Jenny Holzer: o peso da palavra
Como a artista norte-americana se transformou em um dos maiores nomes da arte usando frases de efeito e plataformas diferentes para suas palavras
Na efervescência da arte dos anos 80 no século XX, uma artista se destacava como representante da linguagem em forma de aviso: Jenny Holzer buscou na força das palavras o lugar onde sua arte aconteceria e, por muitas vezes, chocaria o mundo. Apesar de seu nome ser gigante no fim dessa década, foi nos anos de 1970 que ela se mudou para Nova York e encontrou uma via perfeita para expressar seus sentimentos nas paredes da cidade.
Seu primeiro trabalho a ser visto na cidade, Truisms, consistia em uma série de posteres de frases não-lineares, escrito em letras maiúsculas bold e itálicas, espalhadas por toda Manhattan. O projeto convidada os transeuntes a refletir sobre várias questões com frases diversas - uma das suas mais famosas “Abuse of power should come as no surprise” ou “O abuso de poder não deveria ser visto com surpresa”, a acompanha desde essa fase de seu trabalho, que durou de 1977 a 1979. Nessa época, Jenny ainda fazia suas instalações de forma anônima, apenas colando seus cartazes pela cidade sem assiná-los ou se apresentar como dona.


Os pôsteres de Truisms em Manhattan nos anos 70
Esse projeto foi a base fundamental de sua arte, permitindo que sua interação com o público fosse de forma escrita, variando entre plataformas, tamanhos e possibilidades. Seu próximo trabalho foi o Inflammatory Essays, seguindo a premissa do anterior, mas agora com o limite de 100 palavras e com uma linguagem mais agressiva - e escrito em papéis de cores diferentes dessa vez. Frases como “você tem ótimas sensações com armas” ou “porque não existe um deus, alguém tem que ser responsável pelos homens” ditavam um caminho mais incisivo e coexistiam entre o que era real e absurdo aos olhos dos milhões de visualizadores das ruas de Nova Iorque. O trabalho falava sobre intolerância, violência, consumo desenfreado, disparidades entre sexos e o constante abuso de poder de autoridades. A artista usava textos comunistas, como de Lenin, Trotsky, Engels, Marx e outros, além de passagens religiosas. Sua frase “se você se comportasse, os comunistas não precisariam existir” é desse período.

Em 1981, sua arte ganha nova plataforma e adentra os museus da cidade. A série Livings brincava com o tom autoritário usando placas de bronze para dar um ar de mensagem estabelecida, cravando letras em bancos de mármores e pintando placas como novos formatos.



Livings ganha vida em bancos

Nos anos 80 seus trabalhos ganharam diversas bases. De pôsteres a placas até chegar nos letreiros eletrônicos - é quando o computador vira aliado na arte de Jenny Holzer e seus trabalhos brilham ainda mais, com o perdão da figura de linguagem. A série Survival chegava com destaque e patrocínio do Fundo de Arte Público (Public Art Fund Program) usando paineis de LED na Times Square e falando sobre dor, política, auto-crítica e críticas sociais.


Frases na Times Square



Dentro ainda de Survival, o Nirvana posava em frente a frases de Jenny (fotos: Stephen Sweet)
Com os paineis de LED, outra ideia viria seguir esse desejo de ter sua arte espalhada por mais lugares. A série Sign on a Truck, que começou em 1984, é uma que acompanha a artista até hoje e começou em um tenso momento político americano e teve participação de artistas convidados como Barbara Kruger, Keith Haring and Claes Oldenburg. O curioso dessa série é que, com a política americana em suas altas e baixas, ela sempre acha um momento perfeito para reaparecer e continuar existindo dentro dos novos contextos.


Sign on a Truck em 1984

O trabalho de Jenny Holzer ganharia outras plataformas, ficaria gigantesco em fachadas de prédios ao redor do mundo e os adentraria também. Laments, Mother and Child, Lustmord, entre outras séries estão no vasto repertório da artista, que até hoje em 2026, com 75 anos, continua criando e impactando em frases que atravessam contextos.


Jenny Holzer acredita que ser ouvida é importante. Em uma entrevista para Fondation Beyeler, Jenny comenta que “às vezes a plataforma vem antes e requer um tipo de texto ou de informação”. Seu trabalho eloquente, expansivo e sempre reflexivo de alguma forma trouxe inspiração para diversos outros artistas usarem as palavras como plataforma criativa e de inserção no ambiente urbano.