Lado Direito do Palco é mais do que um lugar para encontrar os amigos

Como um ponto de encontro em shows se tornou uma mídia que acompanha Sepultura e sobe no palco com Fred Durst do Limp Bizkit

Lado Direito do Palco é mais do que um lugar para encontrar os amigos

Ir a shows é uma parada que a gente aqui na ISMO gosta muito e vai a diversos, cada um no seu estilo de preferência e, às vezes, até surfando outras plateias sonoras. Mas talvez os caras do Lado Direito do Palco gostam de ir a show multiplicado por 10.

Literalmente do lado direito dos palcos pelos shows afora, o Glauber Magalhães e o Antonio "Novato" Marques se encontraram décadas atrás e de lá não saíram - muito pelo contrário, fizeram do local algo maior que um ponto de encontro, mas um espaço de amizade, memória e conteúdo.

De uma rotina de festivais e apresentações das bandas a começar fazer vídeos contando as memórias de cada show, até chegarem a serem convidados para acompanhar bandas em turnê, os dois guardam com preciosismo cada detalhe - e os compartilham desde 2021 no Youtube e, mais recentemente, no Instagram.

Mesmo sabendo que o projeto hoje tem mais colaboradores, a gente bateu um papo com os dois precursores da ideia do Lado Direito do Palco e, entre muitas risadas, realmente o teste de memória dos caras está em dia, lembrando de shows que talvez eu nem era nascido ainda.


Como surgiu a ideia do Lado Direito do palco?

Novato: A gente brinca que o Lado Direito do Palco existe há mais de 30 anos (risos). O nome é um lugar onde e o Glauber encontrávamos a galera nos shows. Comecei a ir em show muito novo, com 12, 13 anos, ia com uma galera mais velha e para a gente não se perder, marcávamos um ponto de encontro, que era o lado direito, sempre. 

Quando eu conheci o Glauber, ele tinha a mesma característica! 

Glauber: Acho que mais do que isso, mais do que essa coincidência, lembro de que muito show grande eu ficava nesse lado direito. Quando o Novato trouxe o projeto e o nome, achei muito legal. 

Antes até da gente pensar no projeto, a gente já gostava muito de ir em show, então a gente tinha essa parada de compartilhar essas apresentações - quando eu não podia ir, ligava pra ele pra descolar o ingresso e vice-versa. Não tinha essa coisa de vender pro outro, era pra ir, o cara gosta tanto quanto eu!

Novato: O embrião do projeto começa depois de um show do Anthrax com o Misfits, em 2012 - o Anthrax foi foda, mas o Misfits foi uma bosta, inclusive (risos) - e a gente sempre tinha essa resenha de falar de shows, então saímos falando sobre isso e sobre gravar esses papos! O Glauber trabalha com audiovisual, eu não, mas ficamos nessa conversa. 

Glauber: Todo show depois desse a gente ficou pensando em gravar essas histórias - já fomos em show pra caralho.

Novato: Na pandemia, com aquela loucura, a gente estava ficando maluco e aí pensamos em contar essas histórias. Rascunhamos esse projeto, nos reunimos num estúdio bem controlado e gravamos os primeiros episódios, contando as histórias de shows que já tínhamos visto. Um bate-papo de boteco, contando sobre o que a gente viveu. 

O que muda, é que depois da pandemia, a gente começa a ir nos shows e começa a contar a história como contamos agora. 

Glauber: Cara, a gente gravou mais de cem programas! De falar de bandas a falar de coisas de show, tipo sangrar em mosh, tretas, histórias cabulosas pra voltar pra casa… A gente sempre teve uma preocupação de abordar vários assuntos e depois que começou a voltar os shows, a gente foi fazendo mais in loco. Nos primeiros cento e poucos programas, eu editava tudo e colocava no Youtube. O instagram não era plataforma de conteúdo, era de divulgação. Depois não tive mais tempo de editar - e as edições eram minuciosas, com detalhes e imagens de cada show. Esse tempo livre que eu tinha morreu, mas caiu nessa fase de abrir os shows e começamos a trabalhar mais o instagram, onde hoje somos muito maiores. 

Lado Direito do Palco e a galera no show

Como que de "ser um lugar pra vocês se encontrarem" foi se transformando em um canal, um espaço pra fazer conteúdos? 

Novato: Cara, é legal ressaltar que a gente não é jornalista. Se você quer um conteúdo jornalístico foda, tem o Gastão, por exemplo, um cara que é fera nisso. Mas uma coisa que a gente tem é memória dos shows, lembrando de cada detalhe.

Glauber: A gente errava muito pouco (risos). 

Novato: O Glauber lembra datas! Quando a gente contava histórias do que tinha acontecido, era essa memória que estava na nossa cabeça, do que tinha rolado. É algo que sempre teve na nossa mente. A gente não tinha essa de saber o nome da mãe do vocalista - a gente sabe o que rolou no show! 

A gente não quer ser crítico, sabe? Não tinha shows antes, quando a gente era moleque, mas hoje tem show pra caralho. Soltaram Mr Bungle, Dream Theater e Halloween anunciados no mesmo dia! Antes você ia no show pra curtir, não pra ficar criticando. 

Mas até onde vai o “ir pra curtir o show” com a necessidade de criar conteúdo? Qual é a linha de ultrapassar um ou outro? 

Glauber: A gente falou disso hoje (risos). 

Novato: O que acontece é que o canal foi crescendo e a gente foi ganhando credenciamento nos shows. Quando você vai credenciado, é óbvio que vai com um peso de fazer uma entrega sobre aquele show. Não estou indo só pra tirar uma onda. Mas no Mr. Bungle do ano que vem, eu pensei em comprar ingresso e nem levar o celular (risos). 

Glauber: Eu vi o Mr. Bungle em 2022, então ia falar pra ele ir pra morrer no mosh e eu ficava trampando, de boas!

Novato: Tem diferenças entre quando a gente está com tesão pra fazer aquele conteúdo ou não está. Quando a gente está, o conteúdo acontece, ele flui. Quando você não curte, é mais difícil de trabalhar. Mas o objetivo do canal é mostrar nossa experiência, nossa vida ali no rolê. 

Posso dar um exemplo claro: o Sepultura ano passado, fizemos mais de 25 shows, a convite deles para estarmos no show da turnê no Brasil e tinha momentos que eu tinha que fazer entregas pra eles - antes de começar o show eu tinha que gravar a abertura deles falando; outro momento eu tinha que escolher uma pessoa para tocar Kaiowas no palco. 

Glauber: Essas coisas não aconteciam quando a gente não estava lá e isso deu um puta ganho no conteúdo deles também. 

Novato: Sim, esses momentos eram de entrega, que eram pra serem feitos. A gente ama show, mas tem hora que tem que fazer um trampo. 

Glauber: Cara, outra coisa engraçada é que a gente grava os shows e muitas vezes o áudio sai com a minha voz gritando a letra (risos). Aí agora a gente grava um refrão sem cantar e depois canto quando para! 

Vejo que vocês cobrem desde o metal extremo até a MPB. Tirando esses shows que vocês são convidados, tem um critério pra escolha de shows? Existe algum gênero que não entra? 

Glauber: Eu acho que tem que ser de verdade, mano, o que for real a gente curte ir. Semana retrasada, rolou um show da Marisa Monte, um negócio completamente alheio às coisas que a gente vai. Foi um puta show! Fiquei de cara, é uma puta produção. 

Se é algo de verdade, tem que ir! 

Mas o público de vocês aceita legal vocês irem em outro show que não seja hardcore ou metal? 

Novato: Não, mas flopa. Uma coisa legal é que a gente tem pouco hate, a galera reclama mais sobre nós não estarmos em tudo! Como é uma visão do que a gente vive e a gente é real, não é algo forçado. Por exemplo, teve o show do Kevin Johansen e o Liniers, um toca e o outro fica fazendo desenhos. Eu fui e teve gente do metal extremo pirando no conteúdo! 

A gente fez Racionais em novembro do ano passado. Eu nunca fui do rap, mas por que não fazer? O Lado Direito do Palco não é o lado do rock ou do metal, é o lado da música. A vida é estar em diversas situações, mas lógico que nosso portfolio principal é o punk/hardcore/thrash metal, mas surge uma oportunidade interessante, a gente vai pra cima.

Mas indo a vários shows, existe uma necessidade de uma urgência em postar os conteúdos? Como vocês conciliam isso com a vida fora dos shows? 

Glauber: Se o wi-fi da casa for bom, sai na hora (risos). A gente tenta fazer in loco, com a coisa rolando, muitas vezes não rola porque tem muita gente usando o celular ao mesmo tempo. A gente tenta faze uma coisa mais factual e depois gravamos um material para ser lançado uns dias depois falando do show. Algo mais factual no stories e depois no feed a gente edita melhor, corta, ilustra… Novato: No stories a gente costuma contar histórias, chegando na casa, vendo o merchan, o começo dos shows… No feed nossa entrega é qualitativa, mas às vezes acontece de ter algo que precisa ser agora. Por exemplo a vez que o Glauber estava nos Estados Unidos, conseguiu subir no palco do Limp Bizkit e beijar a mão do Fred Durst - era uma da manhã e a gente resolveu postar. 

Mas a ideia é fazer uma entrega legal falando daquela situação, não impede ser hoje, daqui dois dias ou daqui algum mês. Do Sepultura, por exemplo, temos conteúdo para postar até morrer (risos). Nosso objetivo não é o like, mas sim documentar a parada. 

"O Lado Direito do Palco não é o lado do rock ou do metal, é o lado da música" - Novato

Quando foi a virada de chave que vocês notaram que o projeto estava crescendo?

Novato: Teve o Kool Metal Fest, do Ailton, um show que fui sozinho na Fabrique e saindo de lá um cara me abordou e falou “Lado Direito do Palco, muito louca a cobertura de vocês”, e eu não fazia ideia de quem era o cara (risos). A parada era pequena na época, mil seguidores…

Glauber: O momento pra mim foi num show do Metallica em 2022, pegando uma cerveja com meu irmão e um cara colou e perguntou se eu era o cara do Lado Direito do Palco, quis tirar foto, um cara de Sorocaba. Na hora que ele saiu, meu irmão perguntou se era piada, se era meu brother (risos). 

Uma outra situação que é engraçadíssima, estávamos eu e o Novato no Best of Blues com o Gastão - hoje ele sabe quem a gente é, mas na época a gente se apresentou e tudo mais. A gente trocou mó ideia com ele, ele é muito gente boa. Aí colou uma mina do nosso lado e pediu uma foto, mas não falou que era com a gente, achei que era com o Gastão. Aí ela “não, queria tirar foto com vocês”. Era tipo ter o Romário e do lado o Valdo e o Bismarck e ela querer tirar foto com eles! (risos).

LDdP e Gastão Moreira

Outro momento que explodiu nossa mente foi ter feito a turnê do Max e do Igor (Cavalera) em 2022 e ele ter mencionado a gente no palco em todos os shows da tour! 

Novato: A virada de chave mesmo foi no Summer Breeze, que hoje é Bangers… Eu fui convidado pelo Marcos Hermes, pica da fotografia, para ser a equipe dele. A gente fez uma baita trabalho diferenciado no festival e muito do que vem sido feito hoje em dia, foi o que a gente fez no Summer Breeze. A gente sempre está lá como uma mídia oficial do festival.

E o próprio convite do Sepultura, que inegavelmente é um momento diferente pra gente. 

Qual foi o show mais marcante pra cada um de vocês?

Novato: Foi um show que eu perdi um dente (risos). Lembra do filme do Senna? Ele comentava que o pure racing era correr de kart. Se eu for comparar show com pure racing, eu diria que é um show no bar Black Jack, show do Siegrid Ingrid, na primeira música tomei um soco na cara e perdi o dente! Esse show eu não assisti direito, fui parar no hospital, tive que fazer implante, mas ali era o pure racing pra mim! 

Mas de show grande foi ver AC/DC no Pacaembu, em 1996, esse show foi o melhor da minha vida, com estrutura foda, quando a gente não tinha isso direito. Nesse show tinha uma parede com bola gigante que abria o muro, os caras saíam tocando da garagem, era muito foda. Se hoje impressiona, imagina em 96! 

Isso para não falar do Suicidal Tendencies, minha banda favorita (risos).

Glauber: Eu vou falar de um show que o Novato vai me xingar (risos). Eu era meio órfão do Suicidal, não vi em 94, não vi em 97… Em 98 eles voltam, eu comprei e cancelam uma semana antes. Aí em 2005, mesma coisa, cancelaram de novo. Em 2008, eles voltam pra América do Sul, mas só no Chile. Eu liguei pra minha namorada na época e a gente tinha acabado de falar de noivar, de guardar grana, e ela falou: “Você não vai?”. Por isso hoje ela é minha esposa (risos).

Aí eu fui pro Chile ver o Suicidal! 

Novato: E ele nem me ligou pra falar pra irmos! 

Glauber: Cara, ele foi a pessoa que me deu os CDs nos anos 90 pra eu ouvir e pirar na banda. Quando eu chego no Chile, o show era num pico do tamanho do Black Jack, em Valparaíso, uma sobreloja chamada El Huevo, não à toa. Muito pequeno e o Suicidal tocando lá, achei até que era golpe, mas foi o show mais insano que eu vi, em termos de violência - o mosh chileno é diferente, os cara são sangue no olho! 

Esse show é o underground pra mim, mas o maior foi o de 2015 do Metallica que eu vi dentro do palco! 

Vejo que a vida de vocês é ir em show - chega um final de semana, já tem show pra ir. Dá pra conciliar isso com o bolso vivendo no Brasil? 

Novato: Cara, como a Prika, da Nervosa, falou: “Dá pra viver de música no Brasil? Dá mas é difícil pra caralho”. Com show é a mesma coisa, mas se você vai hoje num show grande, nas próximas semanas você pode ir ver bandas menores, curtir o cenário underground, ir no Tendal da Lapa ver shows de graça, se você é de São Paulo... Você consegue ir sem gastar muito, tem muito rolê legal acontecendo, de qualidade, com bandas legais, equipo legal, rolês ótimos de fazer. 

No Lado Direito do Palco a gente compartilha todo tipo de show, grande ou pequeno, estamos aqui para movimentar a cena, ajudando a divulgar, mostrando o evento.

Qual o show que está faltando na vida de cada um? Um show dos sonhos. 

Novato: A gente não viu o Ramones.

Glauber: A gente nem gosta de falar sobre, a gente quer chorar quando fala de Ramones (risos). Nas bandas que estão tocando, a gente não viu (Rolling) Stones e eu quero ver ainda. Mas o Ramones, de fato, cara… Isso é foda. 

Glauber: Em atividade, queria ver o Misfits com a formação original. Eles fazem poucos shows assim, meio que só nos Estados Unidos. No hall da vida, a gente está três passos atrás, porque não vimos Ramones. Eu estou há 4, porque não vi Pantera! Eu tomei café com o Marky Ramone na turnê, perguntei até se tinha ingresso, mas estava sold out. Eu fui na porta, senti o cheiro do show do Ramones e fui embora.

Novato: Cara, essa entrevista foi uma merda, olha essa última pergunta, trouxe um trauma pra gente. Podemos encerrar por aqui? (risos). 

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