De Cuba aos Panteras Negras: As revoluções por Agnès Varda

Quando uma artista escolheu fazer parte e não só observar os acontecimentos históricos

De Cuba aos Panteras Negras: As revoluções por Agnès Varda

No livro Onde foram parar os intelectuais? (Editora Âyiné), Enzo Traverso diz que o interesse pela memória passa a surgir quando, no século XX, as condições de vida permitem que pessoas possam viver mais e, com essa expectativa de vida ampliada, passam a ver com os próprios olhos os grandes acontecimentos da humanidade. Quando li isso, uma das primeiras pessoas em que pensei de exemplo, foi Agnès Varda, a cineasta e artista belga que, em seus quase 91 anos vividos, dedicou boa parte deles para registrar com sensibilidade e beleza o que lhe encantava, fossem grandes revoluções, ou o cotidiano de pessoas comuns de sua rua.

Entre François Truffaut, Alain Resnais, Jean-Luc Godard, e outros grandes da Nouvelle Vague, Varda não se contentou em servir de musa, pegou a câmera e, em mais de 60 anos de atuação, conseguiu realizar produções que foram do experimentalismo radical, seja na narrativa como na estética, ao documentário cru, passando, claro, pela ficção. Um nome que ficou marcado na história do cinema mundial, mesmo que por muitos esquecida, ou ao menos não tão reconhecida.

Frame do filme Visages, Villages (2017)

Recentemente, o Instituto Moreira Salles de São Paulo abriu a exposição Fotografia AGNÈS VARDA Cinema, um título simples mais muito bem pensado — como boa parte dos filmes da diretora —, já que seu nome e trabalho realmente se construiu entre essas duas expressões visuais: a fotografia e o cinema. Sem dar spoilers, pela exposição é possível perceber que desde muito nova o olhar de Varda estava atento para os corpos humanos, suas singularidades e potências criativas, algo que atravessa quase toda sua obra. Parte do lado mais radical a Nouvelle Vague — conhecida como “Rive Gauche” e que contava também com Chris Marker e Jacques Demy, companheiro de vida de Agnès —, ela é essa figura que presenciou acontecimentos históricos e, colocou seu talento em prol dos valores que defendia. E mesmo quando distante, dava seus pulos para registrar o que quer que fosse.

Dois projetos que exemplificam isso muito bem são Salut les Cubains (1963) e Black Panthers (1968). Os dois filmes não só capturam momentos importantes da história americana, como demonstram o perfil globalista de Varda. 

Logo após a Revolução Cubana, mais precisamente 83 dias depois, uma das primeiras leis assinadas pelo novo governo revolucionário foi a criação do Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficos (ICAIC), ação que explicita o valor que davam para as artes e seu poder de influência. A ideia era formar artistas e cineastas que comunicassem a revolução, primeiro para o próprio povo e depois para o mundo. Para tal, o governo convidou diretores internacionais para lecionarem no ICAIC e contribuírem com a propaganda. Jori Ivens, Theodor Christensen, Mijail Kalatosov… Uma galera visitou a ilha para ensinar e produzir seus filmes com equipes locais. Entre essa turma, estava Agnès Varda, que desembarcou em 1963 com uma câmera fotográfica Leica, centenas de rolos de filmes e, dos nomes citados, provavelmente foi a que melhor conseguiu registrar o espírito do tempo na Cuba pós Revolução.

Cuba, janeiro de 1963. Impressão digital póstuma a partir de negativo 24x36 Espólio Agnès Varda

Foram mais de 4000 fotos ao todo, material que continha imagens de crianças, mulheres, militares, monumentos, famílias. Desse montante, uma seleção foi editada no filme Salut les Cubains (1963), uma montagem de 30 minutos que de forma muito bonita e sincera registra o momento e as pessoas. É um mergulho sincero de uma mulher que entende seu lugar de européia ao mesmo tempo que se permite mergulhar na cultura local e, sem julgamentos, desconstrói o imaginário que existia sobre Cuba. É muito interessante ver como ela parece muito fascinada com tudo o que vê sem cair no lugar comum do pitoresco ou do exótico. 

O filme, uma das jóias da obra de Varda, foi o primeiro experimento feito por ela depois de lançar, no ano anterior, seu maior sucesso comercial, o longa de ficção Cléo de 5 à 7 (1962), e que mesmo diferentes, possuem suas semelhanças. Estão nas escolhas menos óbvias de montagem, ou na dignidade em que apresenta os personagens, seja ela uma parisiense de classe média, ou uma simples mãe cubana. Esse jeito de fazer cinema vai se estender por boa parte de sua produção e anos depois volta a aparecer em Panteras Negras.

Quando o marido, Jacques Demy, é enviado para a Califórnia para rodar seu filme Model Shop (1969), Varda aproveita a oportunidade para acompanhar de perto a efervescência dos EUA no final dos anos 1960. Ignorando o movimento hippie e a Pop Art, ela vai para Oakland acompanhar os Panteras Negras, mais especificamente o período em que seu co-fundador, Huey P. Newton é preso, e a organização está mobilizando manifestações em defesa do líder.

É curioso ver que apesar do peso do momento, a câmera de Varda consegue ser muito sutil e sensível, mostrando como mesmo sob adversidade, a comunidade conseguia ter leveza.

Assim como em Cuba, onde a diretora conseguiu desconstruir a imagem global dos revolucionários, em Oakland também se quebra a dureza tão lembrada dos membros do Partido dos Panteras Negras. Claro, não é como se não exista um peso no assunto ou no momento, mas Varda tem a capacidade de novamente mergulhar na cultura e, sem distanciamento, trazer luz a outros temas como autoestima negra e a participação de mulheres na liderança da organização. 

Diferente do filme de 1963, construído a partir das fotografias, Panteras Negras (1968), é todo filmado, bem de perto, e faz do espectador uma testemunha ocular do período. É um registro histórico ao mesmo tempo em que existe uma narrativa, como se os limites entre documentário e ficção fossem borrados. Homens, mulheres e crianças são registrados de perto e têm suas vozes ampliadas enquanto ela é recebida pelo grupo. 

São inúmeros os códigos que as lentes registram: jaquetas, boinas, cortes de cabelo. Mas além desses elementos clássicos, muitos reconhecidos até hoje, o impulso revolucionário dos Panteras Negras está presente no sorriso das crianças, no abraço entre homens, na postura elevada e imponente das mulheres. É, no fim das contas, essa atenção aos detalhes e ao que nos definem como ser humano que fazem o trabalho de Varda ser tão único e tão aceito, mesmo entre realidades tão distantes. Novamente, vemos uma mulher branca, vinda da Europa, ser completamente acolhida pela Organização, tendo liberdade para filmar como quiser.

"Eu tentei ser uma feminista alegre, mas eu estava furiosa" Frames do filme As Praias de Agnès (2008)

De Bruxelas a Paris, de Havana a Oakland, o trabalho de Agnès Varda não enxerga fronteiras e reflete a vida de uma criadora que colocou seu talento e visão artística em prol da mudança. É possível dizer também que sua obra não enxerga o tempo. Em 1977 ela lançou o filme Uma Canta, a Outra Não, em que discute o movimento feminista e a luta pelos direitos reprodutivos das mulheres e o aborto. Décadas depois, ela estava na linha de frente do protesto no Festival de Cannes de 2018, quando 82 mulheres se posicionaram nos degraus do Teatro Debussy exigindo paridade salarial, ambientes de trabalho diversos e igualitários, e maior presença feminina entre filmes selecionados pelos festivais. 

Varda ao lado de Cate Blanchet, em Cannes

Não precisou muito para que o trabalho de Varda fosse compreendido como uma referência, muito graças à postura aberta e, perdoe o clichê, pra frente do seu tempo. Desde os anos 1970 ela já era reconhecida como inspiração para artistas dos mais diferentes gêneros, e após sua morte, em 2019, sua obra continua impulsionando.

As salas lotadas no Instituto Moreira Salles são a prova viva de que a obra de Varda transcendeu o registro documental e se tornar um diálogo atemporal com o público. Entre a leveza inesperada na luta dos Panteras Negras e dignidade cotidiana do povo cubano , seu olhar nunca foi o de uma estrangeira distante. Ao unir estética e engajamento político, Agnès Varda deixou um legado que inspira criadores de todas as gerações, e continua a impulsionar o debate sobre o papel da arte na sociedade contemporânea.

A exposição ‘Fotografia AGNÈS VARDA Cinema’ no IMS Paulista vai até 12 de abril de 2026, com entrada gratuita.


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