O Brasil profundo nas trilhas de Kleber Mendonça Filho
Como o diretor do premiado O Agente Secreto ambienta seus filmes no Brasil não só em imagens, mas também no contexto sonoro de cada película
Estamos em festa mais uma vez: pelo segundo ano consecutivo, o Brasil é premiado no Globo de Ouro. Em 2025, Fernanda Torres levava o prêmio de Melhor Atriz em Filme Dramático e em 2026, Wagner Moura leva o mesmo prêmio, na versão masculina. Tivemos também o filme O Agente Secreto levando o Melhor Filme de Língua Não Inglesa. Só por aqui eu já poderia encerrar o texto e já seria um sucesso, mas além do Brasil ter sido premiado, foi também levado em história, contexto e som para as telas do mundo todo.

Kleber Mendonça Filho, diretor do premiado O Agente Secreto, é Pernambucano e seus filmes têm o costume de, não só trazer o contexto local de onde e quando se passa, mas também brincar com sons, música e pertencimento através da trilha sonora. Em entrevista para Pietro Reis, Kleber conta que conheceu o som no cinema através de um filme que não é considerado bom: “Era o Xanadu, eu tinha 11 anos e fui ver no cinema com a minha mãe e disse ‘tem um som especial nesse filme”. Esse efeito dos sons das salas de cinema, aliados à música, despertaram no diretor um senso de importância do que é a trilha sonora para os filmes.
Em O Agente Secreto, o filme se passa em 1977 e o personagem principal protagonizado por Wagner Moura sai de São Paulo para ter morada no Ceará, onde acontece sua maior parte. Na trilha sonora, Waldick Soriano se mistura com Zé Ramalho e Conjunto Concerto Viola para retratar uma década intensa da música brasileira, passeando pelas nuances de caos e conforto do filme. Nessa produção, Kleber conta com música de Mateus Alves e Tomas Alves Souza, produzindo trilhas sonoras originais e na curadoria de sons locais que fizeram total sentido. Outra curiosidade também é o fato de o diretor e equipe terem pesquisado discos numa loja na Zona Norte de Recife chamada Passa Discos, adentrando ainda mais na cultura musical local. Foi nesse rolê que surgiu A Briga do Cachorro e da Onça, da Banda de Pífaros de Caruaru, que aparece na trilha do filme.

Para o diretor, a música exerce função narrativa e a ligação entre trilha e imagem é fundamental, como visto em outras produções de sua autoria, onde até mesmo personagens cantam ou citam músicas que são importantes ali no contexto. Seu primeiro longa-metragem, o Som ao Redor, de 2012, tinha som no nome e na importância da história, fazendo desse elemento ser o elo de ligação e de diferença das cenas, uma vez que o barulho ou a falta dele eram importantes para o contexto. Na trilha sonora, a escolha, por exemplo, de João do Morro traz o contexto local, um artista verdadeiramente Pernambucano.
Em Aquarius, de 2016 a música é um personagem. No filme, a frase “Toca Bethânia pra ela, mostra que tu é intenso” é marcante e virou até meme. Reginaldo Rossi, Ave Sangria, Taiguara, Gilberto Gil, Roberto Carlos, Alcione… Está bom de trilha sonora pra você? Esse vasto repertório de músicas genuinamente brasileiras (são 18 canções populares) conversa com a personagem principal de Sonia Braga e seu vasto conhecimento e biblioteca musical.

Em Bacurau, de 2019, Não Identificado, da Gal Costa, é uma escolha bizarramente assertiva de uma pesquisa na biblioteca de Spotifys da vida, como o próprio autor conta. Com história passada no interior de Pernambuco, Geraldo Vandré e Spandau Ballet se intercalam entre as cenas. O pop internacional dos anos 70 e 80 também aparece forte nas produções de Kleber Mendonça Filho, herança de sua adolescência mas que, apesar de serem cantadas em inglês a maioria das músicas, também não foge do que o brasileiro estava ouvindo em rádios Brasil afora.
É curioso pensar que Kleber Mendonça Filho apareceu com destaque para o cinema nacional através de um curta que tinha música como elemento principal. Vinil Verde, de 2004, tem música para ambientar cenas, terror através dos relatos e toda trama tenebrosa por causa de… música!
Depois desse filme nunca mais usei luvas verdes
Kleber Mendonça Filho mostra que o filme é o todo, mostrando a importância do som em roteiro e pesquisa. Ir localmente conhecer a cultura musical, beber da fonte de onde o filme passa, pensar contextualmente... Todas essas questões se aplicam na trilha e toda essa importância se mostra no resultado final, sendo nostálgico, reconfortante e identificável. Com fortes raízes de Pernambuco e do Nordeste em suas produções, nem mesmo as músicas pop internacionais dos anos 70 e 80 que aparecem em seus filmes os deixam um pouco menos locais. Kleber traz o Brasil de uma forma única e suas trilhas corroboram para filmes cada vez mais brasileiros.
Abaixo, confira uma playlist exclusiva da ISMO com músicas que marcaram os filmes do Kleber Mendonça Filho.