LZR resgata as raízes do UK garage e constrói a cena aqui no Brasil
O novo EP do produtor e DJ brasiliense traz a sonoridade old school do gênero londrino
No final do mês passado, LZR, produtor e DJ natural de Brasília que reside em São Paulo e movimenta a cena do UK garage por aqui, lançou Love from the Streets, EP de três faixas que resgata a sonoridade das origens do gênero.
O EP é o segundo lançamento digital da 2 Step Mafia Brasil, projeto criado juntamente com Teiu que foca em disseminar a cultura do UK garage no Brasil. LZR também toca a Grau, junto com a Suelen Mesmo, e atualmente integra a Tijolo Records.
Estamos observando um crescimento da cena do grime no Brasil, e é claro que o UK garage, gênero que precedeu o grime em Londres, não ia ficar de fora. Historicamente, o gênero faz parte da nossa cultura desde o começo dos anos 2000, com a sua primeira aparição no álbum de 2003 da Kelly Key, Do Meu Jeito, e cada vez mais, vem encontrando o seu lugar na indústria musical.
É nesses momentos de alta que se faz importante olhar para quem esteve pavimentando desde o começo. O LZR é uma dessas pessoas, e aqui falamos sobre o novo lançamento, a história do UK garage, indústria musical e a situação da noite em São Paulo — além de uma seleção de documentários que contam a história do gênero que estão espalhados pela matéria.
Esse EP é o seu primeiro lançamento do ano e o segundo digital da 2 Step Mafia Brasil. Qual é a importância desses lançamentos nas plataformas, além das dubplates que já vinham movimentando por baixo do radar?
No ano passado, eu deixei de fazer a quantidade de lançamentos que eu fazia, porque eu comecei a trampar com a Tijolo Records e acabou faltando tempo pra me dedicar a 2 Step como eu gostaria. Esse ano, tem um tanto de amigo que eu gostaria de lançar na gravadora, porque a gente conseguiu alcançar um público da hora fora de São Paulo — a gente agora tá com mais público em Londres do que no Brasil, e isso acaba dando uma visibilidade pra galera. Então eu fiz primeiro esse meu pra meio que ir lá e começar uma ideia, sabe?
Love from the Streets já está disponível nas plataformas digitais
Eu senti falta de fazer um bagulho que não era só festa, e por isso eu comecei a label. O bagulho de ser focado em garage veio um pouco dessa ideia de tentar disseminar a parada, de consolidar ali o negócio, porque a cena do Brasil é muito forte — a galera consegue se agilizar muito bem e todo mundo é muito bom em tudo.
Eu vou fazer um digital por mês, enquanto faço o planejamento dos físicos — porque o próximo físico vai dar um trabalho. Eu também me peguei pensando que tem um espaço a ser ocupado ali pela galera, e esses lançamentos digitais são mais focados em coisa autoral — então não dá pra mandar um edit, sabe? Você tem que fazer uma faixa mesmo, e isso é da hora também, porque é outra forma de pensar.
As faixas do EP carregam uma estética bastante original às origens do UK garage. Quão importante é resgatar essa essência do grave e da rua, pensando no lugar que o gênero ocupa e pode vir a ocupar no Brasil?
Eu fiz essas tracks num momento em que eu quis trabalhar com umas restrições, então fiz todas elas na MPC. Como eu já produzo há um tempo, e trampo com isso, uma hora você fica meio cansado.
Quando eu comecei a escutar garage e produzir, ali em 2018, foi meio que por conta de uma label — Swings & Roundabouts, eram uns white label. É bem da hora e essas tracks ficaram perdidas no meu HD antigo, mas aí eu escutei elas e pensei: "vou fazer um bagulho mais focado nisso", que é bem focado em loop, né? Uma coisa meio de máquina, mesmo.
Você tem uma restrição do jeito que você produz na máquina, e como eu dei uma dedicada maior pra isso, fatalmente cai nessa estética mais old school, por ter que fazer a parada inteira dentro dessa estrutura de loop. Essa coisa de tracks mega arranjadas, com milhões de transições, é muito ligado a um jeito mais moderno de produzir, que envolve o DAW.
Como eu fui autodidata com as paradas do Ableton, eu comecei a procurar bastante material, e me lembro que uma vez eu ouvi alguém falar um conselho: "se você quiser aprender sobre um estilo, estuda de onde ele veio, o que a galera tava produzindo no começo da parada". Então foi quase um exercício, tá ligado? Eram quatro canais — pouca coisa, pouco efeito também. Foi bem diferente dos outros bagulhos que eu produzo normalmente — a mixagem é diferente, a masterização é diferente.

Não sei se eu fiz pensando necessariamente no mercado, sabe? Eu fiz as track mais ou menos em uns dois dias — fiz quatro, uma foi para a REWINDBR, lá do sul, e aí eu tava com essas três paradas. Eu gosto muito desse bagulho mais old school, e acho que a galera dá uma atenção na parada. Hoje em dia, quem pesquisa garage é todo mundo esperto, não tem mais nenhum bobo.
É isso — é da hora, mas não tem muita gente que produz nesse pique. O som do Rassan é bem nessas ideias, o som do Cesinha, esse último EP que ele lançou de garage é bem foda. Acho que a galera não tem feito tanto assim nessa cultura de single, que é da hora pro produtor também movimentar as coisas dele, botar pra fora. Tracks funcionais, assim, pra tocar em pista — eu fiz elas pra tocar num rolê, porque eu achei que combinaria com umas paradas.
O EP chega na sequência do single "1:30Am", que contou com as participações do Kilombo e do Cons. Essa é uma das poucas faixas de UK garage no Brasil com MC's, né?
Tem o ruadois, lá de BH, eles já tem umas tracks antigas de garage, e no BRIME, a TERCEIRO MUNDO, que é um garagezão. Mas pois é, mano, tem pouco mesmo. E o bagulho bateu legal — eu tô até desenrolando mais uma com os moleques. Eu também quero dar uma atenção nesse lado e ter mais lançamentos assim, eu acho importante.
"1:30Am" conta com as participações de Cons e Kilombo
Eu entendo que o mercado tá sendo construído enquanto a gente tá aqui, sabe? Então, tem um lado que demanda algumas coisas mercadologicamente de quem tá movimentando essa parada. Esse bagulho que eu fiz com o Kilombo e o Cons tem um apelo comercial maior, tem um potencial de virar mais, porque tem voz. Mas eu acho que também tem um valor em lançar umas paradas que no final das contas quem vai gostar é realmente quem consome a parada.
É meio que uma responsabilidade que eu tenho com o meu público, de que tem uma galera que quer ver eu fazer uma parada diferente mesmo, e realmente não tem tanto lançamento de garage nesse pique mais old aqui no Brasil, mas é importante também.
Você enxerga que esse som tem espaço na noite em São Paulo, pensando tanto na sonoridade mais old school, como nessa mistura com MC's?
Não tem, tem que criar, né? Eu tenho a sorte de ter os espaços pra fazer os bagulhos, mas demanda uma energia produzir rolê, e eu acho que eu posso entregar uma parada mais da hora, pensando mercadologicamente — eu gosto de contratar as pessoas e pagar elas bem, sabe?
Isso é uma coisa que já tem muito tempo que eu faço e, pô, como isso vai depender de venda de ingresso? Isso tá complexo, e eu acho que eu tenho como fazer coisas da hora pra galera que é DJ, meus amigos e outras pessoas que estão começando.

De festa, eu tenho a 2 Step, que eu vou fazer o lançamento da camiseta, e com a Grau, agora eu acho que vou pra uns bagulhos mais educativos. Eu tô com umas ideias de fazer uns workshops de produção pela Grau com a galera que movimenta, que consome o meu corre, que produz. Tem um público que não tá dentro desse contexto, que é só consumidor da música, mas fundamentalmente, a minha base é maioria produtor e uma galera começando a produzir.
Pô, tem um monte de gente boa aí e não tem muito conteúdo dessas paradas. O Chediak faz um bagulho da hora, é massa, e ele fez tudo online, né? Eu queria ter essa parada pra galera poder interagir, pros produtores poderem trocar uma ideia ali, dentro de um contexto diferente.
Eu toco, mais ou menos, há 10 anos, e comecei tocando garage e house. Só que o garage não virava nada — eu flopei muita pista — e ficou comercialmente inviável tentar, porque não virava.
A Grau surgiu com a intenção de criar esse espaço e tornar viável?
É, mano. Sem nenhum papo de pioneirismo, porque não fui de forma nenhuma — lá em Brasília o Rassan já movimentava com a Nice and Deadly. O Rassan é um dos melhores produtores de garage que tem, e ele já tava movimentando.
Foi realmente por uma necessidade que eu e a Su começamos a Grau, pra ter uma festa onde a gente poderia focar nessas coisas mais britânicas. Não era só garage, a gente sempre deixava a galera livre pra tocar qualquer coisa dentro desse estilo, mas depois a galera também começou a querer tocar.
E nessa leva veio o grime, que parece ter chegado com muito mais força. O que pode ter motivado essa diferença na recepção?
O grime chegou aqui com muito mais força, sendo feito por uma galera que também já escutava garage, né? A célula rítmica do grime combina muito com a do funk, então acabou sendo fácil de misturar os dois contextos. E cresceu muito, muito mesmo.
Eu acho que o grime ficou maior no mundo inteiro. Agora tá tendo uma galera muito superstar que é DJ de UK garage — tipo, sei lá, o Sammy Virji — mas até muito recentemente, isso era meio que restrito aos artistas de grime. Pra mim, faz sentido também, porque o grime conseguiu se aproximar mais do rap do que o garage, que é muito música eletrônica, né? Isso, por si só, meio que dá uma restringida na quantidade de pessoas que vão ouvir.
Mas eu acho que, agora, esse rolê do garage tá crescendo aqui. O caminho talvez tenha sido o inverso do que foi na gringa — a galera começou a se interessar por garage por meio do grime.
Rewind 4Ever: The History of UK garage (2013)
Se você pensar, até historicamente faz um pouco de sentido — o primeiro 2-step não é de Londres, é de um mano de Chicago. A galera consumia muito essa parada americana, então faz sentido ter um boom disso primeiro pra galera se interessar por outras coisas. Ao mesmo tempo que o Brasil sempre teve uma cena de drum'n'bass e jungle enorme, então eu acho que era uma questão de tempo.
Em São Paulo, já teve o hiperfoco do electro, todo mundo fazia e produzia electro. Passou, mas não não deixou de existir — tem uma galera fazendo a parada em qualidade muito monstra. Teve o hiperfoco do jungle, teve o hiperfoco do grime, e às vezes eu sinto que agora tá rolando o hiperfoco no garage. Que é massa, porque acaba alcançando mais gente e difunde melhor a parada, sabe?
É curioso acompanhar esse crescimento do grime e pensar como isso pode trazer junto o UK garage, já que são gêneros que se desenvolveram de maneira muito íntima. Como você enxerga essa relação entre eles, pensando no surgimento lá na Inglaterra?
Pra mim são quase a mesma coisa. Eu não vejo tanta diferenciação, até porque o grime surgiu feito pela galera que produzia UK garage, né? Acho que é só mais recente que existe uma galera que começou produzindo grime — nessa época, todo mundo ou vinha ali do garage ou do jungle.
Tem um livro, Energy Flash, que é bem legal e fala bastante sobre isso. Ele não vai até tão longe na história, mas chega ali em 2006/7 — aí é que rolou essa gentrificação do estilo, que ficou aquela coisa muito pop. Em compensação, a galera que tava fazendo um corre mais da hora, tipo a So Solid Crew, acabou sendo reprimida pelo governo, então deu uma morrida no gênero, por um tempo.
This is So Solid - pt. 1 (2002)
Toda vez que a música eletrônica entra num lugar elitizado, tá tudo bem — e dentro de um lugar mais marginalizado, é sempre problematizado. O garage ficou grande o suficiente pra uma galera de quebrada querer ir lá e fazer aquilo como uma forma de sair dali. A música sempre foi um movimentador de classe muito grande, igual o futebol, né? Hoje em dia a galera quer ser MC.
Aqui no Brasil, a minha percepção é que, no ano passado, o garage ganhou uma atenção que não tinha, mesmo. E aí muita gente me pergunta: "pra onde vai a parada, o que vai acontecer?". É tão difícil essa leitura, porque depende de tantos fatores, mas eu acho que vai ter um crescimento ainda maior. Tá começando uma galera no mainstream fazendo — a galera tá crescendo e acaba alcançando mais gente.
O que precisa melhorar, tanto pro bagulho de grime, quanto pro bagulho de garage crescer, é dar uma voltada nos espaços, porque ficou meio limitado. Não tem mais tido tanto rolê, já teve bem mais. É que é isso, especialmente em São Paulo, tá bem difícil produzir festa. Eu tô nesse mercado há muito tempo — eu só trabalhei com música a minha vida inteira — e o que eu mais vi foi mudanças assim, sabe? E eu acho que a gente tá passando por um momento de transição, mesmo.
Sun, Sea and UKG | An Original Boiler Room Film (2018)
Eu admiro muito o trampo de todos os meus amigos, porque realmente é muito difícil — você ter a coragem de ir lá e fazer, pra mim já é uma vitória enorme. Mas eu acho que vai mudar, e é isso, não vai ser do nada. A galera tá construindo essa cena agora, mas é um pessoal que já tinha um carinho por tudo isso.
Tá sendo feito de um jeito massa, mesmo. Ainda não chegou no rolê de música eletrônica mainstream, mas vai chegar. Esse ano vai chegar, porque o que tem de DJ tocando speed garage em festival aqui no Brasil, uma hora vai vir.
E é natural esse tempo, mesmo, né? As coisas demoram para se consolidar.
Eu acho que é normal — tudo isso é muito novo. Até como produtor, é muito raro você conseguir desenrolar a parada bem e rápido, sabe? Música é uma parada que leva um tempo, mesmo. Lógico, tem gente que aprende muito rápido, mas a maioria das pessoas não. Acho que o tempo que levou era o tempo necessário, mesmo.
Eu acho da hora, também, a coincidência das nossas paradas estarem ocupando mais um lugar do mainstream, e chegar lá e entregar com qualidade. No final, a galera não entende que é cansativo igual todos os trabalhos. Você mixar um disco por dia, lançar track toda semana — que é uma demanda de gravadora — é cansativo. E você tem que estar pronto pra isso, não adianta chegar lá sem estar pronto, então acho que o tempo é sempre bom.
Eu nunca tive nada que "virou", sabe? Mas vários projetos meus alcançaram coisas que eu acredito que podem ser vistas como sucesso — e nenhum foi rápido, todos foram uma construção. E eu não me arrependo de nada, porque lidar com uma coisa que vira muito rápido, nessa indústria da música, é muito estressante.
Então eu acredito nessa parada da construção, mesmo, e do tempo das coisas. Levou um tempo, mas também deu tempo da gente chegar num nível e ter, sei lá, o Crosstalk, que não perde em nada pro Fred Again. O Antônio é um monstro, o Cesinha é um monstro — deu tempo da galera ficar muito boa, e agora que a galera tá dando uma atenção, a gente tem pessoas muito fortes na parada.

Ouça Love from the Streets, já disponível nas plataformas digitais e para venda no BandCamp, e acompanhe o trabalho de LZR, além da Grau e da 2SMBR nas redes.