Paulinho da Costa: o gigante invisível
O percussionista de Michael Jackson e Madonna, que ficou nas sombras do estúdio
Em 2026, a Calçada da Fama receberá pela primeira vez na história o molho brasileiro. O mais próximo disso ter acontecido foi há mais de oito décadas, quando a artista luso-brasileira Carmem Miranda foi a homenageada. Agora, um brasileiro nato vai ter o nome eternizado no boulevard de Hollywood, e o curioso é que não estou falando de um ator de novela, jogador de futebol ou cantor, mas de um artista que construiu a carreira dentro de estúdios de gravação, dando o swing brasileiro para músicas conhecidas no mundo todo. Esse cara é Paulinho da Costa.
Talvez, para uma boa parte da população brasileira, esse nome pode não fazer muito sentido, soar meio genérico, e até o rosto tem chances de passar despercebido, mas a real é que esse carioca da gema tem participação na trilha sonora de muita gente. Arrisco dizer que da maioria das pessoas nos últimos 50 anos.
Em um momento em que celebramos indicações ao Oscar de Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho, ou compartilhamos números dos charts que mostram artistas brasileiros entre os mais ouvidos da semana no Spotify, Paulinho nos lembra que ser brasileiro também é um paradoxo. O percussionista é definitivamente um dos nossos músicos mais ouvidos e talvez um dos mais esquecidos. O cara escolheu seguir a vida como músico de estúdio, ficando meio que numa sombra cultural, mas sempre que é lembrado, mostra que o DNA brasileiro corre entre as batidas do pop mundial.

Para entender o tamanho de Paulinho, que só tem diminutivo no nome, é importante entender seu papel na indústria da música. Longe dos palcos e dos holofotes, ele escolheu fazer sua arte dentro dos estúdios de gravação, se tornando o percussionista que chamam de “first-call”, ou seja, o primeiro nome da lista de todo produtor que buscava mais do que só um baterista ou alguém pra ficar marcando o ritmo. Suas mãos foram responsáveis por texturas, cor e atmosfera, preenchendo vazios com ritmos inteligentes.
Nos anos 1970, acompanhando o pianista Sérgio Mendes, Paulinho desembarcou pela primeira vez nos Estados Unidos e rapidamente caiu nas graças dos produtores, principalmente os de Los Angeles, por onde fincou residência. As portas foram abertas pela lenda do jazz, Dizzy Gillespie, e a partir de então passou a ser figurinha carimbada em gravações. Apesar da escolha de focar nos estúdios lhe custar o reconhecimento popular e a fama, isso o permitiu estar presente em um número incontável de álbuns, temperando hit atrás de hit.
O capítulo mais legal da história de Paulinho começa a ser escrito poucos anos depois de estar nos EUA, quando conhece o brabo Quincy Jones, que o convida para ajudar a reintroduzir uma pequena estrela, que ainda não tinha brilhado sozinha. Estou falando de Michael Jackson, que claro, já era bem conhecido, mas que até então tinha seu nome atrelado ao Jackson 5. Naquela época, aos 19 anos, o Rei do Pop ainda não tinha esse vulgo, não ao menos até lançar uma pedrada em forma de disco.

Na minha opinião, Off the Wall (1979) tem uma das melhores sequências da história. O lado A todo é perfeito e, para mim, define o pop moderno. A surpresa é que o swing de Don’t Stop ’til You Get Enough, tem mãos brasileiras. Sabe a intro de Working Day and Night? Aquilo é Paulinho da Costa amassando e que, anos depois, iria ser referência para o funk carioca. Mas a gente já chega lá.
O sucesso feito em 1979 selou a relação entre o percussionista e Quincy Jones, parceria que se repete novamente em 1982, quando juntos trabalham no maior sucesso de Michael Jackson: Thriller. Claro, quando a gente olha para a lista de músicos convidados para gravar esse clássico, tem gente pra cacete. Mas se tratando de um disco feito para as pistas, e que te faz balançar desde a primeira nota, a gente sabe que a percussão não é só um detalhe. Aliás, a faixa de abertura, Wanna be Starting Something tem uma complexidade de ritmos muito doida, umas referências de percussão africana e demonstra um virtuosismo sem chatice. Acho que dá pra dizer que Thriller sem Paulinho continuaria perfeito, mas prefiro acreditar que seria menos vivo.
Depois disso, o cara já tinha zerado o game, mas era só o começo de uma carreira brilhante, e os estúdios norte-americanos viraram o parque de diversões de Paulinho. Não sou da época, mas considerando as músicas nas quais esteve presente, acredito que ligar a rádio nos anos 1980 era certo de ouvir alguma coisa que tinha seu envolvimento.
Quando Madonna quis se aproximar dos ritmos latinos no álbum True Blue (1986), mais especificamente com a faixa La Isla Bonita, lá estava Paulinho garantindo que se é pra ser latino, que tenha um latino de verdade no bando. Os bongôs, as castanholas e demais instrumentos percussivos, são todos desenhados por ele, que inclusive aparece todo sorridente na abertura do videoclipe que acompanhou a faixa.
Quer trilha sonora? Ele faz. Em 1984, foi convidado para participar das gravações de Purple Rain do Prince, mostrando que também brilhava em outros gêneros. Rock, R&B, funk… Ele faz tudo. Aliás, Prince era conhecido por ser bem chato com seus companheiros de banda, então podemos considerar esse feito mais um atestado de qualidade no trabalho do percussionista.
Outra trilha sonora que teve participação de Paulinho foi a do filme Os Embalos de Sábado à Noite (1977). Sim, aquele em que o John Travolta faz passinhos enquanto veste um terno branco com calça boca de sino. Uma boa parte da trilha é dos Bee Gees, com quem nosso monstro contribuiu em várias faixas. E para fechar a sequência de hits, a recém recuperada pela molecada do TikTok, Let’s Groove, do Earth, Wind & Fire e o hino da comunidade LGBTQIAPN+, I Will Survive, de Gloria Gaynor, também tiveram a percussão assinada por Paulinho da Costa. Doideira, né?!
Apesar de ter feito sucesso nos Estados Unidos, tocando música americana, o trabalho de Paulinho é fundamentalmente brasileiro. A malandragem do samba, a divisão do choro e a espiritualidade dos terreiros foram condensadas e transportadas para os estúdios de Los Angeles e Nova York. Os ritmos contemporâneos como o neo-soul e a house music pegaram os grooves que ele definiu em estúdio anos antes. Tô aqui falando de Bruno Mars e Daft Punk, por exemplo.
E como já comentei rapidamente, se o nosso funk brasileiro se chama funk, em parte é porque Paulinho estava lá no começo, construindo os gêneros fundadores. Estou ouvindo o Off the Wall pela quinquagésima vez enquanto escrevo esse texto e nada tira da minha cabeça que a intro de Workin’ Day and Night toca direto nos morros do Rio de Janeiro. Aquela intro é o puro suco do funk carioca. Até a respiração do Michael quebrando junto me lembra os sons que toca nos bailes.
É curioso ver que a influência de Paulinho é tão presente ao mesmo tempo tão silenciosa. O cara é conhecido e venerado por músicos de jazz e instrumentistas clássicos, mas uma parcela bem grande da população não sabe que as texturas de All Night Long (1983) do Lionel Richie são feitas por ele. E vamos combinar, para muita gente a percussão pode parecer algo banal, mas Paulinho da Costa foi um dos que mostrou que ela pode brilhar tanto quanto um solo de guitarra.

Essa homenagem da Calçada da Fama chega junto de outras celebrações da arte brasileira em reconhecimentos internacionais. Mas também acende um alerta que, inclusive, já foi discutido aqui na ISMO, que é o porquê de demorarmos tanto para celebrar nossos ídolos. No caso de Paulinho, não sei se existe uma ideia de que ele não vendeu uma imagem caricata e exótica do Brasil, quando escolheu ser um profissional de topo e que, por acaso, era brasileiro. Mas ele nunca deixou de levar na bagagem todas as referências nacionais.
Para mim, lembrar de nomes como o dele é fundamental para reforçar a nossa identidade e potência criativa. E não é necessário que um gringo o faça antes para só então começarmos a dar valor. Com todo o movimento das redes sociais, em que artistas do mundo todo usam o nome do Brasil para ganhar engajamento, é importante lembrar quem realmente está carregando nossa cultura nas costas, mesmo que na sombra de um estúdio de gravação. Acredito que esse movimento ainda tem muitos passos a serem dados, mas confio que aos poucos a gente aprende a aplaudir a música, mas também as mãos que a toca.
E pra ajudar, pega essa playlist de sucessos que o mago das baquetas e tambores ajudou a criar. É só pedrada.