Enrico Cerovac e a memória em movimento

Skate, imagem e deslocamento em Not Far From Here

Enrico Cerovac e a memória em movimento
Enrico nas ruas de Milão por Rafa Jacinto

Diretor e filmmaker baseado em Milão, Enrico Cerovac construiu sua trajetória a partir da interseção entre skate, imagem e cidade. Desde os anos 1990, quando começou a filmar e fotografar a cena do skate e do snowboard ainda adolescente, seu olhar se desenvolveu longe da lógica puramente esportiva, mais interessado em comportamento, paisagem urbana e nas relações que se formam a partir desses espaços.

Ao longo das últimas décadas, Enrico transitou entre projetos autorais, cinema, publicidade, moda e documentário, sempre mantendo uma conexão profunda com culturas underground. Esse percurso culmina agora em Not Far From Here, livro recém-lançado que reúne um arquivo fotográfico construído ao longo de dez anos, entre 2015 e 2025, atravessando cidades como Milão, Trieste, Londres, Paris, Nova York, Los Angeles e São Paulo.

Contatos e provas de Not Far From Here

Fotografado integralmente em filme 35mm, o livro não se propõe a documentar o skate a partir da performance, mas a revelar o que existe ao redor dele: gestos, encontros, erros, fluxos e a constante reinterpretação do espaço urbano. Entre o DIY e o mainstream, o pessoal e o coletivo, Not Far From Here funciona como um retrato íntimo de uma comunidade global conectada por um mesmo modo de olhar.

A seguir, Enrico fala sobre o início da sua relação com a imagem, a construção desse arquivo, as contradições da cena contemporânea e os caminhos que se abrem a partir do livro.


Você começou a filmar e fotografar ainda muito novo, imerso nas cenas do skate e do snowboard. Em que momento esse gesto quase instintivo se transformou em uma forma consciente de observar e narrar o mundo, que décadas depois se materializa nesse livro?

Nasci no comecinho dos anos 1980. Quando moleque, costumava “roubar” a câmera Hi8 do meu pai para sair de skate e filmar meus amigos e todos os personagens que orbitavam essa subcultura. Não se tratava apenas de documentar manobras, com o tempo, percebi que estava construindo uma forma pessoal de olhar para as coisas. Isso me deu um impulso forte para mergulhar de vez na cena daqueles anos.

Mais tarde, quase como uma brincadeira, partindo de uma pequena cidade na província de Trieste, onde nasci, comecei junto com dois amigos próximos um projeto de vídeo: um lançamento anual em VHS, depois em DVD, com cerca de 30 minutos, retratando riders da cena do snowboard e muitos skatistas, italianos e internacionais. Eu tinha apenas 18 anos quando, após a primeira produção e lançamento, totalmente sem patrocínio, empresas do setor passaram a apoiar o projeto, nos dando a chance de viajar, nos conectar internacionalmente e colaborar com realidades fora do universo dos board sports.

Sem que fosse essa a intenção, essa série de vídeos acabou se tornando um dos principais pontos de referência da cena na Itália naquele momento. Estávamos sempre na estrada, andando de skate com amigos, filmando skatistas e snowboarders. Foram anos incríveis. Durante todo esse tempo, continuei também fotografando, dentro e fora desse universo, principalmente para mim mesmo, o cotidiano, tudo ao meu redor, sempre com o mesmo olhar e atitude. Acredito que sigo fazendo isso até hoje. É um processo contínuo.

Ao reunir imagens feitas ao longo de dez anos, em cidades e contextos tão diferentes, o que esse processo revelou para você sobre o que realmente conecta a comunidade do skate para além da geografia?

O skate me ensinou a ler espaços e situações. Onde outros veem um obstáculo, um skatista enxerga uma oportunidade de fazer algo diferente, de reinterpretar aquilo a partir da própria sensibilidade. O que percebi é que essa forma compartilhada de olhar, comum às pessoas desse universo, permanece a mesma não importa em que parte do mundo você esteja. Acho isso incrível.

Para mim, isso se tornou um verdadeiro “passaporte social”. Onde quer que eu fosse, bastava aparecer no pico local ou na skate shop da cidade para conhecer pessoas imediatamente. Mesmo sem falar a mesma língua, eu fazia parte de algo, assim como eles. Eu me inseria automaticamente no cotidiano daquele lugar. Foi assim que construí conexões e amizades fortes que duram até hoje.

Harry "OG" Jumonji em NYC, 2015

O livro expõe uma tensão entre as raízes mais cruas e DIY do skate e uma cena cada vez mais atravessada pelo mainstream. Como você enxerga a cultura do skate hoje em comparação com o momento em que começou a construir esse arquivo, dez anos atrás?

Como mencionei, esse arquivo foi construído ao longo dos últimos dez anos, mas quando eu era mais jovem comecei a andar de skate nas ruas, com o que estivesse disponível. Havia pouquíssimos picos e eles eram bem rústicos, não existiam skateparks. Era uma atitude completamente diferente, outro tipo de busca. Era, em todos os sentidos, uma subcultura que confrontava certas regras impostas que você encontrava em outros contextos, totalmente livre e criativa.

Para mim, pessoalmente, também foi uma forma importante de escapar de muitos problemas. Nunca fui muito bom em encontrar equilíbrio na vida e, pensando agora, é um paradoxo como o ato de ficar em cima de uma prancha de madeira com quatro rodas acabou me dando mais estabilidade e direção ao longo do tempo do que muitas outras coisas.

Nos últimos anos, parte da cena tomou um rumo mais “orientado ao esporte”, com competições estruturadas, Olimpíadas e tudo mais, talvez se alinhando a outros esportes que não têm nada a ver com os motivos pelos quais eu, e acredito que muitos da minha geração, começamos a andar de skate. Essa é uma visão pessoal e provavelmente vai mudar com o tempo. Só espero que um pouco dessa alma e dessa estética original permaneçam. De qualquer forma, sempre vou apoiar o skate, sem fazer muitos julgamentos. Quando era mais novo, eu nunca suportei que me dissessem o que eu devia ou não fazer. :) 

Você descreve o skate como uma prática de releitura e reapropriação do espaço urbano. Depois de viajar por vários países e culturas, você vê isso como uma verdade universal ou surgiram nuances regionais específicas ao longo da sua documentação?

Sempre existem nuances e é justamente isso que torna tudo mais bonito. Os contextos culturais e socioeconômicos, assim como o momento histórico em que as pessoas vivem, têm uma influência enorme. Por isso viajar te enriquece. Você vê como as pessoas vivem o dia a dia dentro dos seus próprios espaços, e como eu consigo perceber isso e, de certa forma, levar comigo de volta para casa.

O livro abre com algumas fotografias feitas no Brasil. Como foi sua experiência aqui e até que ponto você conseguiu mergulhar na cena local do skate?

Ir ao Brasil, a São Paulo, foi incrível. A primeira vez que vi e conheci skatistas brasileiros foi no fim dos anos 1990. Sandro Dias e um Rodrigo TX ainda muito jovem estavam em turnê pela Europa com o antigo time da Reef. Eu nunca tinha visto pessoas tão felizes andando de skate, e naquele nível.

foco/zoom

Quando cheguei ao Brasil, vi com meus próprios olhos o nível, a quantidade de gente que anda de skate e o quanto o skate é vivido de forma intensa, e ficava me perguntando quantos skateparks existiam em São Paulo. É insano. Apesar da barreira do idioma, me senti acolhido imediatamente. Todo mundo estava feliz em me mostrar onde andava de skate e como vivia. A energia era inacreditável. Fiquei duas semanas e passou voando. Quero muito voltar em breve! (Eu amo pão de queijo).

Por que você escolheu fotografar em filme analógico 35mm?

Sempre fotografei assim. Não me considero um fotógrafo e, por razões práticas, sempre usei câmeras pequenas: uma Contax T2 ou uma Minox 35 GT, câmeras que cabem facilmente no bolso ou numa pochete, simples de carregar enquanto ando de skate ou filmo. Durante anos, também usei uma compacta de plástico da Canon que ainda tenho desde criança. Naquela época, eu não podia pagar por nada melhor.

Voltando à pergunta, acho que de forma inconsciente eu buscava uma linguagem visual que pertencesse ao meu passado. Ainda fotografo com essas duas câmeras. Quem sabe um dia eu mude (risos).

Depois de revisitar esse arquivo e transformá-lo em livro, “Not Far From Here” parece mais o encerramento de um ciclo ou o início de novas narrativas e formatos? 

Os dois. Acho que é o fechamento de um capítulo e o começo de outro. Tomara que o início de novas narrativas e, quem sabe, até de novos formatos. Vamos ver como isso se desenrola.


Se você curtiu o trabalho do Enrico e tiver interesse em adquirir uma cópia do livro Not Far From Here, ele está disponível para venda online no site da WITHSTAND e em livrarias selecionadas ao redor do mundo.


ISMO
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