O que uma década transformou na cultura sneaker no Brasil

2016, 2026 e como o desejo, aos poucos, virou acesso

O que uma década transformou na cultura sneaker no Brasil
Fachada da Guadalupe Store em um dia de lançamento, em 2016.

Em 2016, conhecer a cultura sneaker (aqui do Brasil) já era possível. Participar dela, de fato... Mais ou menos. Os modelos, as histórias e as colaborações já circulavam com facilidade, diferentemente do acesso. No Brasil, a relação com o tênis era construída mais pela observação e pela informação do que pela compra e pelo uso - mas isso começava a mudar.

Foi nesse cenário que passei a me aproximar de verdade desse universo. Eu já sabia que a cultura sneaker existia desde alguns anos antes, mas entre 2015 e 2016 comecei a circular por lojas, eventos, conversas e observar referências com mais atenção. Passei a comprar com mais consciência e, sem saber ainda, a formar um olhar que seria atravessado por uma década inteira de transformações no mercado.

Este texto não é uma retrospectiva nostálgica nem uma lista de lançamentos da década. Aqui, vamos tentar entender como o desejo se organizou antes do acesso, o lugar que o Brasil ocupou por muito tempo e por que a chegada de uma colaboração com a SoleFly em 2026 diz mais sobre maturidade cultural do que sobre status.

Guarde essa informação sobre a colab com a SoleFly. Vamos precisar dela mais pra frente

De aprender a desejar a começar a acessar

Globalmente, 2016 foi um ano decisivo para a cultura sneaker. “Os melhores tênis da história” surgiram? Não é sobre isso. O ponto é que o mercado passou a operar de forma mais consciente sobre desejo, narrativa e escassez.

“Os melhores tênis da história” surgiram? Não é sobre isso. Mas que tivemos lançamentos muito incríveis, tivemos

Colaborações deixaram de ser exceção e viraram linguagem. Modelos de performance atravessaram a fronteira do esporte e ocuparam de vez a rua (não que esse movimento tenha sido inédito, mas as linhas se borraram como nunca). O tênis se consolidou ainda mais como objeto cultural, carregado de história, identidade e simbolismo - e foi reconhecido dessa forma por novos grupos, para além dos sneakerheads.

Se antes não bastava lançar um produto, e se fazia preciso contar uma história, criar contexto, ativar memória, provocar pertencimento... Isso só se intensificou. O desejo não era mais impulso pontual, era construção contínua.

Nada disso acontecia pela primeira vez, mas tudo isso passava a ser visto de fora da bolha.

adidas NMD OG: um dos grandes modelos de 2016, base para muita coisa que veio depois

O Brasil em 2016: ver tudo, ter pouco

Enquanto esse sistema se organizava lá fora, o Brasil vivia outro ritmo.
Aqui, o acesso era mais limitado, fragmentado. É "do game" os lançamentos em poucos pontos, com distribuição restrita, filas, senhas e sorteios, mas aqui alguns modelos chegavam tarde e a maioria simplesmente não chegava.

O que não impediu a formação de uma cultura sneaker local, que já se fortalecia especialmente desde os anos 2000 (a internet ajudou muito nesse processo). Pelo contrário, ela se formou a partir da observação, da troca de informação, da adaptação. A cena brasileira aprendeu a desejar olhando, comentando, salvando imagens, acompanhando o que acontecia fora e criando repertório mesmo sem acesso pleno.

Consumíamos narrativa antes de consumir produto e acho que isso moldou o olhar de muita gente.

Circular muda tudo

Foi também a partir desse período que comecei a circular mais de perto por esses ambientes. Conhecer lojas, pessoas, eventos e referências muda a relação com o consumo. Comprar deixa de ser impulso ou necessidade e vira escolha. O tênis passa a carregar contexto, história e intenção.

Nike Air Max 1 "Cherry Blossom": o primeiro tênis que comprei com consciência, em 2016

Com o tempo, isso também virou trabalho. E trabalhar com esse mercado significa vê-lo crescer por outro ângulo, ver marcas se estruturarem, lojas insistirem, públicos se formarem... Ver o resell se estabelecer como alternativa, inflar como sistema e, mais recentemente, perder fôlego.

Nada disso acontece de forma linear ou romântica. Mercado cresce, amadurece, erra, corrige. A pandemia acelerou vários processos, ampliou algumas distorções e também escancarou limites. O que parecia expansão infinita... Mostrou cansaço e se estabilizou.

Um mercado que muda, inclusive para quem sempre ficou de fora

Nesse mesmo intervalo, outra transformação importante aconteceu, ainda que menos celebrada: o amadurecimento do mercado feminino. Durante muito tempo, mulheres foram tratadas como exceção ou nicho dentro da cultura sneaker. "Pink and shrink it" era parte essencial das nossas queixas à indústria.

Isso começou a mudar. Ainda de forma desigual, ainda com problemas, mas mudou. Hoje, há mais produtos pensados, mais histórias contadas e mais participação efetiva. Mais designers mulheres são celebradas, há lojas voltadas exclusivamente para esse público, e as grades estendidas deixaram de ser exceção na maioria das marcas.

Mas calma que não é conquista final, é processo. Como tudo nesse mercado.

Quando o produto finalmente chega

Durante anos, o mercado brasileiro recebeu basicamente lançamentos regulares e algumas edições limitadas pontuais. Certas categorias de produto simplesmente não faziam parte da realidade local. Mas 2026 se inicia com uma nova fase.

A Guadalupe Store, uma das principais referências da cultura sneaker no Brasil, com 15 anos de história, vai receber uma colaboração da Jordan Brand com a SoleFly, boutique de Miami conhecida por projetos extremamente restritos. Para quem está de fora desse universo, pode ser difícil dimensionar a importância disso. Mas, na prática, esse movimento funciona como um atestado de amadurecimento do mercado brasileiro. E faz sentido que aconteça ali. Ao longo desses anos, se houve uma loja que consistentemente recebeu o que havia de mais especial dentro do acesso possível no Brasil, essa loja foi a Guada.

E a comemoração não é por este lançamento específico, mas pela primeira vez em que um tipo de colaboração historicamente ausente passa a integrar, de forma oficial, o mercado brasileiro. Algo que sempre teve demanda e esteve no imaginário, mas que por muito tempo não encontrou caminho para se materializar por aqui.

“Vamos conseguir servir o consumidor com esses produtos que sabemos que têm demanda aqui faz tempo”, diz Pedro Prado, sócio da Guadalupe. “Essa batalha é antiga, já faz uns seis ou sete anos que estamos tentando trazer esses produtos pra cá.”

E é claro que não se trata de um movimento repentino nem de uma virada mágica. É resultado de insistência, construção de confiança e leitura correta de um mercado que, por muito tempo, foi subestimado.

O silêncio estratégico e a leitura da comunidade

A reação à notícia do lançamento diz muito. Nos comentários, surgem perguntas tentando nomear o que está acontecendo, atribuir rótulos, entender o que mudou. É natural vindo de um público que, durante anos, teve acesso negado ou limitado.

Por estratégia, a loja não explica o movimento. Para bom entendedor, meia palavra basta.

Depois de desejar tanto, o que fazemos com o acesso?

Passei mais de uma década aprendendo a desejar o que não chegava. Isso moldou meu olhar, meu consumo e minha forma de ler esse mercado. A dar mais valor às histórias, muitas vezes, do que aos produtos em si.

O acesso muda o mercado, muda a experiência e muda a relação com o consumo. Mas o olhar, esse demora mais para mudar.

Quais serão os debates que os próximos 10 anos nos trarão?


ISMO
Cultura em movimento

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