Confia no carnaval

Thiago França, a Charanga e a política de ocupar a rua

Confia no carnaval
Foto: Alexandre Pereira

Na Santa Cecília, o som não se espalha. Ele bate nos prédios e volta. Precisa deles para existir. Não é metáfora, é acústica. “A gente não se ouve na horizontal”, diz Thiago França. “Com a quantidade de corpos, o som vira uma barreira. A gente se ouve na vertical, refletindo nos prédios.” É nesse corredor estreito, onde o grave ecoa e o sopro dos metais fura o ar, que A Espetacular Charanga do França constrói uma das experiências mais intensas do carnaval de rua paulistano. E também uma das mais políticas.

Carnaval é cultura de fresta. Foto: Alexandre Pereira

Durante muito tempo, o carnaval foi tratado como alienação. Um intervalo tolerado antes da volta à ordem. Essa leitura, como lembra Luiz Antonio Simas, é conveniente e pobre. O carnaval não é fuga, é cultura de fresta. Um modo de vida que insiste em existir quando tudo joga contra. Festa e luta não se anulam. Caminham juntas. Na fala de Thiago, essa ideia ganha chão, corpo e conflito.

“A rua nunca foi um território apaziguado”, ele diz. “Esse papo de carnaval como grande folia bonita é como a história é contada. Mas você volta lá, lê biografia de Ismael Silva, de Cartola, os caras iam pra rua e apanhavam da polícia.” A violência não é acidente na história do carnaval. Está na origem. O samba foi criminalizado. O corpo negro em festa foi tratado como ameaça. O que hoje aparece como tradição nasceu como enfrentamento.

Cartola e a repressão da polícia em ensaio da Mangueira em meio a ditadura militar. Foto: Eurico Dantas/O GLOBO

Num contexto urbano cada vez mais sufocado, esse conflito se intensifica. “Hoje é muito mais conflituoso. São Paulo é um canteiro de obras, dedicada à especulação imobiliária. Olinda é casinha. Quantas pessoas moram num quarteirão? Trinta, cinquenta? Aqui em um quarteirão moram mil. No centro, na República… Só no Copan moram cinco mil.” Não é apenas uma questão cultural, é uma questão também urbanística. Onde o espaço é escasso, a festa vira disputa direta por existência.

Essa disputa muitas vezes se materializa nas ruas de forma literal. “Eu já apanhei da polícia. Já apanhei da GCM. Ano passado, 44 anos, pai de família, barba branca, tomei chute.” O carnaval não acontece num vazio político. Ele acontece sob vigilância, sob regra, sob ameaça. Ainda assim, acontece. Talvez justamente porque o que se organiza ali assuste mais do que parece.

Charanga é curtição mas também é resistência. Foto: Alexandre Pereira

Em certo momento, Thiago recorre a uma imagem ancestral que atravessa a história da dança e do êxtase coletivo, como descreve Barbara Ehrenreich em Dancing in the Streets. A ideia é simples e poderosa: um grupo de corpos pequenos, movendo-se de forma organizada, passa a ser percebido como uma única criatura maior. A dança não seria apenas celebração, mas também estratégia de sobrevivência. “Um monte de gente se articulando por autogestão, independente do poder público”, diz Thiago. “Aí você entende por que assusta. Imagina esse povo todo organizado pra votar contra mim.”

A Espetacular Charanga e a Santa Cecília tomada de foliões

A rua cheia assusta porque revela potência. Não só numérica, mas simbólica. Gente aprendendo a se organizar, a negociar espaço, a existir junto fora das mediações tradicionais do Estado e do mercado. É o que Simas chama de política da vida miúda: não o grande evento institucional, mas a prática cotidiana de produzir mundo na fresta, no improviso, na convivência forçada.

Essa dimensão política, porém, não nasceu como plano. “A Charanga não se politizou porque eu acho graça. Eu só queria tocar sax.” A política veio depois, imposta pelo atrito com a cidade, com o poder público, com o mercado. Não como discurso abstrato, mas como consequência direta de ocupar a rua. Quando um corpo coletivo insiste em existir, a neutralidade deixa de ser opção.

A Charanga é Antifascista. Foto: Alexandre Pereira

É nesse ponto que o posicionamento se torna explícito. A Charanga desfila com estandarte antifascista e faz questão de levá-lo para o centro da rua. “A gente tem um estandarte antifascista que vai com a gente. E nenhum patrocinador quer botar marca ali.” A recusa, para ele, é reveladora. “O que é negar o antifascismo? Não existe campo neutro. Se você não é antifascista, você é o quê?” Em um país que normalizou o autoritarismo e a violência política, afirmar isso em plena festa é disputar sentido. A música não é neutra. A rua não é neutra. A festa também não é.

A partir daí, o carnaval deixa de ser apenas celebração e se torna plataforma e uma lente de aumento da sociedade. “Virou espaço pra discutir violência contra a mulher, racismo, reciclagem. Se o poder público quisesse, era uma oportunidade de entender os problemas da cidade, as demandas da população.” A pauta do “não é não”, por exemplo, não surgiu pronta. Foi construída no conflito. “No começo, quando a gente falava de regra, tinha gente que achava chato. ‘Carnaval é carnaval, tem que passar a mão.’ Homens e mulheres falavam isso.”

Na Charanga, as mulheres também tem vez na fanfarra. Foto: Alexandre Pereira

Esse processo desmonta a ideia de carnaval como terra sem lei. “Não é um vale encantado. A gente ainda tá aprendendo.” Aprendendo a conviver, a escutar, a cuidar do outro. Aprendendo que festa não suspende responsabilidade, mas cria outro tipo de pacto social, onde o coletivo precisa funcionar para que a alegria exista.

Mesmo assim, a festa segue sob suspeita. “Catolicismo, cristianismo, têm tentáculos e pautam comportamento. Buraco no asfalto e o povo fazendo carnaval. Como se uma coisa impedisse a outra.” A lógica da culpa atravessa o discurso público: tem gente morrendo em algum lugar do mundo e vocês aí na rua celebrando. Como se o prazer precisasse ser adiado até que todos os problemas do mundo estivessem resolvidos. Um cruzamento entre moral cristã e racionalidade neoliberal que transforma a alegria e a festa em privilégio indevido, em culpa.

O Azul é a cor mais quente na Charanga. Foto: Alexandre Pereira

Os números, porém, contam outra história. “Financeiramente tá comprovado que o carnaval é um sucesso. Os três eventos mais lucrativos da cidade são a Parada Gay, a Fórmula 1 e o carnaval. Números frios: quem mais arrecada é o carnaval.” Ainda assim, o custo político de apoiar a festa é alto. “Prefeito conservador paga um preço. Base evangélica cobra: vai fazer, mas sem baderna. Vai fazer, mas acaba às seis. Vai fazer, mas não tem dinheiro pra vagabundo.”

Essa contradição aparece de forma gritante na distribuição de recursos. “A prefeitura acha ok dar 2,5 milhões pra dividir em 100 blocos e paga 5 milhões de cachê pra um DJ gringo que ninguém sabe quem é.” A conta vira símbolo: “um bloco vale 25 mil. Um DJ vale 200 blocos.” Sendo que, somente no último ano, o carnaval gerou 3,4 bilhões de reais de receita para a cidade.

Thiago, o linha de frente da Charanga. Foto: Alexandre Pereira

Com o crescimento insustentável e artificialmente acelerado, a fresta começa a apertar. Exigências aumentam, custos explodem, patrocínios impõem limites. O risco deixa de ser apenas repressão e passa a ser domesticação. “O que não pode acontecer de jeito nenhum no carnaval de São Paulo é o que acontece ali no carnaval de Salvador.” A referência é direta ao modelo em que a mercantilização do espaço público transforma a rua em circuito, o bloco em produto e a participação em credencial, em abadás que chegam a custar milhares de reais. “O mercado vai comer, mastigar e cuspir de um jeito predatório. A cidade vira camarote a céu aberto. Tudo negociado.”

Contra essa lógica, a resistência se dá na escala do bairro. “Eu não abro mão de sair do bairro. É onde eu moro, tem identidade, apoio do comércio, ensaio aberto com tiazinha, criança, cachorro. Não abro mão de estar aqui.” Não é nostalgia. É estratégia política. Manter a festa enraizada é impedir que ela se torne apenas mercadoria.

Charanga é isso: saxofones e punhos cerrados pro alto. Foto: Alexandre Pereira

No fim, quando a conversa pede síntese, Thiago não recorre a teoria nem a slogan. O recado é simples, quase um convite: “Confie no carnaval. Confia e vem.”

Confiar no carnaval é confiar na rua. No corpo coletivo. Na ideia de que festa também é política, não porque carrega um programa fechado, mas porque ensina, no ritmo do sopro e da batida, que viver junto ainda é possível. Mesmo quando tudo parece conspirar contra.


Bora viver a Charanga na prática? Confira abaixo a agenda deles no carnaval 2026 e acompanhe o Instagram da Charanga para mais informações:

08/02 - Charanguinha no Parque Villa-Lobos, 10h30
08/02 - Abertura do desfile do Acadêmicos do Baixo Augusta, 14h
11/02 - Carnaval da Baleia na Praça do B32, 18h
12 e 13/02 - Baile à Fantasia na Casa de Francisca, 20h
14/02 - Baile de Carnaval do SESC Santo André, 16h
15/02 - Charanguinha no SESC Consolação, 15h30
16/02 - Cortejo do Espetacular Bloco da Charanga do França na Santa Cecília, 09h
21/02 - 6º Cortejo da Charanguinha na Praça Rotary na Vila Buarque, 10h
21/02 - Abertura do desfile do Navio Pirata no Ibirapuera, 14h


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