Eumir Deodato: o elo entre a Bossa Nova e o funk americano
Responsável por definir o som de Kool & the Gang e Björk, é mais um dos gigantes esquecidos atrás dos palcos
Aqui na Ismo estamos tomando gosto em escrever sobre figuras que impactaram nossa música mas, por diferentes motivos, não estão com o nome cravado no imaginário coletivo do público, como são Jobim, Gil, Gal e Milton.
Nessa leva de gênios silenciosos, está a figura de Eumir Deodato, que se comparado a Paulinho da Costa, o batimento cardíaco do pop, pode ser considerado o sistema nervoso central do jazz e do funk no século 20. De arranjador da Bossa Nova ao vanguardismo da eletrônica dos anos 1990, a trajetória é de um constante crossover entre gêneros e sons.

Antes de mais nada, dá pra dizer que Eumir Deodato era um prodígio, daqueles nerds cabeçudos que olham de uma outra forma para temas que estão em alta. Se a boemia carioca estava pirando no lirismo, ele queria saber mesmo é da estrutura. Além de tudo, era autodidata no piano, violão e, principalmente, na regência. Para completar, aos 17 anos já estava escrevendo arranjos para orquestras e, aos 22 lançou seu primeiro disco, Inútil Paisagem (1964), que serviu de prelúdio do que esperar de sua carreira: frescor e sofisticação.
Depois de alguns trampos com Marcos Valle e Milton Nascimento - tem dedo dele no Clube da Esquina - que o ajudaram a se conectar com nomes do mercado, Eumir entendeu que o incipiente mercado nacional, muito controlado pela ditadura e com pouca abertura para experimentações, não comportava sua genialidade. Pegou as malas e foi para Nova York, com uma indicação de Luís Bonfá embaixo do braço.
O ano era 1967 e rapidamente conseguiu entrar na CTI Records, gravadora recém fundada, mas que se tornaria o marco zero do jazz-fusion. A estética era das mais luxuosas, com capas assinadas pelo fotógrafo Pete Turner e um som tão improvisado quanto limpo na produção.
Nesse contexto, teve a oportunidade de trabalhar e polir a música de nomes como Wes Montgomery, Stanley Turrentine e os gigantes George Benson, Frank Sinatra e Aretha Franklin. O ponto é que até aquele momento a galera não conhecia seu trabalho como músico mesmo, solo, o que muda em 1973.
Prelude (1973), primeiro álbum de Eumir pela CTI, foi gravado alguns anos depois do lançamento de 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968), filme de Stanley Kubrick que marcou a época e tinha como tema musical o clássico Assim Falou Zaratrusta, de Richard Strauss. Deodato pegou a grandiosidade de Strauss e subverteu tudo botando linhas de baixo funkeadas, um piano elétrico distorcido que soa quase como um sintetizador e seções de sopro aceleradas. O resultado transformou um clássico da música erudita num som dançável.
O tal single, Also sprach Zarathustra (2001), atingiu o 2º lugar da Bilboard Hot 100, ficando atrás apenas de Killing Me Softly with His Song, de Roberta Flack, algo meio improvável mesmo naquela época, e ainda garantiu o Grammy de Melhor Performance Instrumental Pop em 1974. Ou seja, do nada, um arranjador e maestro brasileiro era uma das maiores estrelas do jazz, com o nosso molho e balanço.
Esse sucesso todo abriu portas que antes pareciam difíceis de alcançar, mas apesar dos números que Prelude, e seu álbum seguinte Deodato 2 (1973), conseguiram, Eumir percebeu que seu talento seria melhor aproveitado nos bastidores da música, ou melhor, na produção. No final dos anos 1970, foi convidado para dar um gás no som do grupo Kool & The Gang, que para muitos críticos da época, passava por uma baixa criativa.
Nesta fase ele era o Midas do pop, transformando em ouro tudo o que tocava, independente do gênero. Uma melodia chiclete podia ser igualmente sofisticada e limpa, sem deixar de funcionar nas pistas de dança. O resultado apareceu em uma sequência de hits, que começou com Too Hot e Ladies' Night, no álbum homônimo de 1979, e culminou nos clássicos Celebration e Get Down on It.
Ou seja, se você já dançou Celebration, em alguma festa, ouviu num karaokê ou mais recentemente viu Get Down on It tocando em edits de adolescentes no TikTok, estava ouvindo os arranjos de um carioca da gema. Deodato provou pra todo mundo que dava pra ser muito técnico sem abrir mão do sucesso comercial, coisa que até hoje atormenta a cabeça de artistas e produtores.
Aliás, essa visão a frente do seu tempo fez com que chamasse a atenção de vários artistas que buscavam inovação. Enquanto os músicos do Kool & The Gang se aposentam com os royalties dos hits citados, Eumir se mantinha ativo e, nos 90, foi convidado por uma das artistas mais inovadoras do período, uma menina chamada Björk.
A islandesa, já com fama de esquisita, era fã do som que Deodato produziu na CTI e queria seus arranjos para o segundo álbum. Em 1995 ela lança Post, até hoje considerado um dos melhores discos da década, e que teve muito do estilo do nosso brasileiro impresso no som. Os arranjos de sopro não entram só pra ocupar espaço, quando na real definem muito do que o disco propõe, e foram muito elogiados na época.
A parceria entre o artista brasileiro e a jovem Björk continuou nos álbuns seguintes Telegram (1996) e Homogenic (1997), comprovando mais uma vez sua versatilidade. Em entrevista, ele chegou a dizer que humanizou o som da cantora, que era muito exigente e dedicada a provocar os ouvintes com novos sons.
A música dela é muito experimental. Eu queria humanizá-la, tornando-a mais coesa. Fiz remixes com ritmos de marchinhas, que ela adorou. A gente sabe quando a Bjõrk fica satisfeita porque ela começa a dar pulinhos de felicidade. Quando ela não gosta, ela vai embora.
Considero muito legal que um Eumir com mais de 50 anos estava atento à virada da música eletrônica dos anos 90, o trip-hop, e como esses gêneros poderiam se beneficiar de seus arranjos e produções. Melhor, se a gente consegue perceber as conexões desses estilos com o jazz dos anos 1970, é porque tinha gente como ele ali, dentro do estúdio, trabalhando com a nova geração, e não só inspirando.
Infelizmente essa inspiração bateu primeiro nos gringos e teve dificuldades de chegar aqui, ao menos com o nome e sobrenome de Eumir Deodato em destaque. A sua “não-presença” na grande mídia brasileira é resultado de vários fatores, como o exílio auto-promovido para os EUA, seu envolvimento com artistas que não eram tão bem aceitos no Brasil, a dificuldade de admirarmos quem não necessariamente é o rosto da música ou mesmo o distanciamento do regionalismo, tão marcante de alguns períodos da música brasileira.
Assim como Paulinho da Costa, estar nos bastidores fez de Eumir um clássico esquecido, mas não menos importante ou ouvido. Com mais de 450 álbuns, entre participações, produções, arranjos e discos próprios, poderia citar uma lista infinita de canções que tem o seu toque de ouro, e que provavelmente você conhece. De certa forma, é como se Deodato fosse o elo perdido entre Tom Jobim e o funk americano, sabe? Aquelas relações que parecem não fazerem sentido mas estão diretamente interligadas? Então.
Como vários outros artistas esquecidos ou pouco valorizados, o nome de Eumir Deodato voltou a aparecer mais recentemente através dos samples que produtores de hip-hop entregaram. Pete Rock & CL Smooth, J. Dilla, B.I.G., Lupe Fiasco, Common e Fat Joe são apenas alguns exemplos de rappers que rimaram sobre bases que resgatam os sons de Deodato.
Particularmente, é triste pensar que para uma geração, o elo que os conecta ao nome de Eumir, é o fato dele ser avô de Hailey Bieber, a esposa do Justin Bieber. De toda forma, é hora de olharmos para Deodato como alguém que exportou talento, mas acima de tudo, ajudou a arquitetar um som que não conhece fronteiras, territoriais e temporais.