a acontecer, e essa "cena", tanto aqui como lá fora, tem passado por um momento de virada de chave, um pouco marcado pela vinda do Skepta para cá, mesmo com o show não tendo acontecido. Como foram esses encontros para você?

O CR1AGRIME foi uma experiência muito legal, porque eu sabia que ali, tudo que eu tocasse ia ser entendido. Foi um lugar que eu me senti muito acolhida, que as pessoas estavam ali realmente querendo me ver tocar, isso foi muito especial.

As pessoas ainda criam essa barreira invisível, de que eu não iria aceitar ou que talvez não fizesse sentido, mas eu fiquei muito feliz de poder tocar ali, e eles também.

Peroli na 15ª edição do CR1AGRIME (foto por @_jpegojao)

Essa discussão de que o grime tá voltando, renascendo, acontece lá fora pelo menos a cada 5 anos. Sendo bem sincera, eu acabei me afastando muito do que tava acontecendo aqui, justamente por não estar sendo incluída. Eu acabei focando em fazer mais evento com marca, pra poder ter mais dinheiro, poder sobreviver, mas agora eu tô me centrando pra poder voltar a isso, poder levar as referências daqui pra lá — que é o que eu sempre quis fazer e sempre fiz, de conectar a galera com o pessoal de lá.

Acho que a vinda do Skepta pra cá não influenciou em nada, porque como você falou, o show não aconteceu, ninguém viu de fato. Eu tava ansiosa pra saber o que ia acontecer ali, porque muitas pessoas que veriam o show dele não fazem ideia do que é grime.

A minha interação com ele foi bem rápida, não foi nada muito substancial, mas, querendo ou não, é uma validação. Mas aí eu fico pensando, é uma validação até que ponto? A minha experiência tocando com ele foi muito importante, um marco, mas eu já dei entrevista na BBC, sabe? Eu já fiz tanta coisa, já toquei em tanto evento e só vão me validar porque eu tô do lado dele agora — eu sei que vai mudar a forma como muitas pessoas vão me tratar.

Não é difícil perceber como a cena do grime, principalmente lá fora, é bastante machista. Como você percebe as questões de gênero dentro dessa cultura, tanto da cena daqui como de lá?

Os caras de lá são extremamente machistas, é uma coisa bizarra, muito escrachada. Os caras são assim — é uma cabeça tão fechada, uma coisa tão arcaica, que na cabeça deles, o respeito pela mulher é você ignorar a existência dela.

Isso eu senti na pele lá, na primeira vez que eu fui — e até eu entender que não era pessoal, demorou muito, doeu muito. Mulher, pra eles, praticamente não é um ser humano, as meninas passam por muitas situações de assédio. A cada mês tem alguém sendo exposto lá e são umas coisas muito pesadas.

Já aqui, eu sinto um mix disso, porque é mais velado. Às vezes as pessoas falam que não existe racismo no Brasil, pela forma que foi construído e as pessoas lidam de um jeito mais leve — então elas acham que uma brincadeira, um comentário, não é racismo. É a mesma coisa com o machismo.

Eu sempre tive essa tendência de estar muito mais em ambientes dominados por homens, e até então eu achava que eu sabia lidar com isso, que eu era considerada parceira e igual entre as pessoas, quando na verdade, não. Mas demorou muito pra eu entender isso.

Peroli amassando na Kindred, importante loja de discos de Londres, no ano passado

Até que eu comecei a perceber que eu realmente não ia ser chamada, não ia ser incluída nas coisas, pelo simples fato de ser mulher. É uma tendência que vai aumentar pra 2026 e eu acredito que vai ser muito pior — até mais por conta desse crescimento das meninas, fazendo de tudo. A gente tem agora muita MC, muita DJ, e muitas delas falam que começaram por minha causa.

Eu acho isso muito gratificante, mas vai ser bem difícil e eu realmente não sei como a gente vai sair disso. Não existe mais uma vergonha ou uma coisa de deixar as coisas por baixo dos panos — não é mais velado, já tá escancarado. As pessoas tão aí falando abertamente sobre esses assuntos e achando que tá tudo bem, e eu não consegui ainda pensar em uma solução.

Eu não acho que "mulheres unidas jamais serão vencidas", sabe? Eu não consigo acreditar num ecossistema que seja sustentável se as mulheres se juntarem e fizerem só evento delas. Eu não acho que isso é saudável, mas até então, é a única coisa que eu consigo pensar, de tipo: "tá bom, então vamos se juntar nós aqui e deixar os caras lá." Mas eu não consigo ser assim, porque eu não acho que seja saudável e é difícil de sustentar.

A primeira edição do AFK Extra, programa de grime da Veneno que aconteceu durante a pandemia, contou com a presença da Peroli

E aí entra outra coisa — o elogio e a apreciação pela mulher enquanto profissional, vem no privado. As pessoas vêm me elogiar pra mim, mas em uma sala cheia de oportunidades, elas jamais vão citar o meu nome. Pra eu conseguir me estabelecer enquanto profissional, eu teria que trazer pautas comigo, porque parece que é só assim que funciona pra mulher.

Eu teria que falar que eu sou "a primeira DJ negra do Brasil a tocar grime" e só assim que as pessoas iriam me vangloriar, me respeitar ou me colocar num pedestal, que não é o que eu quero. Eu jamais vou fazer isso, não faz sentido pra mim e pra minha marca.

A solução talvez seria esses caras começarem a realmente apoiar as minas, mas a gente sabe que isso não vai acontecer. E quando eles entendem que são mulheres que eles não vão conseguir pegar, elas se tornam inimigas. É um problema muito maior do que todos nós, meio que sem solução.

No ano passado, eu fiquei chocada com o tanto de evento que o line era 100% homem. Não é possível, a gente tá voltando pra 2015. Quando eu faço essas reclamações, as pessoas acham que eu quero que me incluam. Nem sempre é sobre isso, eu não quero estar em tudo — a questão é achar que é natural você não ter nenhuma mulher no seu ciclo de amizade, de trabalho, de nada.

Eu gosto de falar bem pouco sobre isso, porque como eu falei, eu não consigo pensar numa solução, e acaba parecendo que eu tô sempre reclamando, mas eu não vou reclamar se as pessoas fizerem as coisas certas.


Acompanhe o trabalho da Peroli e da SIDE nas redes sociais, ouça os sets pelo SoundCloud e cole nos rolês organizados por ela.


ISMO
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